Bem-vinda, Atalanta!

Permite-me chamar-te Atalanta, personificar-te e tratar-te como a um familiar. Porque é isso que normalmente se faz aos clubes, quando eles atingem um estatuto especial nas nossas memórias coletivas, quando representam não só os jogadores e a equipa técnica que os compõem mas também toda uma cidade ou uma região, ou até mesmo um ideal.

Mereces um artigo definido à tua frente, Atalanta. Em itálico, para vincar posições e em homenagem ao teu sangue ancestral: a Atalanta.

E merece-lo, porque, sejamos honestos um com o outro: não estavas a contar chegar até aqui, pois não? Imagina: um clube que há menos de uma década se viu embrulhado num escândalo de corrupção e viciação de resultados – na figura do teu capitão, ainda por cima... - e que andou durante alguns anos a lutar para não descer, agora pode bramar bem alto que tem uma das oito melhores equipas de futebol do continente europeu.

De onde vêm e o que andaram para aqui chegar:

Clube: Atalanta Bergamasca Calcio (Atalanta B.C.)

Cidade / País: Bérgamo, Itália

Palmarés na Liga dos Campeões: 1ª presença na Liga dos Campeões em 2019/20

Percurso: 

Fase de grupos: 2º lugar, Grupo C

  • Atalanta vs. Manchester City: 1-1, 1-5
  • Atalanta vs. Shakhtar Donetsk: 1-2, 3-0
  • Atalanta vs. Dínamo Zagreb: 2-0, 0-4

Oitavos de final:

  • Atalanta vs. Valência: 4-1, 4-3

Merece-lo só por isso, Atalanta? Não, não o mereces apenas pela redenção, mas também não existe maior fábula, para um adepto de futebol, que a de David contra Golias.

Tu és David, Atalanta; superaste todas as expetativas e, como um bom underdog (vindo de uma das melhores ligas do mundo, mas ainda assim underdog) alcançaste o estatuto de elite. Estás entre as oito melhores mas há até quem ache que és a melhor, da Europa, quiçá do mundo.

A “culpa” talvez seja do teu treinador, que não tem troféus no currículo mas que já conquistou boa parte dos fanáticos de bola: Gian Piero Gasperini. Um estilo de jogo ofensivo, de pressão alta, defesa bem próxima do ataque e jogadores posicionados em todos os cantos e recantos do campo. Um sistema que permite aquela coisa que mais nos empolga a seguir ao golo: o remate à baliza.

Porque sem ele não há golos, não é verdade? E esse estilo de jogo permitiu-te, numa liga onde o cliché manda ditar que é defensiva, marcar uns assombrosos 98 golos – mais que os campeões de Espanha ou Inglaterra, e apenas dois menos que o todo-poderoso Bayern Munique...

Claro que para tal muito contribuiu o esforço dos bravos entre os teus bravos, como De Roon, Pasalic e Freuler, géniozinhos do meio-campo. Sem desprimor para o talento puro dos colombianos que tornaste teus: Muriel e Zapata, empatados a 18 golos cada um na Série A.

Podes reclamar que mesmo com tanto golo acabaste em terceiro, longe de um título que nunca conquistaste. Mas o caminho, Atalanta, faz-se caminhando. Esse mesmo terceiro lugar fez-te marcar presença, pela primeira vez na tua história, na Liga dos Campeões. E se no primeiro ano lá já chegaste aos quartos-de-final, quem sabe...

Até podes enveredar pelo caminho da auto-depreciação, Atalanta, dizer que nem sabes muito bem como aqui chegaste – mas underdog é mesmo assim, tem na humildade o que pode não ter noutros aspetos. Começaste com dois pés esquerdos, perdendo 4-0 com o Dínamo de Zagreb, 2-1 com o Shakhtar e 5-1 com o City do Guardiola, e toda a gente te fez o funeral.

Mas superaste-te, Atalanta: fizeste 7 pontos e acabaste em segundo no grupo, despachando depois o Valência por números gordos (4-1 e 4-3) e vês-te agora em Lisboa, longe de casa, prestes a enfrentar os milhões do PSG.

Longe de casa, não é, Atalanta? A mesma casa que tão fustigada tem sido nestes últimos meses.

É que para além do futebol, esse é também um forte motivo, senão mesmo o mais forte dos motivos, para torcer por ti, Atalanta: é que nesta Liga dos Campeões, e por força do destino, tu já não representas apenas o teu emblema ou a tua Bérgamo: representas todas as vozes que encontraram o desespero em tempo de pandemia. Representas não apenas os teus vivos, mas os teus mortos.

A pandemia foi mais severa nas tuas fronteiras. Os hospitais viram-se sem a força física ou mental suficientes para lidar com os teus doentes. Todos chorámos quando nos disseram que os teus médicos tiveram de escolher entre vida e morte nas suas mãos, por não haver camas ou ventiladores suficientes, ou quando nos mostraram as imagens das tuas morgues cheias, dos teus militares a transportar os corpos de filhos perdidos para a doença.

Foi extremamente duro, Atalanta. Mas resististe. Conseguiste terminar o campeonato de forma honrosa, e lutas agora por um lugar ao sol europeu. Se houvesse um prémio de superação, já o terias ganho, mas é em campo que o futebol atribui os seus títulos – mesmo que isso não tenha sucedido com o PSG, esse temível adversário que terás agora pela frente.

Da minha parte, Atalanta, e da de todos os adeptos de futebol, tens apoio total. Pois que és a prova viva de que isto é mais que um jogo. É uma identidade, um milagre. E tu, Atalanta, caçadora virgem como no teu símbolo, tens milhares de devotos de olhos fixos na tua flecha; o teu ideal é também o nosso. Sabendo de antemão que, aconteça o que acontecer, da nossa memória não te apagarás.

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