Enquanto concorrente no “The Apprentice”, Omarosa Manigault foi a vilã perfeita. Despedida por três vezes – com a famosa frase de Trump “you’re fired” – tornou-se uma celebridade televisiva e uma daquelas figuras que os espetadores adoram odiar nos reality shows. A típica concorrente que não olha a meios para ultrapassar tudo e todos. É essa característica, combativa para uns, sem escrúpulos para outros, que a terá tornado uma favorita do milionário agora presidente eleito. E que poderá por isso convidá-la para a sua equipa presidencial.

Essa possibilidade foi avançada pela própria Omarosa ainda decorria a noite eleitoral. Em declarações ao The Hollywood Reporter, Omarosa afirmou que Donald Trump lhe tinha perguntado se estava preparada para ir para Washington com ele. No dia seguinte, partilhou no Twitter uma fotografia com um poster de Trump e a frase: “o meu último briefing como consultora sénior na campanha #realDonaldTrump”.

A campanha de Trump não foi a estreia de Omarosa Manigault na política. Trabalhou na equipa de Al Gore, na presidência de Bill Clinton, e em 2000 integrou o seu staff de campanha (que acabou por perder as eleições para George W. Bush). De democrata a trunfo republicano? A própria explicou em entrevista ao New York Times como tudo se passou: “O meu corte com os democratas aconteceu durante a eleição que envolveu Barack Obama e Hillary Clinton. Algumas das táticas de ataque que foram usadas, nomeadamente pela campanha de Clinton – e ao princípio eu apoiava bastante de Hillary, até ver como ela tratava este afro-americano. Decidi apoiar Barack Obama e fui trabalhar para a campanha dele no Ohio, mas foi quando me apercebi das fraturas no Partido Democrata, e particularmente de como tratavam o presidente Obama”.

Esta é uma explicação de 2016. Mas, em 2004, bem longe da atual ribalta política, a revista People contava a história de outra Omarosa, a propósito do seu despedimento do reality show de Donald Trump. E a história que contava, citando várias fontes da administração Clinton, é que teria sido despedida por quatro vezes de funções no governo, desde as mais básicas (como responder aos convites que chegavam a Al Gore) a outras mais exigentes como as desempenhadas na secretaria de estado da Tecnologia e do Comércio. Por não conseguir fazer o trabalho que lhe era pedido e/ou por não se conseguir relacionar com as outras pessoas.

Ao que tudo indica, depois de ter sido despedida do “The Apprentice” muita coisa mudou – incluindo o facto de passar a receber vários convites de emprego por ser ter tornado uma estrela de reality show, nada que não seja usual, mesmo em Portugal.

A brincar, chamávamo-nos Trumplicans

Politicamente, da desistência dos democratas até à equipa de Trump, explica Omarosa na mesma entrevista ao New York Times, foi um passo de amizade. “Quando Donald anunciou a candidatura, a minha decisão foi de apoiar um amigo no seu desejo de se tornar presidente dos Estados Unidos. A brincar, chamávamo-nos Trumplicans. No sentido de sermos eleitores com uma visão independente que queriam ver uma mudança – vejam, nem os filhos dele estavam registados como republicanos. Nos últimos meses, fui abrindo os olhos para a necessidade de uma maior presença de afro-americanos no Partido Republicano. Ou em qualquer partido”.

Esta é a política Omarosa. Mas trata-se de uma personalidade multifacetada. A Wikipedia refere-se a ela como “escritora, diretora, produtora, atriz americana”. Também é pastora evangélica e tem um doutoramento em comunicação. Além de ser a concorrente mais conhecida do “The Apprentice”, se excluirmos os nomes de celebridades que também participaram, como La Toya Jackson e Piers Morgan, e com as quais aliás não hesitou em entrar em confronto. Esta postura também lhe granjeou idêntico número de críticos, como é o caso do realizador Spike Lee que publicou uma fotografia dela com nariz de palhaço aquando da sua nomeação para a campanha de Trump. Não é por acaso que foi descrita como estando “sempre pronta para ser a vilã”.

Um epíteto a que gosta de fazer justiça, como se pode atestar das declarações proferidas na própria noite das eleições com Donald Trump já eleito e em que garantiu que todos os republicanos que votaram contra o agora eleito presidente serão colocados “numa lista especial”. “É ótimo que os nossos inimigos se mostrem porque assim quando entrarmos na Casa Branca sabemos em que pé estamos” disse ao Independent Journal Review. Referia-se muito em concreto ao nome do senador Lindsey Graham que no dia das eleições disse expressamente ter votado noutro candidato que não Donald Trump. “Se ele (Graham) acha que os seus interesses estão com outro candidato, Deus o abençoe. Nunca julgarei ninguém pelo direito e liberdade de escolher quem quer, mas Mr. Trump tem uma longa memória e estamos a manter uma lista”.

O seu desempenho como responsável da campanha de Trump para os afro-americanos não teve resultados extraordinários na votação, mas ainda assim foram melhores do que os alcançados pelo candidato republicano Mitt Romney em 2012. O que faz com que um dos pelouros que poderá assumir se se confirmar a sua escolha para a administração Trump seja o das minorias, mas também o dos millennials, negócios, comunicação ou mesmo porta-voz da Casa Branca. Em junho, a própria assumiu numa entrevista que Donald Trump a via como a sua Valerie Jarrett – a conselheira de Obama, sem pelouro específico, durante dois mandatos, o que poderá ser outra possibilidade.

Omarosa não tem sido só notícia pelas suas ziguezagueantes opções políticas ou percurso como estrela de reality show. Também a sua vida pessoal chegou às páginas dos jornais em 2012, depois da morte do seu noivo, o ator Michael Clarke Duncan de ataque de coração. Depois de uma primeira versão dos acontecimentos que apontava para que Omarosa tivesse tentado fazer-lhe uma reanimação cardiorrespiratória, a família de Michael Clarke Duncan trouxe a público outro relato que incluía uma alteração no testamento do ator influenciada pela noiva e também a acusação de que, enquanto o actor esteve hospitalizado, Omarosa terá vendido bens sem dar conhecimento à família.

Em entrevista ao programa Frontline, da PBS, realizada em Junho mas publicada apenas em setembro, Omarosa foi questionada sobre as lições que Donald Trump, e ela própria, teriam aprendido no “The Apprentice”. A resposta foi clara: “Donald Trump aprendeu muitas lições durante The Apprentice. A primeira foi sobre audiências. Eu associo audiências a sondagens. Todas as semanas víamos as audiências, como tinha corrido o programa? Como estávamos face a outros programas e naquele horário? É a mesma coisa que as sondagens nas disputas políticas.”

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