Todas as noites em que há jogo dos Golden State Warriors, repete-se o cenário. As redes sociais inundam-se com «highlights» espetaculares de Stephen Curry, base do conjunto de São Francisco. Sejam triplos lançados praticamente do meio campo, dribles estonteantes, assistências nunca antes vistas ou lançamentos de costas para o cesto, Curry é sinónimo de magia e a cada jogo dos Warriors perguntamos "O que é que este gajo vai fazer desta vez?". A resposta é sempre a mesma. "Wowww!", "Splash!", "Pumba!" são só algumas das expressões que usamos, noite sim, noite sim, quando o número 30 dos Warriors está dentro de campo.

De acordo com o site Basketball Reference, os dez principais candidatos ao prémio de MVP são, por esta ordem, Nikola Jokić, Joel Embiid, LeBron James, Giannis Antetokounmpo, Kawhi Leonard, Anthony Davis, Damian Lillard, Rudy Gobert, Paul George e Khris Middleton. Sim, Steph Curry está de fora do top-10 e até Middleton, segunda figura dos Milwaukee Bucks, surge na lista. É ridículo. Os especialistas dizem que, para Curry estar na corrida à distinção, os Warriors têm que ganhar, mas a verdade é que a equipa treinada por Steve Kerr tem um registo de 13 vitórias e 12 derrotas, logo atrás dos Denver Nuggets (13V-11D), do sérvio Jokić, o favorito a MVP para vários sites de referência.

Alguns analistas argumentam que passou o seu «prime». Curry faz 33 anos daqui a um mês, mas diz que ainda se sente nos "vintes" e o seu treinador pessoal, Brandon Payne, não tem dúvidas de que o base está na melhor forma da carreira. "Ele tem 33, mas fisicamente está a par de um atleta de 27. Ainda está a desenvolver-se, e pode ficar mais forte e mais rápido", afirmou Payne ao site Chico Enterprise-Record. O próprio Steve Kerr garante que nunca viu um Curry tão bom: "Estamos a falar de um MVP em duas ocasiões, campeão três vezes. Nunca o vi assim. É óbvio que sempre foi um lançador incrível, mas está mais forte a passar nos bloqueios e nas penetrações para o cesto. O que ele está a fazer é incomensurável."

Os números provam a boa época de Curry. O base soma médias de 29.6 pontos (o segundo melhor registo da carreira, apenas atrás dos 30.1 de 2015/16, quando foi eleito MVP unânime), 5.4 ressaltos (máximo de carreira), 5.9 assistências e 1.2 roubos de bola, com uma eficiência de 48.7% nos lançamentos de campo, 42.9% da linha dos três pontos e 92.9% nos lances livres. Está a jogar menos de 34 minutos por jogo e lidera a NBA no total de pontos marcados (741).

De acordo com a ESPN Stats & Info, Curry fica apenas atrás de Michael Jordan na lista de jogadores da história da NBA a marcar mais pontos nos primeiros 25 jogos de uma época, com pelo menos 32 anos de idade. Segundo melhor marcador da liga, depois de Bradley Beal (32.8), Steph é líder incontestado no total de triplos convertidos, com 121 - Buddy Hield é o segundo dessa lista, com distantes 94 -, num ano em que, sem Klay Thompson ao lado, é muitas vezes alvo de situações de 2x1, 3x1 ou até de box-and-one.


Ouça aqui o episódio desta semana do Bola ao Ar, podcast sobre NBA produzido pela MadreMedia e apresentado por João Dinis e Ricardo Brito Reis:


Só nos cinco jogos deste mês de fevereiro, a média de Curry dispara para 37.4 pontos, com eficácia de 57.5% nos lançamentos de campo, 50.0% nos triplos (em quase 13 tentativas por jogo) e 94.3% da linha de lance livre. Números extraordinários. E mesmo defensivamente, Curry tem evoluído e este ano apresenta números muito positivos. Por exemplo, os jogadores defendidos diretamente pelo base têm uma eficácia de lançamentos de campo de apenas 41.7%, um registo melhor do que a média da liga. Já nas chamadas «hustles stats», Steph lidera os Warriors na média por jogo de bolas soltas recuperadas (1.0) e é o segundo melhor da equipa na média de deflexões (2.5), a par do especialista defensivo Draymond Green.

É verdade que os números não são tão bons quanto os da época 2015/16, mas este ano o contexto é manifestamente mais difícil para Steph. No ano em que foi MVP unânime, e para além da companhia de Draymond, tinha Klay Thompson ao seu lado e nomes como Harrison Barnes, Andre Iguodala, Shaun Livingston, Andrew Bogut e Leandrinho Barbosa no plantel, o que ajudava a dividir atenções dos adversários. Este ano, Leandrinho continua por lá, mas como treinador adjunto, e os jogadores mais usados são atletas à procura de afirmação, como Andrew Wiggins, Kelly Oubre Jr. e o «rookie» James Wiseman, ou nomes de terceira linha, como Juan Toscano-Anderson, Damion Lee, Eric Paschall e Brad Wanamaker.

Segundo melhor jogador da liga em «Real Plus Minus» (+7.86) - o RPM é uma estatística que determina quantos pontos a presença de um jogador em campo soma ou subtrai do total da equipa por cem posses de bola - e líder destacado em «Offensive Real Plus Minus» (+9.36) - mede o impacto ofensivo de um atleta -, podemos afirmar que, sem Curry na equação, os Warriors seriam candidatos a perder todos os jogos da época. O mesmo não se aplica aos outros nomes apontados ao jogador mais valioso da temporada, o que só prova a importância daquele que é, sem qualquer discussão, o melhor lançador de todos os tempos.

A votação para o prémio de MVP vive muito de narrativas e há concorrentes fortes: Jokić está a jogar o melhor basquetebol da carreira, Embiid é a figura de uns Philadelphia 76ers que estão no topo do Este, LeBron continua a dominar a liga aos 36 anos de idade e na 18ª época de NBA. Mas tal como o "King" pediu respeito pelos Lakers e pelo seu nome quando os californianos venceram o título da época passada, na "bolha" de Orlando, Curry está a fazer o mesmo dentro das quatro linhas. Sem o verbalizar e com o sorriso no rosto que é imagem de marca desde que chegou à liga, Steph "exige" mais respeito e não apenas as onomatopeias. Entrar na discussão para MVP é o mínimo que lhe devemos.

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