Quando a direção do Arsenal decidiu colocar um ponto final à era de Arséne Wenger, procurou um treinador que fosse sinónimo de títulos. A opção recaiu sobre Unai Eméry, homem de currículo vasto em competições nacionais — nas duas épocas em que treinou o Paris Saint-Germain venceu um campeonato, duas supertaças, duas Taças de França e duas Taças da Liga — e europeus — venceu três Ligas Europa consecutivas pelo Sevilha.

Esta última frase devia ser argumento suficiente para colocar os homens do Chelsea em sentido esta noite em Baku, capital do Azerbeijão, num jogo que começou no dia 29 de maio e acabou já no dia 30, vitimado pela ditadura das transmissões televisivas e o fuso horário das principais cidades europeias.

Mas o jogo era mais do que isso uma vez que ambas as equipas jogavam a época aqui, nestes 90 minutos. Depois do Manchester City ter ‘secado’ todos os títulos ingleses, a Arsenal e Chelsea restava-lhes a Liga Europa. De um lado, os Gunners com um treinador que conhece a competição melhor do que ninguém, mas com um historial de derrotas europeias terrível. A equipa treinada por Unai só tem dois títulos europeus no currículo, uma Taça das Taças e uma Taça das Cidades com Feiras, competições já extintas. Além disso soma três derrotas em finais europeias nos últimos 24 anos: em 1995 na Taça das Taças, em 2000 na Taça UEFA e em 2006 na Liga dos Campeões. Do outro lado, uma equipa de balneário complicado que dificultou a época ao treinador — ainda esta terça-feira Maurizio Sarri atirou o chapéu ao chão perante um desentendimento no treino entre David Luiz e Gonzalo Higuain —, mas com uma sorte europeia bem diferente. Só neste século o Chelsea já venceu a Liga dos Campeões e a Liga Europa, esta última diante do SL Benfica. Dessa final, nos Blues, ainda resistem três jogadores, seis anos depois: Azpilicueta, David Luiz e Hazard repetiram a titularidade na final equilibrando assim, a nível de experiência, o conhecimento da competição para com o treinador adversário. Três com um título, um com três títulos.

O Arsenal entrou melhor na partida comandado por um jovem Niles irrequieto que logo aos oito minutos cruzou na direita com força obrigando Kepa a intervir na jogada. O soco do guarda-redes espanhol para a frente deixou Aubameyang com o golo nos pés. O gabonês atirou forte, mas ao lado, perante uma defesa desposicionada e baralhada.

Enquanto o Chelsea demorava a encontrar-se na partida e arrumava a defesa para evitar as investidas de Lacazette e companhia, Xhaka, com espaço à entrada na área, rematou de pé direito com força com a bola a raspar de leve na barra, um daqueles tiros que arrepia a espinha de qualquer adepto no estádio e que merece mais de três repetições na transmissão televisiva.

Depois da meia-hora, o Chelsea acordou para fazer desta final um verdadeiro jogo inglês, pelo menos durante alguns minutos. Ninguém gosta de monopólios, fecham a oportunidade aos outros de brilhar, mas se há algo de positivo em a Premier League se ter apoderado das finais europeias esta temporada é o nível de expectativa que gerou no público. Aos 34 minutos, um toque de calcanhar de Hazard deixou Emerson em boa posição. O internacional italiano rematou para defesa apertada de Petr Čech, o histórico guardião checo, ex-glória do Chelsea, que fez hoje o último jogo da carreira. Antes do queixo baixo, Cech ainda teve direito à glória quando aos 41 minutos Kanté tocou para Eden Hazard, o belga deixou para Jorginho e este para Giroud que, em excelente posição à entrada da área, rematou para uma grande defesa de Čech.

A segunda parte não seria igual, por muito que prometesse ser dividida. O Chelsea melhorou na transição defesa ataque e fez-se sentir mais no último terço com perigo ao mesmo tempo que o Arsenal mostrava que simplesmente não era a noite deles numa série de episódios (e golpadas) de azar que foram retirando confiança à equipa que terminou o jogo com uma defesa completamente desorganizada e à mercê dos ataques dos Blues. Mas vamos partir por capítulos estes 45 minutos em que tudo aconteceu:

"O beijo do escorpião"

Não é a novela portuguesa da TVI transmitida em 2014 e que teve como protagonistas atores como Sara Matos, Dalila Carmo ou Pedro Lima. É antes um título pomposo para o golo traiçoeiro de Oliver Giroud aos 49 minutos, o primeiro da partida. O francês, que já representou o Arsenal, clube ao serviço do qual venceu um prémio Puskas com um golo escorpião, respondeu a um cruzamento de Emerson com um cabeceamento baixo e colocado junto ao primeiro poste. O número 18 tornou-se assim no melhor marcador da competição com 11 golos numa demonstração do seu valor, ele, o avançado que foi campeão do mundo sem ter marcado um único golo e de ter participado em todos os jogos do Mundial, mas que a nível tático desempenhou um papel fundamental para que Griezzman e Mbappé fossem as armas apontadas às balizas adversárias.

"Pedro, o homem que já ganhou tudo"

Pedro Rodriguez não é o primeiro nome que nos vem à cabeça quando pensamos nos anos de glória europeia do Barcelona, mas a verdade é que o extremo espanhol estava lá e não era, de todo, um atleta de segunda linha. Em Camp Nou venceu três Ligas dos Campeões, três supertaças europeias e três campeonatos do mundo de clubes. Tais prestações valeram-lhe a convocatória à seleção espanhola pela qual venceu um Europeu e um Mundial. Ou seja, quando Pedro se muda para Inglaterra só tem um título europeu por conquistar: a Liga Europa. Ora bem, o espanhol completou esta quarta-feira de forma definitiva o seu palmarés de clubes (a nível de seleções ainda lhe falta conquistar uma Taça das Confederações) e fá-lo com uma boa exibição presenteada com um golo aos 60 minutos, recuperação de bola de Kovacic que toca para Hazard, o belga cruza rasteiro para o remate certeiro de pé esquerdo de Pedro. Marcou em todas as finais internacionais de clubes em que participou nesta noite não faltou.

"Hazard, quando 100 milhões parece ser pouco por um talento"

Naquele que poderá ser o último jogo de Eden Hazard pelo Chelsea — os rumores colocam-no como um dos cabecilhas da revolução no plantel do Real Madrid orquestrada por Zidane, numa transferência que deverá rondar os 100 milhões de euros — o belga brilhou. Sempre irrequieto e matreiro nas combinações com Emerson no lado esquerdo dos Blues, Hazard, de finta rápida, foi afirmando, com os pés, que a qualquer momento estava pronto para deixar a sua marca na partida. Maitland-Niles, elogiado no início desta crónica, fez o favor ao belga ao estender-lhe a passadeira vermelha após uma falta desnecessária, reflexo de uma equipa que sofreu dois golos nos primeiros 15 minutos da segunda parte e que via a vida a ficar complicada. O jovem inglês fez falta sobre Pedro dentro da grande área, penálti e golo fácil para Hazard. Bola para um lado, guarda-redes para o outro.

O belga viria a bisar na partida aos 72 minutos. Kanté roubou a bola a Aubameyang quando o gabonês tentava partir para o ataque, Hazard tabela com Giroud e o extremo aparece no meio da área para empurrar para o quarto golo dos Blues no jogo.

Remeto o Arsenal para segundo plano nesta segunda metade do texto. Porquê, pergunta. As estatísticas de Lacazette aos 82 minutos podem ser uma boa ilustração para isso: zero remates, zero passes para finalização, apenas um drible eficaz em quatro tentados, apenas um duelo aéreo ganho em cinco disputados, 12 perdas de posse e zero ações defensivas. Os jogadores dos Gunners foram baratas tontas depois do primeiro golo sofrido e nunca se conseguiram reerguer, mesmo após o golo de honra de Iowbi, um daqueles golos que enchem o estádio, de primeira à entrada da área.

Um minuto depois do Goalpoint ter lançado a estatística sobre o avançado francês do Arsenal, Lacazette teve oportunidade de se corrigir num lance isolado diante de Kepa, mas falhou. Willock, logo no minuto seguinte, a passe do francês, também isolado, remata ao lado. A ilustração deste Arsenal inconsequente ganhava vida própria. No final 4-1 para o Chelsea, resultado fechado.

O retrato da segunda parte é o retrato de uma equipa de balneário vaticinado pelos media ao longo da época que se reergueu ao intervalo para elevar o futebol de Sarri oferecendo-lhe o primeiro grande título enquanto treinador e dignificando aquele que dizem ser o último jogo de Hazard pelo Chelsea, ele que terá sido dos jogadores mais talentosos a vestir a camisola azul neste milénio. Por outro lado, é também o retrato de um treinador campeão, de mentalidade vencedora, que não está em sintonia com uma equipa. Unai Eméry perdeu pela primeira vez a final de uma competição que podia ter o seu nome em subtítulo e dá um terrível último jogo a Petr Čech, guarda-redes que pela história merecia pendurar as luvas num outro contexto. O diagnóstico a ser feito é do lado do Arsenal que parece ter um problema crónico em tocar em troféus e um transtorno compulsivo obsessivo de acumulação de medalhas de segundo lugar. Um cenário duro para os adeptos de um clube histórico que em breve já não tem coragem de relembrar que foram a única equipa a conseguir vencer a Premier League sem uma única derrota. Parecendo que não, isto já foi há 15 anos, na distante época de 2003/04 em que os Gunners tinham jogadores como Thierry Henry que nunca deixaram os adeptos deixar de sonhar.

No meio disto tudo, e antes de terminar: o Chelsea não perde um único jogo nesta edição da Liga Europa. Uma nota a ter em conta quando a prestação de Sarri for balanceada naqueles artigos longos de fim de época.

créditos: EPA/MAXIM SHIPENKOV

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

Antes de inaugurar o marcador da partida, Giroud mostrava-se baralhado em relação ao que fazer com os dois apêndices que lhe iam da anca até ao chão. Atrapalhou-se com a bola duas vezes, em duas zonas de perigo, o que fez com que o primeiro remate do Chelsea só acontecesse depois da meia-hora.

Čech, a vantagem de ter duas luvas e um capacete

Aqui, em jeito de homenagem, falo de Petr Čech, um guardião histórico que antes de entrar em campo mete um capacete e quase que parece que ia fugir para o campeonato de polo aquático de Porto de Mós. Estava a brincar. Um enorme jogador que merecia uma melhor despedida. Vénia ao homem.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

Tenho uma teoria de que em goleadas, o golo de honra da equipa derrotada, em 70% das vezes, é um golaço. A estatística é inventada, mas este golo de Iwobi não:

Nem com dois pulmões chegava à bola

A Arsenal Fan TV vai fazer este parágrafo melhor do que eu (e em vídeo!). Sinto que não vale a pena sequer tentar. Vão ver ao Youtube, os adeptos dos Gunners são realmente únicos a falar da própria equipa.

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