Diário de um pai em casa — Dia 14


Matemática. Outrora diabolizada por grande parte da classe estudantil – e o problema sem solução de muitos dos pais – é, hoje em dia, a disciplina da moda num mundo em que 3 mil milhões de pessoas estão confinadas às suas paredes por causa de uma pandemia.

Todos os dias, de uma quarentena iniciada seis dias antes do Estado de Emergência, escuto, sinto e respiro matemática, disciplina chamada a intervir em tudo, da epidemiologia (que estuda a forma de propagação de doenças contagiosas) à minha casa, feitas as contas, somos uma família de seis, a minha mulher, eu e os nossos quatro filhos, cujas idades somadas ficam a 4 da minha idade. E mais dois cães (neste momento, já não me lembro das respetivas idades).

Todos os dias, olho para as leituras de modelos matemáticos a explicarem as curvas e contracurvas da pandemia. O sobe e desce. Comparações. Previsões. E há por aí quase tantas previsões como modelos feitos em casa com a folha Excel. Toda a gente fala, explica e, parece saber ler estes modelos.

Todos os dias, religiosamente, busco fontes de informação credíveis (aqui no SAPO24) o inventário do número de recuperados, infetados, confirmados, suspeitos e mortos.

Todos os dias dou por mim, e por nós, a cumprir à risca um ritual de procurar este número. Tornou-se tema do dia. De respostas às perguntas dos filhos. Entre constatações de que “hoje morreram menos x pessoas em Portugal, Espanha ou Itália” ou frases de lamento “morreram mais x comparado com o dia anterior”. Hoje o número em Portugal subiu para 60 mortos. 3544 infetados.

Todos os dias, faço contas à vida. Fazemos. Tempo de outros números. Convido a economia a sentar-se à mesa, numa casa de onde nunca saiu. Faço contas de mercearia, contabilizo o que está falta (o exército de 4 filhos é pouco dado a racionamento, por enquanto) e antecipo o que posso prescindir.

Todos os dias, para além das constatações, cenários e previsões, penso que gostava de ouvir soluções locais e globais. Para outras curvas. Em V, U, ou L, já para não falar do I, a queda a pique.

Todos os dias, alguém intervém, constata mais factos, comunica algo novo ou simplesmente faz um apelo. Desde o ainda Ministro das Finanças, Mário Centeno, a empresários portugueses ou, numa escala mais global, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, que apela a doações de 1,8 mil milhões de euros, ou o Senado norte-americano, que aprovou o maior plano de recuperação económica (2,2 mil milhões de dólares). Abro a boca a números estratosféricos à espera de um helicóptero que despeje dinheiro.

Todos os dias, há números que entram no meu computador. Na aula virtual, WhatsApp e email. Irrompem teletrabalho adentro. Somos “professores”. Hoje debrucei-me sobre a matemática dos dois filhos mais novos. Ajudei na representação de um pictograma. Fácil. Menor facilidade esperou-me na isometria.

Todos os dias, há um final de um dia na escola, sem sair dela. Contabilizo o jogo dos chutos com o pé esquerdo ou passes (râguebi) com o lado mais fraco. No quintal, em casa, no corredor, no hall de entrada e na sala. Perdi-me na soma das vezes que ando para trás e para a frente ou a descer e subir escadas.

Todos os dias, conto (e temo) os dias até um de nós partir um candeeiro. Ou a cabeça.

Todos os dias, logo pela manhã, apresso-me a convencer os meus filhos que a “escola” vai começar, que a mesa tem de ser posta, pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, a máquina da louça está à espera deles e que a vassoura para limpar migalhas das bolachas e do pão é a nossa melhor amiga por estes dias.

Todos os dias, conto o número de dias com crianças em casa: 14. Passaram 14 dias. E, em abono da verdade se diga, que em todos os dias passados, nenhum foi igual ao anterior. Se é bom ou mau, deixo à consideração de cada um.

Por fim, todos os dias me lembro que o “culpado disto tudo”, desta conversa à volta de números, é de Jorge Buescu, a quem agradeço ter soltado o matemático que há em mim.


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