Estávamos à beira do primeiro jogo de qualificação para o Mundial de 2010 para as seleções europeias. Em setembro de 2008, portanto. E Bilic era o timoneiro da seleção principal croata (2006–2012) que estava muito seguro de que estamos perante um talento próximo daquilo que foi Davor Šuker. Ele e muitos outros, diga-se. No entanto, quer durante fase de qualificação para o Europeu a realizar na Áustria e Suíça, em 2008, quer durante o próprio torneio, o futuro ficou sempre no banco. E, agora, logo mesmo antes de começar uma nova qualificação, por lá ameaçava continuar. Na altura, Bilic, chegou a ser efetivamente criticado; é que Kalinic estava em grande forma no campeonato interno e era um jovem talento a espoletar e que devia de ser acarinhado.

Só que Bilic tinha outros planos. Queria imitar outros feitos, outros voos, e para isso havia jogadores mais experientes e em forma (Eduardo, Balaban ou Olic). E apesar das vozes mais ruidosas, tinha ao seu lado o consenso geral dos adeptos. Estes confiavam que tinha reunido um grupo talentoso e capaz de estimar a bola na altura de pisar o relvado. É que convém não esquecer que a Croácia, em França, em 1998, terminou a prova em 3º lugar, derrotando a Holanda (perdeu nas meias frente aos anfitriões) por 2-1, no Parque dos Príncipes, com golos Prosinecki (14’) e Suker (36’). Havia vontade de repetir o feito da “Geração de Ouro” e a fasquia estava alta. Assim, no entender de Bilic ainda não era o tempo de Kalinic brilhar — era novo, só tinha que saber esperar.

A verdade é que o “futuro da Croácia” ficou realmente com o seu nome cravado na história uma década mais tarde. Porém, por razões que nada têm que ver com aquilo que Bilic tinha em mente quando falou do jovem petiz. Não foi por nenhum golo, por nenhum primor técnico, por nenhum cabeceamento ou remate de fazer levantar o estádio. Foi, sim, por ter recebido guia de marcha para casa mais cedo por, alegadamente, ter dito ao seu treinador, em pleno Mundial, que tinha “dores” e que não estava em condições físicas para dar o seu contributo dentro de campo, quando solicitado que entrasse para dar uns minutos descanso a um colega de seleção. A versão completa pode lê-la aqui. A versão curta, embora oficial, anunciada num breve comunicado pelo selecionador croata Zlatko Dalic, é que Kalinic sofreu uma lesão e que por isso regressou ao seu país. E o amuo frente à Nigéria, fez as delícias dos internautas, que minaram as redes sociais com mensagens (memes) a pedir: "não sejam como o Kalinic”.

A promessa Kalinic

As comparações com aquele que foi o Bota de Ouro no Mundial de 98 eram muitas, os vídeos na Internet também. Não era caso para menos, nem tão pouco se pode acusar o técnico com agora 49 anos, Bilic, de estar a embandeirar em arco à data, aquando as suas declarações sobre o talento do jogador. Afinal, Kalinic, então com menos de 20 anos, tinha marcado 30 golos em 42 jogos pelas camadas jovens da seleção dos Balcãs. Logo, quando se atingem estes números, especialmente em tenra idade, grandes coisas se esperam destes seus pés. E num país com apenas 4 milhões de pessoas não é de estranhar que as comparações com o maior goleador croata de todos os tempos (Suker fez 71 jogos/46 golos) começassem a surgir. Não são todos os anos que aparecem jogadores com 1,87 metros e 78kg com capacidade para finalizar com critério em tenra idade. Todavia, parece que Kalinic sofreu do efeito do simulador Football Manager e não conseguiu capitalizar esse talento, cedendo enquanto jogador profissional e no escalão dos grandes.

Nikola Kalinic não é jogador sem rodagem a nível internacional, nem chegou por acaso à lista final dos 23 eleitos por Dalic. No entanto, mundiais, até à Rússia, nenhum que se veja. Há razões que o explicam e são bem simples: em 2010, a Croácia ficou de fora; em 2014, não fez parte das escolhas do agora treinador do Bayern Munique, Niko Kovač. Já quando falamos de Europeus, a história é outra: Kalinic fez efetivamente parte dos conjuntos, mas sem grande alarido a nível de futebol jogado. No seu currículo contam-se as presenças nos Euros 2008 (1 jogo), 2012 (não jogou) e 2016 (1 jogo). Ainda assim, é justo dizer que fez parte do plantel que interrompeu o recorde de invencibilidade da Espanha em França (de calcanhar), e esteve presente na derrota frente ao Portugal Campeão Europeu. No entanto, apesar de não ser primeira opção de vários técnicos da seleção nacional do seu país, garantiu 42 chamadas e apontou 15 golos, segundo o site da Federação Croata.

Produto da academia do Hajduk Split (segundo clube nacional a nível de títulos, atrás do Dínamo Zagreb, mas cuja escola produziu jogadores como a estrela da companhia Luka Modric, o médio do Real Madrid Mateo Kovačić, Ćorluka, Niko Kranjčar, Vrsaljko, Prosinečki, Zvonimir Boban, só para citar alguns), é apresentado como sendo possante, com habilidade no ar, bom de remate e com capacidade para fazer o papel de “pinheiro” na frente. 

Kalinic chegou cedo à primeira equipa do Hajduk (04/05), a par daquilo que acontece com equipas que dependem da formação, quando ainda tinha 17 anos. Contudo, acabaria emprestado e por rodar em clubes de segunda linha visto que, em 2005, no Euro Sub-17, aviou 4 golos em 3 jogos (embora a Croácia não tenha avançado além da fase de grupos), tendo os dirigentes do Hajduk depositado grandes esperanças nas suas capacidades. E, honestamente, não se pode dizer que se enganaram: ano e meio depois, de “regresso a casa” e à equipa principal, o avançado iria marcar 26 golos na época de estreia (07/08) como titular. Tinha apenas 20 anos. Na época seguinte (08/09), nos mesmos 38 jogos da época anterior, o saldo já não foi tão elevado, embora tivesse desferido 18 tiros certeiros. Em suma, marcou 44 golos em duas épocas, quando ainda tinha apenas 21 anos. O que nos leva à questão: por esta altura, parece que ninguém pode duvidar das palavras de Bilic, certo?

Seguiu-se o Blackburn Rovers, na Premier League. Tinha 22 anos, Sam Allardyce era o treinador e Kalinic tinha chegado a Ewood Park por 7 milhões de euros. Era a mudança para um campeonato com uma exigência e realidade completamente diferentes, mas a esperança e as credenciais do jovem eram auspiciosas no coração dos adeptos. Porém, na época de estreia, em 33 jogos, marcou apenas 7 golos. Na segunda foi ainda menos prolífico à beira da baliza, ao marcar somente 6. Fracassada a experiência, Kalinic (transferido) acompanhou o “Big Sam” (acabou despedido) pela porta pequena e rumou à Ucrânia, para o Dnipro.

Aqui fez a sua estreia em 13 agosto 2011, na Arena Dnipro, perante mais de 30.000 adeptos, frente ao Shakhtar Donetsk. Esteve apenas 24’ no relvado, mas teve tempo de marcar já perto do fim o golo de consolação, aos 81’ — e de ver um amarelo, e ainda ser expulso por aplicar uma cotovelada a um adversário. A sua equipa acabaria por sair derrotada por 1-3.

Veni, vidi, vici

Kalinic esteve 4 anos na Ucrânia até rumar a Itália, a Florença, à boleia de 49 golos. E, pela primeira vez na sua carreira, Veni, vidi, vici. Estávamos na época 2015/2016 quando marcou 10 golos pelos Viola antes do Natal, ajudando a que Fiorentina ocupasse os lugares cimeiros da tabela classificativa — algo que seria pouco provável na cabeça dos analistas no verão. O ponta de lança acabaria a temporada com 15 golos marcados e com ares de alguém que merecia uma equipa com outros voos. Na época seguinte, mais 15 golos domésticos e 5 na Liga Europa: no total, 20. Número redondo, capaz de despertar interesse noutros emblemas de dimensão maior. 

E agora, Déjà vu. A Rússia não foi o primeiro palco para o dianteiro alegar dores afim de conseguir atingir certos objetivos. Em agosto de 2017, o internacional croata falhava o treino “sem fornecer qualquer explicação” ao clube de futebol de Florença. “O jogador será castigado por ter violado os regulamentos disciplinares”, frisaria posteriormente a Fiorentina em comunicado. Segundo se escreveu à data, esta falta de comparência deveu-se à sua vontade de forçar a saída, recusando-se a treinar pelos viola — obtendo inclusivamente uma alegada nota médica que justificava a sua ausência nos treinos da pré-temporada. Pela equipa de Florença marcou 27 golos em 69 partidas disputadas na Série A. É então que se abre um novo capítulo na bota geográfica da Europa, mas desta vez em Milão, num ano que em os Rossoneri, alavancados pelo dinheiro chinês, gastaram mais de 200 milhões de euros em reforços numa única janela de transferências.

Kalinic acabaria por chegar ao novo clube com promessas de trabalho, empenho e de fazer golos. “É um novo começo e espero que tudo corra bem”, profetizou na sua apresentação quando chegou a Milão. “Espero continuar a marcar como tenho feito até agora. Vamos ver”, concluiu. E pode-se dizer que já se viu. Muita coisa até... mas não foram golos. O Milan não conseguiu ver o avançado prolífero que marcou 20 golos pela Fiorentina e aquele que era tido como um dos homens a cerrar os dentes e a fazer estragos nas áreas adversárias.

Agora, a informação é contraditória. Tanto se escreve que estará a forçar a sua saída, como se escreve que quer ficar e fazer parte da equipa orientada por Gatusso para atacar a próxima época. Porém, uma coisa é certa: quer fique, quer se confirme a sua saída, os adeptos não parecem estar muito satisfeitos com o seu rendimento, avaliando pelas notas que alguns internautas atribuíram aos jogadores milaneses no Reddit, pois Kalinic é o jogador com “pior nota média”.

O jogador custou 20 milhões de euros no verão passado e marcou apenas 5 golos em 36 jogos pelo AC Milan. Não é de admirar que o seu futuro passe por outras paragens. Aliás, quando assinou contrato, o diretor desportivo do clube, Massimiliano Mirabelli, brincou com a situação na conferência de imprensa, dizendo que iria “mandar de volta” Kalinic se este “não marcasse” golos — o que não deixa de ser irónico tendo em conta o rendimento registado no final da época.

De acordo com o Calciomercato, o seu agente afirma que está em negociações e há um forte interesse do Atlético de Madrid em adquirir os seus préstimos. O que talvez não seja a melhor opção para um jogador que cede às emoções assim que não alcança a titularidade ou quando as coisas não lhe correm de feição. Perdeu espaço com Gatusso por essa razão, e Diego Simeone não é alguém que aparente ter grande paciência para um jogador que não dê tudo o que tem e não tem em campo ou nos treinos.

Todavia, pretendentes, não devem faltar. Há notícias que falam do interesse dos ingleses do West Ham, da China, alguns clubes da Bundesliga e até dos principais protagonistas na Turquia. Mas não se afigura uma mudança muito fácil — especialmente porque o clube italiano está envolto num embargo de transferências a contas com o fairplay financeiro e quer (precisa) de recuperar parte do investimento feito.

A Croácia em 2018. A “Segunda Geração de Ouro”

A Croácia, passando a fase de grupos, tinha capacidade para fazer frente a qualquer equipa que cruzasse o seu caminho. “Tudo era possível”. Pelo menos, assim escrevia o The Guardian numa série de artigos de antevisão e análise de todos os 32 participantes deste Mundial de Futebol na Rússia. E isso era o mínimo que se podia esperar de uma geração com um talento já maturado como aquela que elenca o onze croata. Passado quase um mês, a verdade é que a seleção de Dalic chegou lá com apenas 22 jogadores por dispensa de Kalinic.

Foi uma opção arrojada. Tal com o Dalic entrou para os comandos da seleção croata numa manobra ousada de Suker (o agora presidente da Federação contratou o técnico com apenas um jogo por disputar na fase de qualificação), Kalinic saiu com o mesmo ímpeto com que o seu treinador entrou. Na verdade, foi uma opção futebolística que podia ter sido um autêntico tiro no pé: é que resolveu mandar para casa a única alternativa a Mandzukic (que é o mesmo que dizer a posição 9) dos 23 que chamou. Contudo, em vez de um tiro no pé, a Croácia está na final. Portanto, poucos terão coragem de contestar as suas decisões.

É importante lembrar que as regras da FIFA não permitem, por enquanto, que seja chamado outro elemento para colmatar a saída do dianteiro do Milan. Portanto, quando Dalic optou por cordialmente mandar Kalinic para casa já sabia que não podia contar com mais nenhuma opção para o ataque e que teria que alterar o sistema tático ou então adaptar algum elemento. Ditam as regras que os jogadores lesionados só podem ser substituídos até 24 horas antes do pontapé de saída do primeiro encontro no torneio. Ora, toda esta situação com o ponta de lança se deu já durante o jogo frente à Nigéria, na estreia (vitória por 2-0) — o avançado do Milan apresentou “queixas físicas” para não entrar em campo (entrou Pjaca para o seu lugar).

É certo que não havia sido titular nas últimas quatro partidas disputadas até à sua ordem de expulsão do quartel-geral croata. Mas, apesar disso, mesmo pertencendo a uma segunda linha, sabia (devia saber) que eventualmente iria desempenhar o seu papel. É de referir que apesar de se estar, de facto, a debater com um problema nas costas, Klanicic jogou a titular em ambas as mãos do playoff que deu acesso à fase final do Mundial na Rússia (marcou um golo na vitória em Zagreb, por 4-1 e 'cavou' um penálti).

A lesão ou amuo de Kalinic parece uma cena retirada de um guião mal amanhado, quase demasiadamente caricatural para ser verdade — de tal ordem que até Ricardo Araújo Pereira lhe enviou um abraço. Sobretudo porque este Mundial podia ser a chave para decidir o seu futuro. Podia dar a oportunidade a Kalinic de escolher se queria ficar no Milan ou partir para outras paragens. Porque num jogo de futebol, um minuto é suficiente para virar herói. E estar no banco não significa que não se possa ser decisivo para o conjunto. Basta pensar em Éder. Por duas vezes o português resolveu, saltando do banco. É campeão europeu e russo porque demonstrou ser resiliente e por acreditar que podia fazer a diferença quando fosse chamado — e se o foi! Quem sabe se não seria Kalinic a ditar que o 15 de julho de 2018 seria o 10 de julho de 2016 croata. O adversário até veste de igual e é favorito...

Só que com "o futuro da Croácia" não foi assim. A história escreve-se mesmo por linhas tortas, já que o jogador teve (ou escolheu) de ver de fora, enquanto podia estar dentro, a seleção do seu país conduzir uma campanha para recordar na Rússia — mesmo estando em desvantagem para com as outras (menos um jogador). E logo num torneio em que a equipa jogou três prolongamentos. São muitos minutos nas pernas. Especialmente nas daquele com quem iria, supostamente, rodar. Tanto assim é que Mandzukic está com uma média de minutos no Mundial superior a 100’/jogo. (A título de curiosidade, é oportuno referir que o marcador do golo que eliminou a Inglaterra entrou em campo como o jogador que tinha mais títulos [24] do que a seleção inglesa no seu todo.)

No entanto, há uma certeza: é que na grande final, a ser disputada no próximo domingo no Estádio Luzhniky, em Moscovo, às 16h00 (hora de Lisboa), Kalinic não vai ter a possibilidade de ficar na História da Croácia e do Mundo. Se a dor se revestiu de amuo, saiu-lhe caro.

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