Por mais que se quisesse evitar, o tónico para este jogo nos últimos dias foi só um: a infame vitória que o Liverpool averbou sobre o Porto por 5-0 em pleno estádio do Dragão a 14 de fevereiro do ano passado, resultado que praticamente ditou a eliminação dos Dragões nos oitavos-de-final dessa edição da Liga dos Campeões.

Não obstante do jogo de hoje vir a ser disputado em Anfield - onde o Porto viria a empatar a zero na segunda-mão dessa eliminatória -, foi a partida maldita decorrida na cidade Invicta a que contaminou o discurso de antecipação ao duelo de hoje. “Não há vingança nenhuma”, assegurou Sérgio Conceição na antevisão, sentimento replicado pelos seus jogadores, mas, na verdade, é difícil não pensar que, no fundo, o Porto quereria limpar a imagem do vexame sentido há pouco mais de um ano.

Lembrando o ditado que deu lugar à adaptação no título desta peça, costuma dizer-se que “gato escaldado, de água fria tem medo”, tendo o Porto todas as razões para vir com a epiderme sensível para Liverpool. Apesar destas coisas do histórico de pouco servirem senão para fazer correr tinta, a verdade é que os Dragões nunca ganharam aos Reds nas seis partidas que disputaram entre si. Sendo sete o número da sorte, impunha-se a quebra do enguiço, isto apesar da turma de Jürgen Klopp estar invicta em casa em jogos da Liga dos Campeões desde a época de 2014/2015.

Para além do trauma recente, a equipa de Sérgio Conceição veio também desfalcada, já que Pepe e Herrera, apesar de terem viajado com a comitiva, ficaram de fora por castigo, jogando Felipe e Otávio em seus lugares, respetivamente. Por outro lado, também as laterais apresentaram-se diferentes em relação ao jogo disputado frente ao Boavista, com Alex Telles a regressar depois da sua bizarra lesão e Maxi Pereira de volta à lateral-direita, empurrando Corona para a ala. De resto, Danilo continuou na ligação entre defesa e meio-campo, Oliver foi colocado como médio mais ofensivo e a dupla da frente voltou a ser Marega e Tiquinho Soares.

Enumeradas as adversidades, seria, porém, de esperar que, especialmente tendo um líder como Sérgio Conceição, o Porto entrasse em Anfield combativo. Dominar o jogo estaria fora de questão - é o Liverpool de 2019, afinal de contas -, querendo-se, ainda assim, uma equipa intensa, disposta a bater-se até à última, qual Leonidas. Mas não. Apesar de ainda ensaiar uma curta tentativa de disputar abertamente o jogo logo no início com o primeiro remate de Marega ao lado (o primeiro de vários, diga-se), a estratégia dos portistas caiu logo à primeira investida do Liverpool na sua área, com um golo de Naby Keita aos 5 minutos.

Num misto de corte e lançamento para o ataque, Milner projetou a bola para Mané que, pressionado por dois jogadores do Porto, fê-la passar para Firmino, já no centro da área. Este deixou o esférico à entrada do grande rectângulo para o guineense rematar, só que o disparo, que ia rasteiro e ao lado esquerdo da baliza, foi prensado por um corte de Oliver e voou para o canto direito, deixando Casillas pregado ao chão.

O Porto até pode acusar alguma falta de sorte neste lance (e nas decisões do árbitro Mateu Lahoz, mas já lá vamos), só que, em todo o caso, a solução só podia passar por redobrar esforços e duplicar a concentração, com inteligência a atacar e segurança a defender. Pelo contrário, o que se viu foi uma equipa que, salvo os esforços hercúleos de jogadores como Militão e Corona a defender e de Oliver a projetar o pouco ataque que se viu, passou a primeira parte a perder bolas de forma infantil e a não ter agressividade para recuperá-las logo a seguir.

Liverpool FC vs FC Porto
créditos: EPA/PETER POWELL

O nervosismo pagou-o o Porto bem caro, mas podia ter sido muito pior. Estando o Liverpool em máxima força - apenas Andy Robertson falhou o jogo, por castigo, sendo colmatado por James Milner na lateral esquerda -, a equipa de Klopp até acusou algum desleixo na primeira parte, tal foi a quantidade de bolas que recuperou no meio-campo portista mas que não concretizou em golo. A tal qualidade cirúrgica que tinha evidenciado naquele fatídico jogo só voltou a surgir aos 26 minutos, quando, numa jogada a régua e esquadro, Firmino encostou a bola no coração da área do Porto para fazer o 2-0. De resto, Mané, sabe o que é marcar ao Porto, também podia ter avolumado o resultado para 3-0 ao bater Casillas a cruzamento de Henderson, mas estava em fora de jogo.

Já do lado oposto, Alisson teve trabalho, mas pouco. Incapaz de sair a jogar com qualidade a partir da defesa, a estratégia do Porto recaiu em combater fogo com fogo, tentando ganhar bolas com pressão alta e projetar-se em contra-ataque. Quando os centrais van Dijk e Lovren não foram capazes de limpar os lances, esteve lá Moussa Marega para os desperdiçar. Tendo a sua ausência sido sentida em Roma e a sua presença fundamental no jogo que ditou a passagem para esta eliminatória, as esperanças estavam depositadas na verticalidade e potência do maliano para tentar disputar o jogo. Essas características estiveram patentes, o problema é que Marega teve, pelo menos, quatro chances para marcar e falhou-as a todas, duas das quais em sucessão na primeira parte.

Com uma sombra a pairar sobre a equipa ao intervalo, o melhor que se pode dizer é que pouco mudou no segundo tempo, com Liverpool a mandar e Porto a não aproveitar as poucas oportunidades de que dispôs. Talvez a pensar no embate com Chelsea no domingo, os Reds começaram a baixar cada vez mais o nível e o Porto, fruto das trocas de Soares por Brahimi, Oliver por Bruno Costa e Maxi Pereira (que realizou um jogo francamente mau) por Fernando Andrade, equilibrou a posse de bola. Ao contrário do jogo em Roma, em que o golo caído do céu já nos estertores da partida relançou a eliminatória, aqui a única oportunidade já no fim que podia ter dado algum alento aos portistas deu-se aos 78 minutos, com Marega a rematar ao lado depois de um passe longo de Militão.

Contudo, e apesar ainda estar tudo em aberto para o jogo no Dragão, a equipa de Sérgio Conceição regressa com razões de queixa da atuação de Mateu Lahoz, pois o critério largo só é justificável até a certo ponto. Se o penálti que foi ao VAR aos 30 minutos deixa alguma dúvidas, dado que Alisson toca a bola em direção à mão de Alexander Arnold quando estava prestes a sair de campo, a entrada com pitons que Salah fez sobre Danilo era merecedora de expulsão e, possivelmente, mudaria o rumo da segunda-mão.

Porém, o que interessa é que o Porto tem uma desvantagem de dois golos para contrariar em casa. Agora já não se trata de vingança, é sobrevivência.

Liverpool
créditos: LLUIS GENE / AFP

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

Num daqueles criativos exercícios de projeção pré-jogo que os cronistas da bola gostam de fazer para lhes facilitar a vida, o título deste texto chegou a ser “All You Need Is Marega” na cabeça de quem escreve estas linhas, só que estes 90 minutos explicaram facilmente porque é que tal ideia não passou para o texto. O maliano, que foi instrumental na qualificação exemplar do Porto na fase de grupos e que se esperava ser uma das armas necessárias para os Dragões sobreviverem a Anfield, foi um dos piores em campo, expondo as suas debilidades como nunca. É verdade que Marega não é um prodígio com os pés, mas hoje essa falha foi por demais evidente e não foi contrabalançada com aquilo que o avançado melhor sabe fazer - golos -, tendo sido muito meigo com Alisson. No entanto, a fraca prestação tem uma explicação: segundo Sérgio Conceição, o jogador passou o dia a vomitar a antes da partida, não se apresentando, portanto, nas melhores condições para disputá-la (o que nos leva a pensar, porque é que Adrián López não foi convocado?)

Militão, a vantagem de ter quatro pernas

Tendo pela frente um Alex Telles ainda em recuperação, Mohammed Salah deve ter pensado para si que o jogo eram favas contadas. De facto, não foram raras as vezes que o avançado irrompeu pela linha para a grande área, deixando o convalescente lateral para trás. O que se calhar não contou foi com a presença de um outro brasileiro pela sua frente. Mostrando que deveria ter sido uma peça indiscutível no eixo central ao longo da temporada, Éder Militão conseguiu quase sempre secar o egípcio, impedindo que o resultado se avolumasse e deixando uma réstia de esperança para o Dragão.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

O segundo golo do Liverpool é fino exemplar do que é o futebol desta equipa quando tudo funciona como deve ser. Firmino para Henderson e este, no centro do meio campo ofensivo, vê Alexander-Arnold a escapar-se a outro Alex, o Telles. Recebendo a bola já nas costas da defesa, dentro da grande área, o jovem lateral inglês devolve para Firmino, arquiteto desta jogada, na boca da baliza, tendo só de encostar. Como uma equação, parece fácil, mas só depois de concluído.

Nem com dois pulmões chegava à bola

A noite não esteve boa para bater recordes, mas Otávio conseguiu ganhar um dos mais dúbios prémios da história do desporto-rei, ao fazer um passe de morte para ambas as equipas, apenas para o avançado a desperdiçar. Do seu lado, como já foi acima descrito até à exaustão, Marega bateu a bola para fora, mas, mais interessantemente, o mesmo fez Salah, quando, na primeira parte, o brasileiro, ao querer fazer um atraso para a sua defesa, deixou a bola nos pés do egípcio. A sua sorte é que só não obteve o igualmente ingrato prémio de melhor assistência porque Salah foi vítima da mancha de Casillas e rematou para fora.

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