A começar a segunda parte da entrevista a Piers Morgan, Cristiano Ronaldo foi questionado se tem mais dinheiro no banco ou seguidores no Instagram, respondendo “os dois” e admitindo que isso vai irritar ainda mais os "ratos".

Apesar de dizer que ainda são "os recordes e a adrenalina", Ronaldo lamentou que o futebol "mudou nos últimos anos". "Eu vejo agora o futebol como um negócio, para ser sincero. Às vezes a Georgina diz-me 'não compreendo porque é que vos tratam como pedaços de carne' e eu respondo 'sim, tudo o que tu estás a dizer é verdade'", partilhou o jogador, considerando que os jogadores são hoje tratados como produtos.

Quando às críticas de que tem sido alvo, o português considera que tem sido uma "ovelha negra" e que tem sido representado "como o mau da fita", mesmo no que toca às suas prestações na Seleção Nacional. "Tudo o que têm tido sobre mim nos últimos meses é lixo", atirou.

Membros da direção do United acusados de "não acreditar" em Ronaldo

No momento seguinte da entrevista, Cristiano Ronaldo acusou algumas figuras superiores da direção do Manchester United de "não acreditarem" nas suas razões para faltar a grande parte da pré-época desta temporada.

O português revelou a Morgan que, enquanto se encontrava de férias em Palma de Maiorca, a filha recém-nascida, Bella, começou a desenvolver uma bronquite, o que o assustou particularmente, dada a trágica morte do irmão gémeo da bebé, em julho.

"Eu falei com o diretor e com o presidente do Manchester United e eles meio que não acreditaram que algo se estava a passar, o que me fez sentir mal", explica Ronaldo, sublinhando que nunca irá pôr em causa a saúde da sua família em prol do futebol. "Nunca, nem agora nem daqui a 10 anos", afirmou.

"Eu não fiz a pré-época devido a isto, porque não podia deixar a minha família caso algo acontecesse. Não é justo, deixá-los para fazer a pré-época, é por isso que não fui", justificou.

"Não me podem meter só três minutos em campo, não sou esse tipo de jogador".

A explicação da sua ausência na pré-época entroncou em algumas das polémicas da temporada: o momento em que abandonou o estádio mais cedo no amigável frente ao Rayo Vallecano e o momento em que se recusou a entrar em campo frente ao  Tottenham Hotspur e abandonou o relvado de Old Trafford antes do final da partida.

Questionado se se arrepende do que fez no jogo com o Tottenham, Ronaldo disse que sim... mas também que não.

"Vou ser sincero, é algo de que eu provavelmente me arrependo, ou talvez não. Não sei. Digamos que me arrependo, mas ao mesmo tempo senti-me provocado pelo treinador. Não me podem meter só três minutos em campo, não sou esse tipo de jogador. Eu sei o que posso dar à equipa", disse.

Em causa está o facto de Ronaldo ter sido remetido à condição de suplente nesse jogo e do treinador Erik ten Hag o ter chamado a três minutos do fim da partida.

Já quanto ao jogo da pré-época frente ao Rayo Vallecano, Ronaldo relembrou que não foi só ele a abandonar o estádio mais cedo. "Fui eu e mais oito jogadores, mas só mencionaram o meu nome. Toda a gente fez isso. Só falam da ovelha negra, que sou eu. Mas eu percebo, ok, está feito. Eu pedi desculpa ao treinador e, para mim, esse capítulo fechou".

"Se não me respeitas, nunca te vou respeitar"

Os episódios acima descritos serviram de preâmbulo para um dos temas mais controversos da entrevista, a relação que tem com ten Hag e a sucessão de casos que se foram acumulando nos últimos meses.

Segundo Ronaldo, o treinador não cumpriu o que lhe prometeu no início da época. "Ele disse-me que eu não precisava da pré-época e que devia esperar pela minha oportunidade. Eu entendo, mas assim não te vou dar pontos. E tu não tratas os outros jogadores da mesma forma", afirmou.

Apesar de compreender que ten Hag tinha de se impôr porque "o Manchester estava tão mal há cinco anos que era preciso limpar a casa", o avançado português queixa-se da forma como o tema foi abordado, em parte porque "a comunicação não foi a melhor".

"No início eu entendi, porque não fiz a pré-época e não comecei a titular. Mas depois disso, outras coisas aconteceram que as pessoas não sabem. E eu não estou a esconder que a empatia com o treinador não é boa, para ser honesto", continuou.

Querendo provar que ten Hag não o "respeita como deveria", Ronaldo lembrou o caso da derrota frente aos rivais do Manchester City por 6-3, em que não chegou a sair do banco. Na altura, o técnico holandês disse à imprensa que tomou essa decisão por respeitar a carreira de Ronaldo, mas o jogador apenas viu "desculpas".

"Eu não quero criticá-lo, ele pode ter uma opinião diferente da minha. Pode escolher jogadores que considere que sejam melhores para a equipa, Eu respeito isso, mas não as desculpas a toda a hora, e com coisas que não fazem sentido. Ok, não me colocam a jogar contra o Manchester City porque respeitam a minha carreira, mas depois querem meter-me três minutos contra o Tottenham, não faz sentido", declarou o atleta.

"Eu acho que ele fez se propósito, porque, por exemplo, na Seleção Nacional e noutros clubes, quando o treinador queria pôr-me a cinco minutos do fim se alguém se lesionou ou se precisam mesmo de mim, eu vou ajudar. Mas daquela maneira, senti-me provocado, e não apenas por causa daquele jogo", disse.

"Não me digam que os jogadores de tipo, que querem tudo, os jogadores chave, vão jogar três minutos. Vá lá, isto é inaceitável, especialmente depois do que disseram antes, de que me respeitavam".  Voltando a abordar a sua saída precoce frente ao Tottenham, o avançado, admitindo que agiu mal e que pediu desculpa aos colegas, não se arrepende de se ter recusado a entrar na partida.

"O treinador não me respeitou, por isso é que esta relação está como está. Ele está sempre a dizer à imprensa que vem ter comigo, que gosta de mim, blah blah blah, é só conversa para a imprensa, a 100%", acusou, antes de proferir uma das frases que incendiou as redes sociais na antevisão a esta entrevista: "Se tu não me respeitas, nunca te vou respeitar".

Foi esta sucessão de acontecimentos que levou o Manchester United a suspendê-lo antes do jogo com o Chelsea, algo até então inédito na sua carreira. "Eu acho que foi uma estratégia do clube para que eu reagisse", disse, admitindo que se sentiu humilhado.

"Fiquei muito, muito desapontado com a comunicação do Manchester United. Para ser sincero, nunca tive nenhum problema com nenhum clube e com nenhum treinador. E eles suspenderam-me por três dias, o que sinto que foi demasiado. Foi uma vergonha", afirmou.

Focado no seu "último Mundial", Ronaldo admite que não deverá regressar ao United

Questionado por Morgan quanto ao futuro, e como antecipa o seu regresso ao Manchester United, Cristiano Ronaldo disse que "é difícil dizer por agora". "O meu foco é no Mundial, provavelmente vai ser o meu último Mundial e não sei o que vai acontecer a seguir", afirmou.

No entanto, apesar de ter "os adeptos no coração", Ronaldo deixou entender que pode não regressar aos Red Devils após a pausa pós-Mundial. "Espero que os adeptos estejam do meu lado, mesmo que eu regresse, ou que não regresse, ou que fique, o que seja. Ninguém é perfeito", assume.

"Quando cheguei ao Manchester United, eu quis estar disponível para ajudar a equipa e para fazer coisas boas, para colocá-los onde devem estar, a competir com as melhores equipas. Mas é difícil quando te cortam as pernas e não te deixam brilhar nem ouvem os teus conselhos", continuou, antes de, uma vez mais, assumir que poderá não regressar.

"A minha motivação não é a mesma de alguns meses atrás. Não estou a dizer de que preciso de um novo desafio, mas vamos ver. O meu foco está no Mundial. Provavelmente vai ser melhor para o Manchester [United] e para mim termos um novo capítulo. Mas se voltar, espero que as pessoas me deixem brilhar tal como fiz noutros clubes pelos anos", concluiu Ronaldo.

A oferta milionária da Arábia Saudita e o plano de jogar até aos 40 anos

Cristiano Ronaldo aproveitou também a entrevista para confirmar um rumor de que lhe foram oferecidos 350 milhões de euros para jogar num clube da Arábia Saudita durante duas épocas, além de outras propostas.

"Sim, é verdade, mas o que a imprensa diz, o lixo, é que ninguém me quer, o que é completamente errado. Eu estava motivado para continuar aqui. Mas eles continuam a repetir que ninguém quer o Cristiano. Quem é que não quer um jogador que marcou 32 golos na época passada?", indagou-se, afirmando que é mentira que ninguém o quer. "Alguns clubes quiseram contratar-me e eu não fui porque me sentia confortável aqui, é essa a verdade", disse.

Quanto à sua forma física, tendo 37 anos, Ronaldo disse que as questões quanto à sua capacidade de se manter no topo "são estúpidas". "Dizem que já não sou o mesmo, mas ninguém é o mesmo. Dia após dia envelhecemos, cada um de nós. É normal, tens de te adaptar", disse, reforçando que não quer "parecer convencido" e que sabe que já não é o mesmo quando tinha 20 aos.

"Mas eu adapto-me e sou inteligente para saber as minhas forças, naquilo que sou bom. E se ainda estou a jogar a alto nível e a marcar golos, quero continuar a fazê-lo se a minha mente estiver clara e contente", defendeu, considerando que a energia à sua volta não o tem permitido estar no topo das suas capacidades.

Quanto à reforma, Ronaldo disse que este provavelmente será o último Mundial que joga, mas que pretende jogar "mais dois ou três anos, no máximo". "Quero terminar com 40 anos, acho que vai ser uma boa idade, mas não sei, não sei o futuro", revelou.

A sua relação com Messi... e com Jordan Peterson

Tendo a sua rivalidade com Lionel Messi marcado uma era do futebol, foi inevitável a questão de como se relaciona com o astro argentino.

"Jogador incrível, é magia, top. Como pessoa, partilhámos o palco durante 16 anos, imagine-se, 16 anos. Eu tenho uma ótima relação com ele. Não sou seu amigo na medida em que o convido lá a casa ou falo ao telefone, mas é como um colega de equipa", afirmou Ronaldo.

"É um tipo cuja forma de falar sobre mim eu respeito", adiantou, dizendo que Messi é o melhor do mundo a par de si e de Zinedine Zidane.

Falando de relações, Ronaldo também foi instado a comentar a sua ligação do controverso intelectual e psicólogo canadiano Jordan Peterson, considerado por muitos como uma espécie de guru espiritual da direita política.

"É um homem incrível. Sou um enorme fã. Eu li o seu livro e senti que ele é muito interessante. Adoro conhecer pessoas inteligentes e aprendi imenso com alguns conselhos que me deu", disse. Ronaldo chegou mesmo a convidar Peterson a ir a sua casa, para falar sobre a sua vida e os seus problemas, no que considera que foi uma "conversa estratégica".

O que é que Ronaldo já disse também?

Na primeira parte da entrevista dada a Piers Morgan, Ronaldo explicou que "era a altura de dizer algo". "Como já expressei muitas vezes, os adeptos são a coisa mais importante no futebol. Jogamos por eles, estão sempre do meu lado e sinto isso a toda a hora. Quando estou a andar na rua, vêm ter comigo e apreciam o que eu fiz e faço pelo futebol”, justificou.

Em relação à sua época atribulada no Manchester United, o jogador português falou sobre a sua quase ida para os rivais do Manchester City — entretanto negada pelos Citizens — e sobre como ficou surpreendido com o estado de estagnação em que encontrou o clube, 13 anos depois da sua primeira passagem.

Ronaldo deixou ainda duras palavras quanto ao técnico Ralf Rangnick e aos ex-colegas Wayne Rooney e Gary Neville, considerando que o primeiro não tinha perfil para ser treinador do Manchester United e atribuindo aos dois antigos jogadores sentimentos de inveja como motivação para criticá-lo.

O avançado reconheceu também ter encarado a perda do filho em abril como “o pior momento da sua vida” desde o desaparecimento do pai, em 2005. “Quando temos um filho, esperamos que tudo seja normal. Nós passámos por momentos difíceis, não percebemos o que nos sucedeu e foi complicado de entender aquilo que se passava em certa altura das nossas vidas”, contou o capitão da seleção portuguesa

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