Longe estava a ideia de que alguma vez as Festas de Lisboa iriam ficar paradas. Sem arraiais como sempre teve e que ontem não se viram, sem manjericos e sardinhas pelas ruas na noite de Santo António. Sem o andor do padroeiro do povo a cruzar as ruelas no dia de hoje, 13 de junho, a assinalar a data que é sua pela morte.

Todavia, se as tradições não se podem cumprir na sua totalidade, há que fazer delas memória. Porque Santo António será sempre da cidade, mesmo que uma pandemia venha travar a alegria nas ruas.

Pedro Teotónio Pereira, coordenador do Museu de Lisboa — Santo António, explica ao SAPO24 o que mudou este ano e o que se pode manter.

"As festas são marcadas por coisas que este ano não se verificam, mas que normalmente acontecem sempre. Costuma haver arraiais espalhados pela cidade, as marchas na Avenida, a tradicional procissão de Santo António que percorre agora o bairro de Alfama e que este ano não se faz", enumera.

Na igreja, apenas se mantém a missa festiva, às 12h00, presidida por D. Joaquim Mendes, bispo auxiliar de Lisboa, seguida da bênção à cidade, a Portugal e ao mundo com a relíquia do Santo, bem como as missas com Responsório de Santo António, às 11h00 e às 17h00, que terminam também com a bênção com a relíquia — tudo pode ser acompanhado online. E, para assinalar a procissão que não se faz mas não se esquece, o Museu entrou em ação.

"Vamos marcar a data de alguma forma, vamos ter em exposição umas peças criadas pelos irmãos Baraça, de Barcelos, com a procissão de Santo António — são cerca de 330 figuras de uma procissão atual. E vamos ter também uma instalação multimédia do que foi o arraial de Santo António do ano passado, no largo de S. Miguel, em Alfama, para que as pessoas tenham um cheirinho do que foram as festas e do que vão ser no futuro", atira convicto.

Mas o Museu vai mais longe, porque Santo António e os seus devotos têm muitas histórias a contar. "Realmente é um Santo muito popular e há muito esta tradição de ser casamenteiro e de encontrar os objetos perdidos. Portugal levou esta tradição para o Brasil, para a Índia, para todo o mundo. É mesmo dos santos mais populares do mundo", começa por explicar.

Enquanto houver Santo António
Lisboa não morre mais

Lisboa é sempre a namoradeira
Tantos derrices que já até fazem fileira
Não digas sim, não me digas não
Amar é destino, cantar é condão
Uma cantiga, uma aguarela
Um cravo aberto debruçado da janela

Aqui ou onde a devoção a Santo António chegou pela mão dos portugueses, a fama de casamenteiro — como cantada também por Amália Rodrigues, com versos de Norberto de Araújo — é aquela que acaba por ter mais impacto, principalmente pela "pressão que as pessoas fazem, de alguma forma, para que se cumpra o pedido" relacionado com questões amorosas, justifica Pedro Teotónio Pereira.

E, para que tudo se cumpra e as moças arranjem o noivo desejado, existem as mais estranhas tradições — a maior parte delas caídas em desuso. "Normalmente, quando havia este pedido ao Santo António, as raparigas viravam-no para a parede ou de cabeça para baixo. Havia ainda situações mais dramáticas em que penduravam a imagem do Santo dentro de um poço, até que se cumprisse o pedido. Era uma forma de o pressionar", afirma.

"No fundo, são alguns sinais desta proximidade que as pessoas têm com Santo António e da devoção que sentem, quase como se estivessem com um familiar. Por isso zangam-se, mas também fazem as pazes. Por exemplo, havia a ideia de tirar o Menino Jesus do colo de Santo António enquanto não se cumprisse o pedido. Depois, quando se cumpria, devolvia-se o Menino Jesus, mas com um vestido novo", conta o coordenador do Museu.

Todavia, algumas tradições perduram ainda na atualidade — algumas delas adaptadas. "A tradição dos casamentos de Santo António foi uma coisa que ficou. Vem desta ideia muito antiga do Santo casamenteiro, que ajudava as raparigas a casar. A partir dos anos 50 foram instituídos estes casamentos coletivos, pela Câmara Municipal de Lisboa, como uma forma de ajudar os casais com algumas dificuldades económicas", explica.

Por outro lado, há tradições que nos parecem mais absurdas que também se modernizaram, conta Pedro Teotónio Pereira. "Há descrições que nos vêm do Brasil em que as raparigas metem a imagem de Santo António no congelador ao pé das fotografias do casal que querem que fique junto", conta.

Mais perto, em Lisboa, há a "tradição de as pessoas lançarem uma moeda à imagem de Santo António" que está no largo em frente à igreja e ao Museu, para saberem se o casamento está para breve. "A imagem tem o Menino Jesus em cima de um livro e a moeda tem de calhar lá. Tem de calhar e ficar em cima do livro, o que é muito difícil porque a estátua é muito alta. Há raparigas que ficam muito tempo a tentar acertar. E é uma festa cada vez que lá fica", recorda.

Associada ao milagre do pão — em que Santo António deu todo o pão que havia no mosteiro aos pobres mas, mesmo assim, não faltou para ninguém lá dentro —, está a tradição do "pãozinho de Santo António", que se verifica em vários lugares do país. "As pessoas vêm à Igreja de Santo António e levam o pão, que deve ser guardado de um ano para o outro, para que não falte alimento em casa. Isto é uma tradição que surge mais vincadamente no século XIX e que ficou ligada a todas as igrejas de Santo António, onde normalmente há o pãozinho que é distribuído no dia 13 de junho", justifica o coordenador.

Ainda a marcar a atualidade estão também os tronos de Santo António, que todos os anos se veem em Lisboa — e que este ano tiveram um concurso online. A sua origem remonta aos anos posteriores ao terramoto de 1755, que destruiu a cidade. "A igreja de Santo António caiu com o terramoto e a população envolveu-se em donativos para a reconstruir novamente. Diz a tradição que as crianças da cidade também se quiseram associar de alguma forma e começaram a montar pequenos tronos à porta de casa, para pedir um tostãozinho para o Santo António e foi uma tradição que ficou até aos nossos dias", recorda Pedro Teotónio Pereira.

Contudo, olhemos agora em concreto para o passado, para tudo o que se costumava associar ao Santo. Em ano de ficar em casa, recordemos tudo o que já se disse e fez, através de algumas das pequenas histórias que podem ser lidas no Museu de Lisboa — Santo António, disponibilizadas ao SAPO24.

O Santo casamenteiro: os castigos, o Menino Jesus roubado e as rosas

O Archeologo Português, J. Leite de Vasconcelos, 1895

  • Toda a gente sabe que, aqui em Lisboa, é costume colocar no altar de Santo António, na Igreja da sua invocação, junto à Sé, bilhetinhos em que se fazem ao santo vários pedidos, sobretudo de casamento.

História da Poesia Popular Portugueza – Ciclos Épicos, Theophilo Braga, 1905

  • Santo António quebra as bilhas às raparigas, e depois de as ralar muito, concerta-as. Esta versão do Algarve pouco difere da que corre em Lisboa. Ele é o advogado dos casamentos das raparigas, e quando se não digna protege-las, metem-no num poço ou partem-no em pedaços (Lisboa). Vê-se o mesmo costume no Algarve: As raparigas quando querem casar enforcam Santo António, deitam-no ao poço de cabeça para baixo, depois tiram-lhe o menino, e não o tiram do molho sem que ele tenha feito o milagre.

O Amor Português, Luís Chaves, Lisboa, 1922

  • Em Viana do Castelo, as raparigas furtavam da igreja de S. Bento uma imagem de Santo António, quando queriam casar, costume que os frades acabaram, pregando a imagem no altar.

Santo António na Tradição Popular, Armando de Mattos, 1937

  • É saltando a fogueira três vezes, mas em direcções diferentes, e deixando cair uma moeda na fogueira ao saltar pela última vez, que as raparigas procuram saber o nome do futuro marido, quando no dia seguinte, antes do romper do sol, a vão buscar e a dão ao primeiro pobre, a quem perguntarão o nome, que será aquele que elas desejam saber. 
  • Os rapazes para conhecerem o nome por que aspiram, cortam botões de rosa, a que dão nomes de diversas raparigas de quem gostam. Na manhã seguinte à da noite do santo, vão vê-los. O que estiver mais aberto é que indica o nome da noiva.
  • Então pegam nas imagens e voltam-nas para a parede, penduram-nas de cabeça para baixo, põe-nas à chuva, metem-nas em poços, tiram-nas dos tronos, jogam-nas pelas janelas, esbofeteiam-no…
  • No santuário de Alcobaça, foi uma vez encontrada uma rapariga a esbofetear o santo, porque o milagre se não dava… 
  • Porto. Nesta cidade recolhi a seguinte narração de uma mulher do povo: uma rapariga zangada com o santo por ele não lhe deparar marido, castigou-o, atirando-o pela janela à rua. A imagem ao cair, foi atingir um rapaz que passava nessa ocasião, fazendo-o perder os sentidos, e ferindo-o. O povinho pegou no rapaz e levou-o para a primeira casa que se lhe deparou afim de o socorrer. Acontece ser essa a casa da rapariga que atirou o santo pela janela. Vêm a casar os dois. O santo fizera o milagre ao ser castigado.

Etnografia Portuguesa,  J. Leite de Vasconcelos, 1980 a 1988

  • Em Lisboa, na noite de Santo António, deita-se uma clara de ovo, ou chumbo derretido, num copo de água e conforme os feitios que tomar assim será a profissão do noivo (marinheiro, se a clara de ovo se assemelhar a um navio, etc).
  • Se na noite de Santo António, ao deitar-se um cravo à rua, este for apanhado por pessoa de idade, faltam poucos anos para casamento; mas se for por um jovem, faltam muitos (Lisboa).
  • Quem quiser casar depressa, tem remédio fácil. Rouba o Menino Jesus ao Santo António, da igreja, leva-o para casa, vira-o de pernas para o ar, e ao cabo dum ano, está casada. Nessa altura volta a pôr o menino nos braços do santo, mas tem de o vestir de novo, porque não fazendo isso nunca será feliz.
  • (…) dizia-se que no dia do Santo era de bom agouro para as meninas solteiras darem três voltas à igreja. Remédio infalível para casarem dentro de um ano.
  • Deita-se um cravo para o meio da rua à hora do meio-dia, e espreita-se: se for homem que o apanhe, o nome dele será o do futuro noivo, se for mulher, é presságio de que nunca se casará (Óbidos).
  • Durante uma procissão que se faz em Faro na véspera de Santo António, as raparigas solteiras que querem casar atiram com várias coisas – pedrinhas, figos, etc. – , como para o despertar, para lhes dar noivo. As que acertam casam em breve. E, em qualquer época do ano, vão à ermida do mesmo santo, dita do Alto, nos arredores da cidade [hoje dentro dela], entram no adro arqueado, fecham os olhos ao entrar e, de dedo indicador estendido, procuram acertar no buraco da fechadura da porta; se o conseguem casarão brevemente. 
  • (…) em alguns casos chegam até mesmo a tirar o menino Jesus dos braços de Santo António para restitui-lo somente depois de realizado o milagre; viram o santo de cabeça para baixo, tiram-lhe o resplendor e colocam sobre a tonsura uma moeda pregada com cera; e, por fim, quando tardar o milagre, e cansadas já de esperar, atam o santo com uma corda e deitam-no dentro de um poço, o que deu lugar, de uma vez, a desaparecer a imagem, porque era de barro e derreteu-se ao contacto com a água.

Solução para encontrar objetos perdidos e outras tradições

Revista Lusitana, J. Leite de Vasconcelos, 1915

  • Também se emprega para responsar as crias e animais perdidos. Ainda que uma pessoa o saiba, é costume pedir a algum vizinho que o reze. Se durante a reza houver algum engano, é sinal de mau agouro; e, se ao acabar de se rezar, os cães ladrarem, é bom sinal.

Etnografia Portuguesa,  J. Leite de Vasconcelos, 1982 a 1988

  • Quando se perde alguma coisa, é corrente (de modo especial em Lisboa) rezar-se o responso de Santo António, para que rapidamente apareça.
  • Responsa-se a Santo António, em Vila Real, para que nos corra bem o que desejamos, ou às pessoas amigas. Se no decorrer do responso houver engano é ruim agouro para a coisa ou pessoa responsada.
  • Faz-se, em Trás-os-Montes, uma promessa a Santo António, que consiste em oferecer-lhe um porquinho, o qual traz um chocalhinho. É sustentado por todo o povo, pois quem o vê dá-lhe de comer. É o porquinho de Santo António (ouvido em 1975, por Alda da Silva Soromenho).

  • As lojas, capelistas em especial, já vendem os pequenos tronos de madeira (as crianças mais pobres fazem-nos de bancos baixos); as decorações do altar são de chumbo ou madeira (vasos, velas, cruz, sacrário, etc.) e as imagens dos santos são de barro, geralmente muito imperfeitas.

  • No Alto Minho, é frequente ver nas lojas de negócio, diante da porta, num nicho ou num compartimento da prateleira, às vezes entre jarras com flores, a imagem de Santo António. O A. Viu isto em Paderne e S. Gregório, no concelho de Melgaço. Um lojista de Melgaço contou ao A. que um outro, que era descrente, não pusera a imagem do santo na loja e lhe correu mal o negócio. À segunda vez que pôs loja sucedeu-lhe o mesmo. Pela terceira vez, pôs nela o santo, e tudo correu bem.

Por mais inusitadas que soem as tradições associadas a Santo António, estas são a prova de que, de norte a sul do país, aquele que nasceu e cresceu em Lisboa, estudou em Coimbra e morreu em Pádua deixou a sua marca. Além das qualidades de pregador, que fizeram dele Doutor da Igreja, é um santo do povo, que o acarinha e nunca esquece. E é o povo que clama por ele: para casar, para ter boa sorte, para achar o que perdeu. Em ano de pandemia, talvez também em Lisboa e pelo mundo ecoem vozes para que seja a última vez em que não se faz festa neste dia.

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