Os americanos têm o 4 de Julho, nós temos o 10. Ambos simbolizam momentos fundacionais para os dois países: os Estados Unidos viram-se livres do insuportável jugo inglês; Portugal afastou a não menos insuportável sombra que pairava sob a sua seleção de futebol sénior, dispersou o mito sisífico de uma equipa que eternamente ameaçava ser vitoriosa para depois falhar nos momentos chave, atingiu a maior façanha de sempre do desporto nacional — isto porque a 10 de Julho de 2016 sagrámo-nos campeões europeus, "c******" (como viria a dizer o próprio herói insuspeito dessa prova).

O Campeonato do Mundo de 2018 já lá vai — não se pode ganhar sempre, depois perde a piada. Certo é, no entanto, que teremos sempre Paris. A conquista do Euro 2016 na capital francesa foi assinalada com pompa e circunstância, como ainda está presente na memória de todos.

Acompanhamento mediático da chegada da equipa, festa rija no centro de Lisboa e honras de estado para os representantes da nação. De resto, nada disto é incomum no que toca à arte de celebrar a vitória em competições internacionais como esta. A quebrar o protocolo esteve o homem que quebrou os sonhos gauleses, Éderzito António Macedo Lopes, que até podia nem ostentar as Quinas, embalado pela emoção e pelo orgulho (e por isso perdoamos-lhe o palavrão), que tomou o papel de representante máximo da nação e, cheio de afeto, decretou que aquele dia, 10 de julho, fosse feriado nacional.

Que se saiba, terá sido uma iniciativa sem precedentes. Dos exemplos mais recentes, se a fleuma e o pragmatismo alemães se demonstram naturalmente incompatíveis a este tipo de decisões tomadas pelo bater do coração (mesmo quando se trata de uma vitória como a do Mundial de 2014), mais estranho é que os nossos vizinhos espanhóis, latinos e mais apaixonados pelo desporto-rei, não tenham aproveitado a inacreditável série que protagonizaram (recorde-se: Euro 2008, Mundial 2010, Euro 2012) para, pelo menos, tirar um dia para celebrar.

Para não destoar, também Portugal optou por uma fórmula memorialista mais moderada. No ano passado, a Federação Portuguesa de Futebol deliberou que a data se designasse por “Dia do Futebol”, o que, não permitindo ao nobre povo português ficar por casa a rever os jogos do Euro 2016, foi projetado para que doravante se organizassem jogos de futebol popular por todo o país para celebrar o feito.

De resto, mesmo sem ter feito parte dos eleitos para defender as cores nacionais na Rússia, Éder continuou a evidenciar o seu raro talento para ser decisivo nos momentos in extremis. Depois de propalar Portugal para a glória europeia já para lá do tempo regular de jogo, Éder salvou o Lille de ir a prolongamento frente ao modestíssimo Bergerac nos oitavos-de-final na edição da Taça da França 2016/2017. No entanto, se aqui o avançado não fez mais do que prolongar uma campanha de rumo funesto (o Lille cairia nos "quartos" frente ao Mónaco de Leonardo Jardim), o mesmo não se pode dizer do seu pontapé a 5 de maio deste ano. Com apenas três golos no campeonato russo — lá está, não é de constância mas de oportunidade que se fazem os seus trunfos — Éderzito voltou a vestir o papel de arma secreta, saindo do banco do Lokomotiv de Moscovo para em apenas 8 minutos desbloquear no nulo frente ao Zenit e fazer do seu clube de empréstimo o campeão da Rússia.

Até ao fim da carreira espera-se que continue a aparecer na altura certa, à hora certa. Mas ousa-se dizer que nenhum dos seus golos será tão doce, como aquele que faz hoje dois anos.


Da desilusão de Saltillo à alegria de Paris passaram 30 anos. 30 anos de futebol e da História de um país que mudou dentro e fora das quatro linhas. Um percurso que recordamos no  “Chegámos Lá, Cambada”, o documentário produzido pela MadreMedia e exibido no SAPO24. Aqui, ao longo de oito episódios, contamos a história que vai do pontapé de Carlos Manuel, em Estugarda, ao golo do Éder, em Paris, que nos deu a vitória no Euro 2016.

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