Ano após ano, a falta de planeamento dos clubes brasileiros revela-se na troca de treinadores a meio da temporada, com absurdos como o Botafogo, no ano passado, que teve cinco treinadores durante o campeonato. Trocas essas, muitas vezes, sem nenhuma lógica, passando por estilos completamente diferentes de futebol.

Para 2021, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) propôs a mudança, aprovada por maioria dos clubes da Serie A e B, de reduzir para apenas uma troca de treinador por campeonato. Resumindo, cada clube só pode demitir o treinador uma vez por época e cada treinador só pode trocar de clube também uma vez. Caso uma equipa deseje trocar de treinador uma segunda vez, só o pode fazer por um profissional que já esteja no clube há, no mínimo, seis meses, como por exemplo um treinador da formação ou um adjunto permanente.

É cada vez mais claro, com o desempenho dos clubes em cada ano, que um bom planeamento é fundamental para garantir um resultado consistente. Clubes que trocam de treinador e de jogadores de forma desordenada revelam que não sabiam ou não tinham convicção do que vislumbravam para o ano. 

Se, por um lado, o limite, já existente em outras ligas, pode forçar uma melhoria na construção de elencos e de comissões técnicas, a medida não foi unânime entre clubes e dirigentes. O presidente do Bahia, clube que se destacou na sua gestão nos últimos anos, entende que existiam outras prioridades de melhorias no futebol brasileiro.

Na sua conta oficial no Twitter, Guilherme Bellintani afirmou que votou contra a proposta por considerar que o Fair Play financeiro, discutido e aprovado anteriormente, mas ainda não implementado, foi 'esquecido' em 2021. "Se não haverá punição aos clubes que gastam mais do que arrecadam, se todo mundo pode continuar dando calote, se insistiremos em adiar mudanças realmente estruturantes, não venham controlar quantos treinadores eu devo ou não devo contratar em um campeonato", escreveu. 

Bellintani disse ainda que a proposta de limitar técnicos é "uma medida aparentemente bonitinha, mas pouco transformadora" e que serve apenas para "dar um ar de modernidade" ao Brasileirão.

De facto, existe uma série de avanços que são necessários para que o Campeonato Brasileiro evolua. Desde melhorias no produto, para ser mais interessante comercialmente dentro e fora do país, como avanços técnicos no uso do VAR, como, principalmente, revisões de gestão na qualificação dos seus dirigentes, na atualização do calendário e no maior rigor por gestões responsáveis, ou seja, o Fair Play financeiro.

O limite de demissão de treinadores é uma solução paliativa que resolve o sintoma, mas não a causa do problema. Ao invés de procurar melhorar a sua gestão desportiva, os clubes terceirizam a sua autonomia de decidir quando trocar de comando. 

Por outro lado, esta mudança pode ajudar a criar uma cultura mais saudável de gestão e pode forçar os treinadores a buscar uma melhor qualificação, pois não terão assim tantas vagas disponíveis na dança das cadeiras dos técnicos do Brasileirão.

Veja as trocas de técnicos na Série A em 2020:

  • Botafogo: 4 trocas (Paulo Autuori / Bruno Lazaroni / Ramón Díaz e Emiliano Díaz / Eduardo Barroca / Lúcio Flávio - interino);
  • Coritiba: 3 trocas (Eduardo Barroca / Jorginho / Rodrigo Santana / Gustavo Morínigo)
  • Goiás: 3 trocas (Ney Franco / Thiago Larghi / Enderson Moreira / Glauber Ramos e Augusto César)
  • Corinthians: 2 trocas (Tiago Nunes / Dyego Coelho - interino / Vagner Mancini)
  • Athletico: 2 trocas (Dorival Júnior / Eduardo Barros-interino / Paulo Autuori)
  • Fortaleza: 2 trocas (Rogério Ceni* / Marcelo Chamusca / Enderson Moreira)
  • Vasco: 2 trocas (Ramon Menezes / Ricardo Sá Pinto / Vanderlei Luxemburgo)
  • Flamengo: 1 troca (Domènec Torrent / Rogério Ceni)
  • Fluminense: 1 troca (Odair Hellmann / Marcão)
  • Palmeiras: 1 troca (Vanderlei Luxemburgo / Abel Ferreira)
  • São Paulo: 1 troca (Fernando Diniz / Marcos Vizolli-interino)
  • Santos: 1 troca (Cuca / Marcelo Fernandes-interino)
  • Bragantino: 1 troca (Felipe Conceição / Maurício Barbieri)
  • Internacional: 1 troca (Eduardo Coudet / Abel Braga)
  • Bahia: 1 troca (Mano Menezes / Dado Cavalcanti)
  • Sport: 1 troca (Daniel Paulista / Jair Ventura)
  • Atlético-GO: 1 troca (Vagner Mancini* / Marcelo Cabo)
  • Grêmio: 0 trocas (Renato Gaúcho)
  • Atlético-MG: 0 trocas (Jorge Sampaoli)
  • Ceará: 0 trocas (Guto Ferreira)

*Pediu demissão

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