No jogo que encerrou a sua terceira época nos Utah State Aggies, Neemias Queta só não esteve em campo durante 17 segundos. O seu treinador, Craig Smith, sabia que a presença do poste português era determinante para o sucesso da equipa e manteve-o dentro das quatro linhas durante praticamente todo o jogo. Apesar da derrota frente a Texas Tech (53-65), Neemias respondeu com uma exibição que fica para a história: 11 pontos, 13 ressaltos, 6 assistências, 7 desarmes de lançamento e um roubo de bola. Ficou para a história porque, desde que os desarmes de lançamento são contabilizados, é apenas o segundo atleta a registar pelo menos dez pontos, dez ressaltos, cinco assistências e cinco abafos numa partida do torneio da NCAA.

Quebrar recordes é já um bocejo para o jovem de 2,13 metros de altura, 2,29 metros de envergadura e 111 kg que nasceu há quase 22 anos em Lisboa e que cresceu no Vale da Amoreira, na Margem Sul do Tejo. Esta época, foi o único jogador da Division 1 da NCAA - e há mais de 350 universidades no escalão máximo do basquetebol universitário americano - a combinar mais de 65 assistências (77) e mais de 65 desarmes de lançamento (97) nos totais da temporada e foi também o único jogador a jogar nos Estados Unidos com médias acima de 3.0 abafos (3.2), 2.0 assistências (2.7) e 1.0 roubos de bola (1.1). Terminou a época com médias de 14.9 pontos, 10.1 ressaltos, 2.7 assistências, 1.1 roubos de bola e 3.3 desarmes de lançamento, com eficácias de 55.9% nos lançamentos de campo e 70.7% nos lances livres.

Mas há mais registos impressionantes do basquetebolista formado no Barreirense e no Benfica, que mereceu uma menção honrosa da Associated Press na eleição das equipas All-American (uma espécie de melhor equipa de jovens promessas que jogam no basquetebol americano). Desde 1992/93, apenas Neemias e Bo Outlaw, que fez carreira na NBA entre 1993 e 2008, fizeram médias de 14.5 pontos, 9.5 ressaltos, 2.5 assistências, 1.0 roubos de bola e 3.0 desarmes de lançamento numa época da NCAA e, desde 2010/11, apenas o português e Anthony Davis, atual campeão da NBA pelos Los Angeles Lakers, registaram numa época números similares numa série de estatísticas avançadas como o Defensive Rating, as Defensive Win Shares ou o Defensive Box Plus/Minus.

São estatísticas avançadas para "choninhas", é certo. Mas "estatísticas avançadas para choninhas" são, cada vez mais, um fator que pesa na altura de escolher jogadores jovens por parte das equipas da NBA. Sonny Bairos, açoreano que trabalha no site de basquetebol Hoops Hype Canadá, garante que os Toronto Raptors conhecem bem todos os números do poste português e estão interessados em Neemias. "Os Raptors estiveram credenciados para seis jogos dos Utah State Aggies, este ano, para observar o Neemias. A posição de poste é uma área em que têm tido dificuldades esta época", revela Bairos, que confessa não estar tão entusiasmado com as perspetivas de ter um português a entra no draft da NBA desde que João "Betinho" Gomes foi hipótese para a liga norte-americana, em 2007.

"É uma pena que a imprensa especializada norte-americana não mostre mais 'amor' pelo Queta, em especial depois da forma como ele acabou a temporada. A conferência Mountain West tem uma reputação cada vez melhor e o jogo 'all-around' do Neemias melhorou muito. Os Raptors também estão a observar o poste Charles Bassey (Western Kentucky), mas a maturidade emocional do Neemias pode decidir a favor dele. E o jogo contra Texas Tech não podia ter solidificado mais o seu 'draft stock'", acrescenta Sonny Barios sobre o português, que à entrada para a «March Madness» liderava o país em Defensive Win Shares (2.8) e Defensive Box Plus/Minus (6.6), e estava no top-10 em total de desarmes de lançamento (2.º), duplos-duplos (4.º), ressaltos totais (6.º).

O jogo frente a Texas Tech não foi a única montra para o gigante luso. Desde que chegou a Logan, cidade no estado de Utah, há três anos, Neemias tem colecionando distinções. São já catorze prémios individuais e nomeações, incluindo «Rookie of the Year» em 2018/19, «Defensive Player of the Year» em 2018/19 e 2020/21 e a nomeação como um dos dez semifinalistas do Kareem Abdul-Jabbar Award de 2020/21 (o prémio que tem o nome da lenda do basquetebol e serve para enaltecer os jogadores que jogam na posição de poste). Foi, ainda, escolhido pelo reputado site desportivo Bleacher Report, que o apelidou de "presença colossal na área pintada", como «National Defensive Player of the Year» e foi distinguido como «Mountain West Defensive Player of the Year» no voto dos treinadores e no voto dos media. Os jornalistas que acompanham a conferência Mountain West também o elegeram como o melhor jogador da competição.

Se deixarmos as estatísticas e a lista de prémios de lado, e nos concentrarmos apenas no que acontece dentro de campo, há uma palavra que resume bem este último ano de Neemias: evolução. O poste refinou o seu reportório no jogo interior e é capaz de finalizar com ambas as mãos, seja através de lançamentos em suspensão, 'floaters' ou 'running hooks'. Melhorou ainda a tomada de decisão aquando de situações de 2x1 nas posições de poste-baixo, encontrando invariavelmente o melhor colega de equipa no exterior para dar continuidade aos movimentos da equipa, e subiu a eficácia de lançamento da linha de lance livre para os tais 70.7% em 2020/21, mas lançou acima de respeitáveis 82% desde o início de fevereiro.

Foi precisamente em fevereiro que somou oito duplos-duplos consecutivos, num registo que, na história da conferência Mountain West, só tinha sido atingido por dois jogadores que, mais tarde, se tornaram estrelas na NBA: Andrew Bogut e Kawhi Leonard. Nesses oito jogos, Neemias fez médias de 20.9 pontos, 12.8 ressaltos e 3.6 desarmes de lançamento. Após essa série de partidas de particular inspiração, e que incluiu dois jogos consecutivos com 32 e 30 pontos marcados, a ESPN atualizou a lista de 100 melhores promessas de 2021 e Queta, que não fazia parte da lista, apareceu na 77.ª posição. E o jornalista Sam Vecenie, do site The Athletic, subiu o português da 65.ª para a 52.ª posição do seu 'mock draft'.

Um defensor de elite

Neemias sempre foi um bom defensor. Este ano, provou pertencer à elite. Só a sua presença intimida os adversários de uma forma tão evidente que os obriga a alterar a mecânica de lançamento ou mesmo a abdicar do "tiro" com receio do desarme. Como qualquer predador, o poste luso sente o cheiro de sangue e ataca. Adora desarmar lançamentos, mas não se fica pelo simples abafo. Neemias não descansa enquanto a sua equipa não recupera a posse de bola. Não é comum o mesmo jogador abafar e recuperar a bola. Normalmente, só abafa e deixa o ressalto para os colegas. Neemias faz tudo. O treinador da universidade de Colorado State, Niko Medved, trocou os 'analytics' por uma expressão bem entendível. "Se o Neemias estiver na área restritiva, ele vai dominar. A não ser que tenhas uma motosserra".

Para Jeremy Woo, colunista da Sports Illustrated, a evolução no ataque também é notória. "A sua fisicalidade e a capacidade de jogar com contacto melhorou. Está mais confiante perto do cesto e sabe que consegue sempre lançar à frente de jogadores mais baixos. Duvido que possa tornar-se um lançador consistente, portanto terá que fazer a diferença por tudo o resto que oferece ao jogo. Apesar de não ser extraordinariamente evoluído do ponto de vista ofensivo, tornou-se um bom passador e melhorou o jogo interior e a consistência. Tem a possibilidade de se desenvolver e tornar-se um poste de rotação numa equipa da NBA com mentalidade defensiva", considera Woo, que acrescenta que "Queta tem uma altura e uma envergadura difíceis de encontrar e move-se bem para um jogador grande".


Ouça aqui o episódio desta semana do Bola ao Ar, podcast sobre NBA produzido pela MadreMedia e apresentado por João Dinis e Ricardo Brito Reis:


Já Matt Babcock, antigo agente da NBA e agora colunista da Babcock Hoops e da BasketballNews.com, sublinha que "o que é mais intrigante no Neemias é mesmo a combinação da altura com o atleticismo". Assumindo que segue o desenvolvimento do português desde que este chegou a Utah State, Babcock relembra que as equipas da NBA atual já não procuram tanto jogadores com as características de Neemias: "Postes tradicionais, como ele, foram muito valiosos na NBA do passado. No entanto, hoje em dia, as equipas gostam de jogar rápido e com muito espaçamento. O Queta é, sobretudo, um atleta que desarma lançamentos e um marcador de pontos nas áreas interiores, e não uma ameaça do perímetro, o que pode limitar o seu valor de mercado", explica.

Neemias pode, ainda assim, vir a acrescentar ao seu jogo essa ameaça de perímetro. Ainda em Portugal, gostava de testar os lançamentos de longa distância, mas lançou apenas oito vezes de três pontos durante as três épocas em Utah State, muito por força do sistema ofensivo do treinador Craig Smith, que não utilizava o poste como "atirador". Mas no ano em que passou pelo Benfica, para além dos treinos da equipa principal e da equipa B, Neemias era presença assídua em treinos individuais, para melhorar o gesto de lançamento. E, entre todos os atletas seniores do clube da Luz na época 2017/18, foi o que mais vezes fez trabalho de ginásio, o que contribuiu para aumentar a massa muscular em mais de oito quilos em apenas nove meses.

Quem trabalhou com ele ao longo da carreira assegura que é uma esponja a assimilar informação e que está sempre disponível para treinar. "Ele adora estar no pavilhão e trabalha imenso", confirmou Craig Smith, no lançamento da «March Madness». A evolução em determinados capítulos do jogo não surpreende, portanto. "Desenvolveu uma técnica de passe acima da média para um poste, aliada a um entendimento do jogo cada vez maior. Antigamente, perdia muitas bolas quando sofria 2x1 a poste-baixo e agora identifica bem onde a defesa contrária está a colapsar para fazer o passe para o perímetro", avalia Nuno Soares, colunista de basquetebol universitário norte-americano.

As comparações com atuais jogadores da NBA, como o francês Rudy Gobert (Utah Jazz) ou o suíço Clint Capela (Atlanta Hawks), começam a surgir com naturalidade. "Comparo-o ao Jarrett Allen (Cleveland Cavaliers), porque tem uma capacidade elevada de proteger o cesto da sua equipa, é uma grande ameaça a desfazer para o cesto da equipa adversária em situações de bloqueio direto e melhorou muito como passador a partir das posições de poste-baixo. Com a qualidade que apresentou esta época, voltou a emergir como 'prospect' de draft", disse Mike Schmitz, considerado um dos gurus da análise ao basquetebol universitário dos EUA, durante uma emissão da ESPN.

Contudo, os comentários mais elogiosos sobre Neemias Queta vieram de John Hollinger, pioneiro na utilização de estatísticas avançadas. O colunista sénior do The Athletic e antigo vice-presidente de operações dos Memphis Grizzlies durante sete anos incluiu Neemias num artigo sobre jogadores subvalorizados da NCAA e confirmou ser fã do português no podcast «Chad Ford's NBA Big Board». "Não houve grande 'buzz' quando a época começou, mas tem estado impressionante. É claramente o melhor jogador da conferência Mountain West. Excelente a desarmar lançamentos, mas também um jogador efetivo em situações de 1×1. Não é um zero no meio-campo ofensivo, como muitos jogadores da altura dele. É bem vísivel o seu 'feel' pelo jogo. Ainda está a desenvolver-se e a única coisa contra ele é que é um poste tradicional. Eu penso que o Neemias tem que estar no top-40, provavelmente no top-30 e pode mesmo dar-se o caso de ser escolhido no final do top-20", afirmou.

Num draft de 2021 recheado de talento e encabeçado pelos promissores Cade Cunningham, Jalen Suggs, Evan Mobley, Jalen Green e Jonathan Kuminga, esperar uma escolha do português no top-20 talvez seja irrealista, mas a segunda ronda do draft é uma possibilidade assumida pelos entendidos. "Há hipóteses de ser escolhido no draft, com maior probabilidade na segunda ronda, e no pior cenário acabará por entrar na liga através de um «two-way contract»", diz Jeremy Woo, num otimismo partilhado por Matt Babcock: "Não acredito que venha a ser escolhido na primeira ronda, embora não seja uma ideia completamente descabida. Se ele decidir avançar para o draft de 2021, julgo que terá boas hipóteses de ser escolhido". Também Nuno Soares aponta Neemias para "a segunda parte da segunda ronda, entre as 45.ª e 60.ª escolhas", mas lembra que "estamos numa era de democratização da forma como se pode chegar à liga".

E é verdade. Nunca como agora chegam à NBA jogadores provenientes de tantas origens, seja através G-League (liga de desenvolvimento da NBA), de campeonatos fora dos Estados Unidos da América ou até mesmo 'undrafted'. O draft não é um fim em si mesmo. E, em primeiro lugar, é preciso saber se é esse o próximo passo que o português deseja, porque ainda tem a possibilidade de voltar à universidade. A idade de Neemias - faz 22 anos a 13 de julho - não aconselha novo regresso a Logan e os excelentes desempenhos desta temporada, aliados às constantes referências de nomes como Schmitz, Hollinger, Woo, Babcock e muitos outros (Jonathan Wasserman, Andy Katz, John Gasaway, Kevin Sweeney, etc.), devem ser motivo mais do que suficiente para se tornar elegível ao draft de 2021.

Neemias Queta tem apenas uma rotina que mantém antes de cada jogo: beber café. Em Portugal tinha que ser um expresso. Nos Estados Unidos, opta pela Starbucks. Qual? Um qualquer, desde que tenha cafeína. Nestes três anos nos Utah State Aggies, muitos portugueses voaram com ele em cada afundanço poderoso, em cada ressalto acima do nível do aro, em cada abafo que projetava a bola para a terceira fila da bancada do pavilhão. Se se tornar o primeiro português a chegar à NBA, muitos portugueses vão acompanhá-lo nessa rotina de ingerir cafeína para aguentar as noitadas. Que voemos todos.

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