Parecem heras multicolores, a crescer descontroladas pelas paredes de Hong Kong. Por todo o território desta região administrativa especial têm sido colados milhares de post-its, do centro financeiro até aos subúrbios, com palavras de contestação e pensamentos dos manifestantes. Como o website Quartz reporta, há desde citações de Marin Luther King, Jr., até apelos duros de morte à polícia.

A sua difusão surgiu no âmbito dos protestos em Hong Kong contra uma proposta de uma lei de extradição que permitiria enviar cidadãos desta região administrativa especial para serem julgados em outros territórios sem acordo prévio, como é o caso da China continental.

As manifestações começaram no final de março, mas atingiram o seu pico em junho, quando as ruas foram ocupadas continuamente por manifestantes, que chegaram a invadir o Conselho Legislativo de Hong Kong. A contestação surtiu efeito, mesmo que temporário: a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, considerou a lei "morta"

No entanto, mais do que a oposição à lei, a tensão entre população e executivo surge de um temor antigo quanto a uma possível perda de autonomia deste território, que apesar de ser chinês desde 1999, beneficia de um elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, funcionando numa lógica de “um país, dois sistemas”. Esta questão agudizou-se também em 2014, quando ocorreu a revolta dos guarda-chuvas, assim chamada pela utilização destes acessórios por milhares de manifestantes para proteção face às granadas de gás lacrimogéneo da polícia.

Este medo, alimentado pela crescente indignação perante a violência com que a polícia de Hong Kong lidou com as manifestações, faz com que os ativistas não desarmem da sua luta política, que  vai continuar, garantem. Prevendo que a contestação pudesse perder combustível à medida que as ruas se fossem esvaziando e querendo continuar a fazer pressão sobre o executivo, os participantes começaram a substituir as manifestações por formas de protesto mais variadas, sendo a colocação de post-its uma delas.

As paredes estarem cobertas de post-its em si mesmo não é uma novidade, mas nunca até então o fenómeno se tinha espalhado desta forma pela cidade. Chamadas de “Paredes Lennon” — nome adaptado da Parede John Lennon de Praga, na República Checa, caracterizada pela sua mistura de cor e mensagens políticas —, a primeira a ser criada foi em 2014, durante o Movimento dos Guarda-Chuvas, quando uma secção de uma escadaria no complexo governamental de Hong Kong ficou coberta de papelinhos.

Agora, estes post-its têm se espalhado como “flores a germinar em todo o lado”, ditado chinês recuperado para os protestos, querendo dizer que a contestação já passou da baixa da cidade para os subúrbios.

Crystal Cheung, uma das protestantes responsáveis por criar uma Parede Lennon, disse ao Quartz que o seu intuito foi criar um sítio para as pessoas perceberem que “não estão sozinhas”. Mas mais do que providenciar um espaço de apoio e de sentimento comum, estas paredes têm-se tornado armas de arremesso contra o executivo por força das suas mensagens, multiplicando-se e viralizando nas redes sociais.

Contudo, nem todos os habitantes de Hong Kong são a favor destas iniciativas. Têm sido frequentes os casos de pessoas a querer arrancar os post-its das paredes, sendo normalmente cidadãos mais velhos e com uma postura pró-China.

No entanto, face a estas reações, os manifestantes têm sido rápidos, quer a repor os papéis rasgados, quer a criar postos de vigia para salvaguardar as paredes. Num caso em particular, um salão de jogos começou a colar os papéis por dentro da vitrine para evitar que fossem arrancados; noutro, uma jovem ativista de 21 anos destacou-se depois de, numa passagem de nível junto ao mercado de Tai Po, ter começado a cobrir as paredes com película aderente para proteger as mensagens.

Algumas destas mensagens, contudo, foram mesmo alvo de ação policial. Segundo o South China Morning Post, mais de 200 agentes foram destacados hoje de manhã para remover post-its em Tai Po que continham informação pessoal de funcionários da polícia de Hong Kong. A ação não encontrou resistência da população.

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