Não será novidade para ninguém que o basquetebol está a mudar (ou, argumentarão alguns, já mudou). Até os fãs mais distraídos saberão que estamos a viver numa era dourada do jogo exterior e que se estão a lançar mais triplos do que nunca na NBA. Das 10 equipas com mais triplos tentados numa temporada na história da liga, cinco fizeram-no na temporada passada. Mas estará tudo louco na liga norte-americana? Porque é que as equipas, de repente, desataram a disparar tanto de longa distância?

Esta revolução não está a acontecer por acaso. Duas razões explicam-na: a ascensão dos analytics (o estudo e análise estatística e matemática do jogo) e a evolução dos jogadores.

Primeiro, as equipas perceberam que um lançamento de três pontos vale mais do que um de lançamento de dois. Verdade de La Palisse, certo? Reformulemos então para algo mais preciso: tentar lançamentos de três pontos compensa mais do que tentar lançamentos longos de dois (os tradicionais lançamentos de meia distância). Mesmo que o aproveitamento seja pior.

Imagine-se o seguinte cenário: uma equipa lança 10 vezes de meia distância. Se concretizar na média da liga (cerca de 45%) conseguirá 8,5 pontos por cada 10 lançamentos. Outra equipa lança 10 vezes da linha de três pontos. Se acertar na média da liga (cerca de 35%), marcará 10,5 pontos por cada 10 lançamentos. Se quisermos fazer as contas doutra forma, só precisará de acertar 3 vezes de três para conseguir os mesmos pontos que em 4 concretizações de dois. Portanto, lançar 33% de três pontos compensa mais do que lançar 45% de meia distância. Ou seja, voltando ao início, mesmo que se falhe mais, compensa lançar mais triplos. Aquilo que os analytics mostram é que os lançamentos de meia distância são os mais ineficientes do jogo.

Segundo, os jogadores estão melhores do que nunca a lançar dos sete metros e vinte cinco.

É verdade que, desde que existe a linha de três pontos, sempre existiram bons lançadores daí. Mas eram uma exceção. Porque, apesar de parecer que não e a maioria de nós não nos lembrarmos do jogo sem a mesma, a linha de três pontos é algo relativamente recente. Foi adoptada pela NBA na época de 1979-80 e os jogadores que compunham a liga nos anos 80 e 90 não aprenderam o jogo com ela. Tal como os millennials são a primeira geração nativa digital, esta é a primeira geração da NBA que cresceu a lançar de três pontos. Hoje, há mais jogadores do que nunca capazes de lançar daí e esses jogadores já não são uma raridade, mas antes a normalidade.

Portanto, a adoção (quase) generalizada dos analytics, combinada com o facto de termos uma geração de jogadores mais capaz do que nunca de executar esse sistema, criou uma tempestade perfeita para esta revolução.

A equipa-bandeira deste novo estilo de jogo são os campeões Golden State Warriors. Quando se pensa em triplos lançados de qualquer lado (e em qualquer momento do ataque) pensa-se em Stephen Curry, Klay Thompson ou Kevin Durant. Quando se pensa num jogador que os miúdos querem imitar e no impacto sobre as futuras gerações, Curry é o nome que vem à cabeça.

Mas nenhuma equipa está a testar este estilo de jogo e a levá-lo aos limites como os Houston Rockets.

A equipa texana está a quebrar todos os recordes de triplos. Na época passada, estabeleceram um novo máximo de lançamentos de três pontos convertidos, 1.181, e foram a primeira equipa na história com mais de 3.000 tentativas (3.306, mais de 500 acima dos segundos). Este ano, a continuarem ao ritmo atual, estão a caminho de tentarem mais de 3600 e marcarem mais de 1200. Têm os dois primeiros jogadores nas tentativas por jogo (Eric Gordon, com 11.2, e James Harden, com 11; são 22 triplos por jogo só entre esses dois jogadores, mais do que algumas equipas inteiras!) e tornaram-se na equipa na história que menos lançamentos de dois tentou num jogo, 26. Nessa partida, frente aos Charlotte Hornets, lançaram 85 vezes, 57 delas de três pontos. E ganharam por 16. E têm grelhas de lançamentos como esta que são o sonho molhado dos defensores das analytics:

Um dos arquitetos desta revolução é o general manager Daryl Morey, um dos pioneiros da liga nos analytics. Morey viu para onde o jogo estava a evoluir e fez all-in nessa estratégia. Para ele, os lançamentos ideais são de curta distância (bandejas ou afundanços) ou de longa distância. Arranjou uma estrela perfeita para jogar nesse sistema, James Harden, e rodeou-o de atiradores com carta branca para atirar. E, claro, contratou o treinador perfeito para por esse plano em prática.

Mike D’Antoni, um dos pioneiros dos ataques modernos, do “pace and space” e do pick and roll alto, é o outro cérebro por trás desta experiência. Popularizou o ataque com os jogadores abertos no perímetro nos Phoenix Suns (os famosos Suns de Steve Nash e dos “Seven Seconds Or Less”) e leva-o agora ao extremo com os Rockets. D’Antoni revolucionou os ataques da NBA no início dos anos 2000 e está a fazê-lo novamente.

Se os analytics e os jogadores modernos criaram a tempestade perfeita para esta evolução do jogo, em Houston juntaram-se dois cientistas loucos. Juntou-se "a fome com a vontade de comer", dando origem a um festim de triplos. Regalemo-nos.

Márcio Martins já foi jogador, oficial de mesa, treinador e dirigente. Atualmente, é comentador e autor do blogue SeteVinteCinco. Não sabe o que irá fazer a seguir, mas sabe que será fã de basquetebol para sempre.

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