Existem 39 candidatos à presidência da Ucrânia, mas há um nome que, de longe, se destaca da concorrência.

Falamos de Volodymyr Zelensky, ator que, aos 41 anos, regista como a única "experiência" governativa o seu papel numa série de televisão, "Sluha Narodu", na qual interpretou um professor de História que de repente se torna presidente quando um dos seus alunos o grava à socapa a fazer um discurso anti-corrupção e o coloca na Internet.

Hoje, Zelensky é o mais bem posicionado candidato à presidência da Ucrânia, país que vai a votos amanhã, 31 de março. E se a ironia de ter representado uma personagem que inesperadamente se torna governante não estivesse clara o suficiente, o seu partido chama-se também Sluha Narodu, que em português significa "Servo do Povo".

Mas mais impressionante do que estar à frente das sondagens, é estar a fazê-lo contra dois pesos pesados da política ucraniana, o atual presidente Petro Poroshenko, de 53 anos, e a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, de 58 anos.

As sondagens variam consoante a fonte: a AFP reporta que Zelensky regista 28% das intenções de voto, face a Poroshenko e Tymoshenko, ambos com 16%. Já uma outra sondagem de fevereiro, citada pelo website Quartz, dá conta de 25% das intenções de voto para o ator, 16,6% para o atual presidente e 16,2% para a ex-primeira-ministra. Outro dado interessante é que 85% dos participantes indicou que participaria no ato de voto, uma subida face aos 76% registados em dezembro.

Se nenhum dos candidatos obtiver mais do 50% dos votos, os dois candidatos mais votados concorrerão a uma segunda volta a 21 de abril.

A inesperada ascensão de Zelensky tem sido vista como parte da tendência mundial de desconfiança popular em relação às elites políticas, como se observou com a popularidade de Beppe Grillo em Itália, tendo o comediante sido instrumental em fazer do Movimento 5 Estrelas uma força política de peso no país.

Esta tendência é particularmente forte na Ucrânia, onde os escândalos de corrupção foram numerosos, enquanto a população sofre sérias dificuldades económicas e há cinco anos que é confrontada por uma guerra civil no leste do país.

Uma vitória de Zelensky seria "um enorme desafio para o país", adverte Mykola Davydiuk, analista do centro "Politika", sendo que os seus detratores expressam sérias dúvidas sobre sua capacidade de governar num momento crucial para um dos países mais pobres da Europa. A Ucrânia, que se tornou claramente pró-ocidental desde os protestos de 2014, está a passar pela pior crise desde a sua independência em 1991.

A chegada dos pró-ocidentais ao poder em fevereiro de 2014 após a revolta da Praça Maidan foi seguida pela anexação pela Rússia da península ucraniana da Crimeia. Pouco tempo depois eclodiu um conflito armado com os separatistas pró-russos no leste do país, que desde então deixou 13.000 mortos. Este conflito é considerado na Ucrânia como uma "guerra de independência" com a Rússia, país acusado de apoiar militarmente os separatistas, sendo que a postura que o vencedor terá perante o Kremlin tem sido o tónico para estas eleições.

Zelensky tem sido acusado de não ter uma plataforma coerente e de ter um projeto político pouco definido. Das medidas mais concretas que já propôs, regista-se a proposta de retirar imunidade política aos cargos de presidente, deputados e juízes, bem como a de criar um tribunal independente anti-corrupção. Outras têm sido vistas como populistas, como ter pedido aos seus 3 milhões de seguidores na rede social Instagram para dizer quem escolheriam para seu vice-presidente e executivo governativo.

No que toca à política internacional, o ator disse apoiar a organização de referendos para ver se a Ucrânia deve juntar-se à NATO e à UE e disse que o país devia honrar a sua dívida ao FMI.

Em suma, o ator favorito das urnas não realizou uma campanha presidencial tradicional e tem-se se expressado basicamente através das redes sociais, enquanto ainda produz shows humorísticos no seu estúdio "Kvartal 95".

Os seus seguidores veem nele uma lufada de ar fresco e uma oportunidade de mudança, mas os seus detratores acusam-no de ser um fantoche de um oligarca controverso, Igor Kolomoiski, dono de um canal de televisão, 1 + 1, que dá a Zelensky uma cobertura abundante e bastante positiva.

No que diz respeito aos outros dois candidatos, o presidente Poroshenko apresenta-se como a principal muralha de contenção perante Vladimir Putin, sendo que na passada quarta-feira afirmou que a sua prioridade em caso de vitória será resolver a questão da Crimeia.

Ao longo da sua campanha, o chefe de Estado insistiu também na recente criação de uma Igreja Ortodoxa independente de Moscovo, uma medida popular que, para muitos setores, não compensa a falta de progresso na luta contra a corrupção.

Da parte de Tymoshenko, a candidata tem prioridades similares ao presidente, prometendo aos ucranianos trazer de volta a "paz e os territórios ocupados", bem como diminuir o preço do combustível, grande preocupação dos credores de Kiev.

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