Depois de ter feito piadas sobre a tensão entre a Índia e o Paquistão, o humorista Trevor Noah pediu desculpa. Num episódio do programa norte-americano “The Daily Show”, Noah disse que um conflito entre os dois países seria “o mais divertido”.

“Seria também a guerra mais longa de sempre — mais um número de dança!”, acrescentou o humorista sul-africano, citado pela BBC.

Cedo, nas redes sociais, indianos e paquistaneses criticavam a tirada do humorista. É que a questão de Caxemira é sensível — um ponto de discórdia entre a Índia e o Paquistão desde a partição do império colonial britânico e da criação dos dois países em 1947 e já esteve na origem de duas guerras entre as duas potências nucleares.

Apesar de ambos os países reclamarem o controlo da região, cada um está responsável por apenas uma parte dela.

Pela primeira vez desde há décadas, aviões de combate dos dois países entraram em confronto e realizaram incursões em território inimigo, suscitando a preocupação da comunidade internacional e fazendo com que se multiplicassem os apelos à contenção.

Na rede social Twitter, uma utilizadora acusou Noah de usar estereótipos de Bollywood (a indústria de cinema indiana) para gozar com a guerra.

Em resposta, o humorista sul-africano começa por dizer que fez piadas mesmo depois de a mãe ter sido alvejada na cabeça. “Como comediante, uso a comédia para processar a dor e o desconforto no meu mundo”, disse, antes de pedir desculpa: “lamento que isto te tenha magoado a ti e a outros, não era isso que estava a tentar fazer”, escreveu.

Mais tarde, Trevor Noah regressava ao Twitter para se dizer “surpreendido” com a repercussão da sua piada, quando comparada com a do próprio conflito: “Por vezes parece que as pessoas ficam mais ofendidas com as piadas que os humoristas fazem sobre um problema do que com o problema em si”.

O Twitter é um terreno fértil para a controvérsia política na Índia, lembra a BBC. E foi lá que a tensão escalou, ainda que alguns utilizadores a usassem também para defender o humorista.

Para além do efeito amplificador das redes sociais, outras das forças por trás do empurrão à polémica pode estar na forma como os indianos lidam com a sátira política, aponta também a BBC.

Uma página na rede social Facebook interrompeu a sátira depois de ser vista como demasiado controversa — apesar de ter ganho rapidamente muitos seguidores. Na Índia, algumas celebridades são castigadas pelos fãs caso assumam posições políticas — ou, por vezes, caso não assumam nenhuma.

Os acontecimentos na região disputada precipitaram-se depois de as forças armadas indianas indicarem na terça-feira passada que tinham realizado um ataque aéreo contra um campo de treino do grupo islâmico Jaish-e-Mohammed (JeM). Este reivindicou um atentado suicida na Caxemira indiana, que matou pelo menos 40 paramilitares indianos a 14 de fevereiro.

Islamabad denunciou imediatamente uma “agressão inoportuna” e prometeu responder “na hora e local” que escolhesse.

As forças armadas paquistanesas afirmaram posteriormente terem abatido dois aviões indianos no espaço aéreo do Paquistão e detido dois pilotos indianos.

Nova Deli anunciou por seu turno ter abatido um avião paquistanês em Caxemira e ter perdido “um Mig-21”, cujo piloto foi então dado com “desaparecido em combate”.

O Paquistão acabou por entregar, no dia 1 de março, o piloto do caça capturado e libertado num “gesto de paz” de Islamabad em relação a Nova Deli, segundo imagens transmitidas em direto pela televisão.

O tenente-coronel Abhinandan Varthaman, capturado na quarta-feira quando o seu avião foi abatido durante confrontos aéreos na região de Caxemira, disputada pelos dois vizinhos, atravessou a fronteira no posto fronteiriço de Wagah, situado entre as grandes cidades de Lahore (Paquistão) e Amritsar (Índia).

Centenas de pessoas esperaram por Varthaman durante todo o dia do lado indiano da fronteira, agitando bandeiras e cantando ‘slogans’.

A libertação do que se tornou um herói para os seus conterrâneos foi anunciada na quinta-feira pelo primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, que a apresentou como “um gesto de paz” em relação à Índia, após o perigoso confronto esta semana entre os “dois irmãos” inimigos do Sul da Ásia.

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