"Pela boca morre o peixe", já dizia o antigo provérbio que não mais significa do que "é perigoso falar demasiado". Porém, outra coisa que não é provérbio, mas que já se sabe, é que a Internet não esquece. (Muito menos a imprensa inglesa.) É tramado, mas é a realidade dos dias de hoje. Há sempre uma câmara apontada, um telefone por perto, alguém a escutar. É preciso cuidado com o que se diz, pois quando alguém se lembra e menos se espera, lá está aquela tirada antiga que ressurge para nos tramar. Acontece a todos e ninguém está fora do seu alcance. No entanto, pode escalar para dimensões um pouco diferentes quando somos um treinador que prima por ser famoso e "especial".

E ainda mais especial fica se dissermos algo como "nunca treinaria o Tottenham" (2007) para, anos depois, no desemprego, aceitarmos uma proposta que não só dissemos que nunca aceitaríamos, como há pouco tempo (2015), nos gabaríamos de ter já ter rejeitado. Pois bem, isto está a ser a realidade de José Mourinho, poucas horas depois de ser oficializado pelos ingleses do Tottenham.

As negociações com português, segundo a Sky Sports, intensificaram-se nos últimos dias e, ainda mal o sol começava a raiar em Portugal, o rumor maior das últimas horas futeboleiras, confirmou-se: o treinador português, de 56 anos, não só estava de volta à Premier League, como estava de volta a Londres para treinar o seu oitavo clube da carreira. Após uma dupla passagem pelo Chelsea (2004/05 a 2007/08 e 2013/14 a 2015/16) e duas épocas e meia (2016/17 a 2018/19) nos red devils, que o despediram em 18 de dezembro de 2018, Mourinho está, assim, de volta ao mais empolgante campeonato do mundo. O primeiro jogo será já no próximo sábado e nem vai precisar de sair da capital: espera-o uma deslocação curtinha até ao terreno das míticas pretty bubbles do West Ham.

Todavia, como em quase tudo aquilo que vai à boleia do nome do português, há opinião ou sentença sobre qualquer que seja a matéria. E, como não poderia de deixar ser, uma mudança destas não iria ser diferente. Especialmente pelas figuras envolvidas no processo — que começou ontem, quando o presidente do Tottenham, David Levy, expressou que esteve "relutante" em rescindir com Pochettino. É, portanto, com naturalidade, que vamos só encarar que se vai prestar um debate em que o resultado vai culminar num "concordar em discordar". Daí, o meu conselho: não estranhe se ouvir por aí a frase que Mourinho "não vai fazer melhor" que o treinador argentino. E ainda outra como "dificilmente fará o mesmo com tão pouco investimento", principalmente se tivermos em conta a realidade inglesa e aquilo que gastaram os principais candidatos ao título nos últimos tempos. Nada que, a julgar pela foto, o preocupe.

Um dos nomes que ontem se manifestou mal se começou a falar sobre a possibilidade de Mourinho ingressar nos Spurs foi o homem que, passe a curiosidade, até partilha o dia de aniversário com Winston Churchill, mas que é para aqui ser chamado por ser uma referência no futebol inglês e um ex-jogador do clube londrino. Falamos, claro, do Sr. Golo, Gary Lineker. É um nome de peso e a ter em conta, pois além de ter feito mais de 100 jogos pelo Tottenham — formou uma dupla temível com Gasgoine —, fez parte do plantel por detrás da conquista maior dos londrinos da Era Premier League, a Taça de Inglaterra, em 1991. E é da opinião que o clube não irá arranjar outro treinador que faça o mesmo que Pochettino. (E também autor de uma das frases mais baladas dos anos 90: "O futebol é um desporto simples: 22 homens correm atrás de uma bola durante 90 minutos, e no fim, ganham os alemães.")

Na Internet, há quem concorde. Além das alcunhas ("O Reciclado") até já há quem já faça uma previsão daquilo que será a primeira conferência de imprensa da próxima pré-época: "Está não é a minha equipa, nenhum destes jogadores vai jogar, a minha equipa ainda está no Europeu. Preciso de quatro jogadores, [mas] o Sr. Levy trabalhou no duro para me dar os zero que tenho. [E] Não sei o que aconteceu com o Perisic".

Todavia, críticas à parte, há uma coisa que Mourinho garantiu sempre por onde passou e que Pochettino não conseguiu: troféus. Porque é fácil criticar o trabalho e o futebol implementado pelo português na sua passagem em Manchester, mas, como o tempo recente o tem demonstrado, ter ficado em 2.º lugar e conquistado uma Liga Europa e uma Taça da Liga com o plantel que tinha em mãos — e com City e Liverpool no mesmo campeonato —, prova que a experiência correu bem melhor do que se pintou na altura em que se desvinculou do gigante inglês. Contudo, havendo um novo estádio e uma ambição renovada ali no norte de Londres, não se pode considerar que a contratação de José Mourinho seja assim tão inesperada. E é por isso que, provavelmente, o português tenha assinado por um valor que praticamente duplica o que Pochettino auferia em Londres (15 milhões de libras, qualquer coisa como 17 milhões de euros, por época). Ainda assim, há variáveis a ter em conta para percebermos como é que chegámos aqui.

Uma das mais importantes é o balneário. Nenhum treinador, por mais capacidade que tenha e genial que seja, consegue implementar a sua filosofia sem o seu apoio. É fundamental. E balneário, de acordo com a The Athletic, era coisa que Pochettino já não tinha. "[A sua demissão] foi a única decisão que fazia sentido", relata, citando uma fonte próxima da realidade diária do clube. 

Sem ganhar há cinco jogos, os Spurs ocupam a 14.ª posição da Premier League e não ganham um jogo fora desde janeiro. E esta má fase pode ser atribuída ao facto dos jogadores simplesmente já não terem fé nas ideias do técnico argentino, segundo refere a mesma publicação.

A aritmética, por exemplo, também ajuda perceber um pouco esse estado de espírito; contabilizando só jogos para o campeonato, nos últimos 24, os Spurs fizeram 25 pontos. Ora, isso é muito curto para as ambições duma direção que, ainda que invista pouco em relação a vários clubes que ocupam o topo da tabela, quer mais e quer dar o salto de "crónico candidato a chegar longe" para "candidato que ganha títulos". 

De resto, diga-se que Pochettino nunca foi um treinador prestado ao diálogo e brincadeiras. A The Athletic fala mesmo que os jogadores tinham de ter a noção de quem manda, de quem lidera; sobretudo, de que há uma hierarquia a respeitar. Ele é o treinador, logo manda; eles são jogadores, logo executam. "Ele é o seu treinador, não é seu amigo".

Só que, como bem recorda a revista, a realidade é que o argentino é "só", muito provavelmente, o treinador com mais sucesso no clube nos últimos 50 anos. Portanto, que interessa que tenha cara de poucos amigos? Muito pouco, especialmente quando a realidade mostra que, ao seu comando, começaram a ter uma presença regular na Liga dos Campeões e a ser uma equipa que, à partida, dê por onde der, dê o seu futebol mais ou menos voltas, lá termina nos quatro primeiros lugares da tabela classificativa. Tudo isto ao mesmo tempo que lançava jovens que cresceram na academia do clube (Harry Kane, o capitão, é só a maior bandeira desta génese) e que tantas alegrias dão aos adeptos.

Só que a este ponto, diz-se, já era difícil olhar para o "Mister" de frente sem que fossem confrontados ou arranjassem problemas. Ou seja, nem sempre uma relação que parecia idílica dura e a de Pochettino com o Tottenham não foi diferente. E quando as vitórias começam a escassear e a cabeça dos jogadores não está em sintonia com o principal arquiteto, pior. 

Na terça-feira, numa nota publicada no site do clube, Daniel Levy, presidente do emblema londrino, disse que foram "os resultados domésticos no final da temporada passada e no começo desta temporada foram extremamente decepcionantes" que levaram à demissão de Pochettino. Ora, esta informação foi divulgada ao final da tarde por volta das 19h30 no site oficial do clube. Foi assim que a imprensa e o mundo apaixonado do futebol descobriu aquilo que há algo tempo já se vinha a suspeitar. Porém, de acordo com a The Athletic, foi assim também que muitos jogadores do plantel principal descobriram que o tempo daquele que tinha sido o seu treinador nos últimos cinco anos e meio tinha chegado ao fim.

Uma herança pesada e uma mudança de paradigma entram num bar

Segundo fontes próximas do português referidas no artigo da The Athletic, José Mourinho está "sempre a evoluir enquanto homem e treinador". Pelo seu passado, o técnico que esteve quase um ano desempregado e muitos supersticiosos viam como malapata dos maus resultados do Vitória de Setúbal sempre que via um jogo nas bancadas do Bonfim, tem tudo para ser bem sucedido a curto-prazo. É isso que ele faz. Pega numa equipa desfeita em pedaços, une os seus laços com pinças e transforma-a uma equipa boa, num conjunto ganhador.

Uma das peças fundamentais para que José Mourinho tenha sucesso será Dele Ali. Porém, como ontem se viu na reação à notícia do despedimento de ex-treinador, Alli é um homem de Pochettino. "Não consigo agradecer o suficiente a este homem. Ensinou-me tanto e estou muito agradecido por tudo o que fez por mim. Boa sorte e espero ver-te no futuro, meu amigo", escreveu o jovem inglês nas redes sociais. O quererá isto dizer? Que já não dava para continuar, mas que tem pena da sua saída? Ou que, por outro lado, a lamenta? Há várias interpretações que se podem fazer. 

Mas Alli é só um. E Eriksen? Será que a chegada de Mourinho fará resfriar a ambição do dinamarquês em mudar de ares e experimentar um clube doutra dimensão (i.e, Real Madrid)? De Harry Kane, Pochettino já disse que até a sua mulher tem ciúmes dele. Na defesa já se falou igualmente numa possível insatisfação de Sanchez. Ora, tudo isto para abrir a semântica de que o jogo das cadeiras dos treinadores não terminou aqui. Porque não faltarão interessados nos préstimos do argentino. Bayern, Arsenal ou Real Madrid são clubes que a imprensa fala que poderão ter interesse. Mas existem outras paragens que, pela certa, o receberiam de bom grado. E não seria de estranhar que quisesse levar alguns homens da sua jornada por Londres com ele. 

Há quem diga também que o coração de Pochettino ficou em White Hart Lane. Ou seja, que a muito dispendiosa demolição do antigo, em 2017, e construção do novíssimo Tottenham Hotspur Stadium originou falta de fundos para adquirir peças (jogadores) que viessem refrescar e motivar quer o balneário, quer o treinador. Ou seja, parece realmente que o coração de Pochettino tomou a sua decisão após a derrota em julho último, na final da Liga dos Campeões perdida para o Liverpool. Já nessa altura se falava que a saída poderia estar iminente devido à constante falta de reforços que a equipa necessitava. E já nessa altura se escrevia que a administração do clube queria a sua saída. A final perdida foi só o início do fim. 

Em 2015-16, o título esteve perto. Mas perto não é a mesma coisa que chegar efetivamente . As saídas de Dembelé ou Walker nunca foram compensadas. No entanto, o treinador continuou. Só que isso faz levantar a questão: como irá Mourinho gerir uma situação semelhante? O Special One, no tempo recente, esteve sempre ao leme de clubes com capacidade para projetar financeiramente a sua filosofia, pelo que será interessante ver como irá o português reagir quando essa posição chegar.

Noutro artigo da The Athletic, foi dito que o Tottenham "era uma ditadura e que os jogadores estavam fartos". Isto é, além de se queixarem que eram demasiado controlados naquilo que faziam fora do campo, estavam cansados da carga física provocada pelos treinos bi-diários. E, neste âmbito, Mourinho pode ser uma peça fundamental para efetuar uma mudança necessária e que traga frutos. Porque o português não só vai voltar ao ativo na "sua cidade", em Londres, sem ter necessidade de ficar longe da família, como vai voltar aos treinos com ganas. 

É sabido que o treinador português sentia vontade não só de treinar, mas de abraçar um projeto a longo prazo. Em última análise, o Tottenham parece ser exatamente aquilo que pretende. Vai liderar uma equipa que vai ter que obrigatoriamente desenvolver para a elevar para outros patamares — o que gosta e sabe fazer. E, sobretudo, vai fazê-lo pela primeira vez sem ter a pressão de ser campeão. (Com a nuance de, também pela primeira vez, ir para uma cadeira onde o antecessor, nos tempos que correm, poderá até gozar de melhor fama que ele próprio).

Porém, há um senão que pode ser relevante. É que José Mourinho gosta de investir para ser competitivo. Daniel Levy, por outro lado, não gosta de gastar. Parece uma dicotomia inconcebível. No entanto, isso não assusta quem acredita de que poderá ser um casamento com tudo para ter sucesso. Sam Allardyce, antigo selecionador inglês, disse hoje em declarações a uma rádio que há talento no plantel para chegar aos primeiros quatro lugares e que, com Mourinho ao leme, o cenário é mais do que plausível. Graeme Souness, antigo treinador do Benfica que tem sido "companheiro" do português nos comentários futebolísticos que tem feito para a Sky, vai mais longe e diz que "Mourinho é uma escolha perfeita" porque tem um mentalidade pragmática capaz de traçar troféus. Entre quem apoia e quem condena, entre quem gosta ou não gosta desta opção do Tottenham, há uma conclusão que se pode tirar: ninguém parece indiferente ao regresso de Mourinho. Parece que, afinal, o papel de comentador não é suficiente para aguçar a curiosidade alheia. E, nesta fase da carreira, o Tottenham pode vir a ser o sítio ideal para se reinventar e provar que ainda é o mesmo que outrora levou FC Porto ou Inter aos títulos continentais.

Além disso, vai ser engraçado perceber como vai reagir o técnico às gravações da série documental da Amazon ("All or Nothing") que está apanhar em câmara o dia-a-dia dos Spurs. Pochettino deu o seu o oval à produção, mas em outubro revelou que esta agenda sobreposta entre futebol e extra-futebol faziam-no sentir mais como um "produtor" do que propriamente um treinador. Já Mourinho, parece não ser grande fã. "A minha reação é que se és um clube rico, podes comprar jogadores de alto nível, mas não podes comprar classe", disse na altura da estreia da série. Felizmente para nós, há streaming e estas questões (ainda que com as esperadas "censuras") dos bastidores serão respondidas em breve. Isto, claro, tendo em mente que já no próximo dia 4 de dezembro há regresso a Old Trafford, onde vai reencontrar a antiga equipa — e Pogba. Parece que já estou a imaginar a conferência de imprensa.

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