A princípio é simples. O Tiago tem cinco anos. Sexta-feira, de hoje a oito, é o primeiro dia do resto da vida dele. Entra no primeiro ano do primeiro ciclo — a “escola dos grandes”.

Quando entrei para o ensino básico, como o meu sobrinho faz para a semana, fi-lo na Escola Básica da Várzea de Sintra. Na pequena comunidade onde fica, é “a escola dos grandes”, ali plantada no meio de uma urbanização com vista para a serra.

É engraçado que a primeira escola seja “a dos grandes”.  Poderá ser porque é a única; poderá ser porque é o princípio de tudo — os grandes só o são depois de serem pequenos.

Parte de ser pequeno são os princípios, os começos. Ir para a escola é um deles. Na próxima semana, as aulas arrancam para mais de um milhão de alunos na próxima semana.

ano letivo começa entre 10 e 13 de setembro e termina a 19 de junho para o pré-escolar e 1.º ciclo, a 4 de junho para os anos com exames e provas finais de avaliação e a 9 de junho para os restantes anos de escolaridade.

A aflição. Faltam tantas horas. Tantos dias. Tantas semanas. Meses. Tanto tempo até ao final. Qualquer criança que se ponha a olhar para o calendário dificilmente se livra do enfado de imaginar as horas nas desconfortáveis cadeiras; as disciplinas aborrecidas com os PowerPoints infinitos que têm de ser manuscritos para os cadernos. As lições e os sumários — que só serve, para celebrar a Lição N.º 100, com grande festa, sumos e salames.

Regressar às aulas é muito mais do que voltar aos noventa minutos de cada bloco horário. É tornar à rotina: acordar, apanhar o autocarro (ou a boleia), entrar na escola. Tirar tudo da mochila. Arrumar. Comer na cantina (ou no bar, ou noutro lado qualquer). Mais aulas. Mais autocarro. E em casa os trabalhos.

Apesar disso, o Tiago está entusiasmado. Podem acusá-lo de ignorância. Enquanto corre alegre e encharcado pelo Pavilhão da Água, não sabe o futuro que lhe vai cair à frente quando regressar a Lisboa.

Estar na escola é bom. É bom estar junto dos outros que amamos tempo suficiente para nos odiarmos semanalmente. E fazer as pazes. E jurar amizade eterna. E planear vidas e futuros — e os primeiros dias do resto das nossas vidas.

Sempre gostei do verso (do Sérgio Godinho). Mas a ideia pode assustar. E assusta mesmo. Soa a grito, a iminência de que se não aproveitarmos, andamos caindo. Surge et ambula, ergue-te e anda! Desfaz-te do torpor, larga a paralisia!

A ansiedade cresce.

Nos dias anteriores ao começo das aulas, punha-me a preparar a roupa. Escolhia o penteado (ia testando). Via se estava atualizado. Via se estava adequado. Comparava-me.

Cada novo ano era uma oportunidade de renascer. E o início do ano, para os ansiosos, é sempre a altura de pensar: é hoje que vou mudar de vida.

Hoje vai ser diferente. E depois nunca era.

A violência, a segregação, os abusos físicos, psicológicos. O bullying, a coação, a chacota. Isto existe — e traz mais ansiedade que a sabatina.

É importante estar atento. Olhar à volta.

Sexta-feira é o primeiro dia do resto da vida do meu sobrinho Tiago. Não há nada de fatalista aqui: todos os dias são os primeiros dias do resto dos dias; todos os dias podem ser os primeiros dalguma coisa grandiosa. E essa coisa é que é linda.

A escola não vai ser o melhor tempo da vida de ninguém. Nem pode ser — se não, que fazer do resto da vida? Será o somente o primeiro tempo do resto da vida: o primeiro dia do resto duma vida cheia de dias ansiosos por ser os primeiros.

Seja para começar ou recomeçar, boa sorte. Eu sou o Pedro Soares Botelho e hoje o dia foi assim.

Porque o seu tempo é precioso.

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