Percorremos com os olhos as dez transferências mais caras deste defeso: João Félix, o jogador mais caro do mercado (126 milhões de euros), Antoine Griezmann (120 ME) e Eden Hazard (100 ME) compõem o pódio.

Olhamos com mais atenção: há dois portugueses neste ranking.

Voltamos a analisar com mais atenção ainda: há mais defesas do que qualquer outra posição neste top 10. Os jogadores que atuam no primeiro terço do terreno são quatro (Harry Maguire, Matthijs de Ligt, Lucas Hernández e João Cancelo), há ainda dois médios defensivos (Frenkie de Jong e Rodri), dois extremos (Nicolas Pépé e Hazard) e dois avançados (Félix e Griezmann).

Fazemos as contas e apercebemo-nos de que este é o segundo defeso com o top três de jogadores mais caros da década.

O que é que isto quer dizer? Bem, vamos por partes:

1 - O amor e o futebol têm vários pontos de vista

créditos: ALEJANDRO GARCIA/EPA

As histórias das três maiores transferências deste verão nascem de três amores, um amor à primeira vista e dois namoros antigos. João Félix, de 19 anos, fez cinco meses impressionantes ao serviço do SL Benfica (20 golos e 11 assistências). Enamorou os tubarões europeus, Luís Filipe Vieira, presidente dos encarnados, disse que a jovem águia não estava à venda e, portanto, se alguém pretendesse a contratação do avançado teria de desembolsar o valor da cláusula de rescisão, nada mais, nada menos do que 120 milhões de euros.

Ora, o fruto proibido é o mais apetecido e a imprensa desportiva deu três clubes na frente pelo internacional português: Manchester United, Manchester City e Atlético de Madrid. Contra o que seria expectável, dadas as demonstrações de poderio financeiro dos dois clubes ingleses que lhes valeram a contratação de grandes craques nos últimos anos, Félix acabaria por assinar pelos madrilenos a troco de 126 milhões de euros, tornando-se no jogador mais caro do defeso e rosto da grande renovação feita pelo Atlético de Madrid esta temporada.

Os outros dois nomes são concretizações de amores de outrora.

Há muito que o Barcelona piscava o olho a Griezmann e o Real Madrid a Hazard. A primeira contratação, podemos dizer que acontece após um divórcio litigioso que ainda vai fazer correr tinta com o processo em tribunal. O campeão do mundo anunciou que ia sair no final da última temporada, despediu-se dos adeptos com um vídeo emocional e demorou a ir. Demorou tanto que a pré-época começou e Antoine Griezmann ainda era, oficialmente, jogador do Atlético de Madrid. Demorava-se a conclusão do negócio para o clube catalão até que surge a notícia de que o francês ia pagar a cláusula de rescisão do seu próprio bolso para se mudar para os blaugrana. Acontece que os dirigentes madrilenos dizem que o seu jogador e o atual campeão de Espanha já andavam a trocar beijinhos às escondidas no tempo em que a cláusula de rescisão do francês era de 200 milhões de euros e não 120, valor pago por Griezmann para se libertar do antigo clube. Por esta altura o avançado tem jogado com a camisola do Barcelona, mas o Atlético não desiste e avançou para a justiça.

A história de Hazard é diferente. O belga, que assinou pelo Chelsea em 2012/13, estava com dificuldades em deixar o primeiro grande amor, aquele que, após a saída do Lille, o catapultou para a elite do futebol mundial. O Real Madrid piscava-lhe o olho à distância e cada vez que se falava de uma eventual saída de Cristiano Ronaldo ou de Gareth Bale o nome do extremo saltava para a capa dos jornais. Hazard não negava o desejo de vir para Madrid, mas também não o confirmava. Ao mesmo tempo, íamos assistindo ao desgaste da relação do antigo atleta dos blues com os adeptos que tantas vezes o acusaram de ser inconsistente nas exibições e uma das vozes do balneário responsável pela constante instabilidade no comando técnico do Chelsea. Ora, o antigo capitão redimiu-se de tudo isto no final de maio, depois de mais um início de época turbulento, e foi peça fundamental na conquista da Liga Europa. Estavam as pazes feitas. Do outro lado, os merengues sufocavam por um novo ídolo após uma temporada desastrosa, a primeira após a ausência de Cristiano Ronaldo. Os timings deram-se e Hazard é o novo ídolo do Santiago Bernabéu.

2 - Há um ‘tuga’ em todo o canto do mundo

créditos: Oli SCARFF / AFP

Há quem diga que, em qualquer lugar a que se vá, há uma grande probabilidade de encontrar um português. Ora, no que toca às transferências mais caras de cada época, nem sempre foi assim.

Se este ano podemos dizer que dos quase 900 milhões de euros que valem as 10 maiores transferências deste verão, 191 milhões são portugueses, nem sempre foi assim. Hoje, João Félix e João Cancelo valem quase 200 milhões de euros. Há 10 anos, além de Cristiano Ronaldo, que na temporada 09/10 se transferiu do Manchester United para o Real Madrid a troco de 94 milhões de euros, a transferência lusa mais cara tinha sido a ida de Paulo Machado do FC Porto para o Toulouse a troco de três milhões e quinhentos mil euros.

Aliás, o panorama em relação ao valor do jogador português mudou há pouco tempo. Em 2010/2011 vemos Bruno Alves a transferir-se do FC Porto para o Zenit por 22 milhões de euros no mesmo ano em que Raúl Meireles se muda (também do Porto) para Liverpool, por 13 milhões de euros. Em 2011/12 vemos, pela primeira vez, um jogador português a alcançar valores perto dos de hoje com Fábio Coentrão a mudar-se do Benfica para o Real Madrid por 30 milhões de euros. No ano seguinte, a ida de Raúl Meireles para o Fenerbahçe é a mais valiosa entre portugueses e acontece por 10 milhões de euros. Na temporada 13/14, João Moutinho é o protagonista ao mudar-se para o Mónaco por 25 milhões de euros. Em 14/15, Bernardo Silva é a transferência portuguesa mais cara, com o Mónaco a pagar 15,75 milhões de euros pelo seu passe. A temporada 15/16 é a primeira a registar várias vendas de jogadores portugueses com dois dígitos: André Gomes e João Cancelo saem do Benfica para o Valência por 20 e 15 milhões de euros, respetivamente, Ivan Cavaleiro, do Benfica, e Rony Lopes, do Manchester City, transferem-se para o Mónaco por 15 e 12 milhões de euros, respetivamente.

E depois chegamos a 2016/17, o ano em que tudo muda. Coincidência ou não, foi há exatamente três anos (por alturas do Euro 2016 vencido por Portugal) que, de uma forma consistente, nomes portugueses começaram a ser associados a grandes valores. Vamos recordar esta temporada: João Mário foi do Sporting CP para o Inter de Milão por 40 milhões de euros, Renato Sanches do Benfica para o Bayern Munich por 35 milhões de euros, André Gomes do Valência para o FC Barcelona por 37 milhões de euros, Gonçalo Guedes do Benfica para o PSG por 30 milhões de euros e vimos ainda um clube português, o Benfica, a desembolsar 16 milhões de euros por um jogador português, Rafa Silva.

O panorama mudava aqui. Deixávamos de ter um ou dois jogadores vendidos por poucas dezenas de milhões de euros e de ter um grande diferencial para as outras transferências lusas que aconteciam por valores muito abaixo daqueles acima mencionados. Em 2017/18, a transferência portuguesa mais cara foi a de Bernardo Silva, do Mónaco para o Manchester City, por 50 milhões de euros. Nesse mesmo defeso, André Silva deixou o FC Porto para reforçar o AC Milan por 38 milhões de euros, Nelson Semedo foi do Benfica para o Barcelona por 35,7 milhões de euros e Adrien Silva do Sporting CP para o Leicester por 24,5 milhões de euros.

Na última temporada os valores mantiveram-se altos, Cristiano Ronaldo mudou-se para a Juventus por 117 milhões de euros, João Cancelo trocou o Valência (que o tinha emprestado ao Inter de Milão) também pela campeã italiana, por 40 milhões de euros, e Gonçalo Guedes mudou-se de Paris para Valência a troco de 40 milhões de euros.

Observando esta cronologia, percebemos que o jogador português valorizou-se. O campeonato português, que antigamente era uma catapulta para jovens promessas sul-americanas, tornou-se numa base de formação. A academia do Sporting, que na primeira década do milénio já tinha dado ao futebol mundial nomes como Cristiano Ronaldo, Nani, Simão Sabrosa ou Ricardo Quaresma, acrescentou Gelson Martins, João Mário, William Carvalho e Rui Patrício à lista. A academia do Benfica, mais recente, começou a colocar nomes como Bernardo Silva, Nelson Semedo, Oblak, João Félix, João Cancelo, Renato Sanches, André Gomes ou Gonçalo Guedes entre os maiores da Europa. E mesmo de forma mais tímida, o FC Porto com André Silva e Rúben Neves fez parte deste processo.

Portugal, tantas vezes visto como uma boa academia de treinadores, inovadores, é agora uma cantera de lés a lés com os títulos e as chegadas às fases finais das competições de seleções e de clubes a justificarem-se no desempenho dos mais jovens nas equipas principais de águias, leões e dragões ou lá fora, quando o espaço no nosso país não lhes é dado.

3 - São as defesas que ganham os jogos

créditos: Paul ELLIS/AFP

Há quem diga que um jogo se ganha na defesa. Uma ideia difícil de transmitir num futebol moderno de ataque em que as coroas vão, quase sempre, para os homens da frente. No entanto, as coisas mudam e o futebol está a equilibrar-se e a saber valorizar mais cada um dos setores do terreno.

Em vésperas do dia do fecho do mercado, há quatro defesas entre os dez jogadores mais caros do verão: Harry Maguire (87 milhões de euros), Matthijs de Ligt (85 milhões de euros), Lucas Hernández (80 milhões de euros) e João Cancelo (65 milhões de euros).

E isto é importante porque é uma exceção. O ano passado nenhum defesa entrou no top 10. Em 17/18, Virgil van Dijk (Southampton - Liverpool, 84,65 milhões de euros), Benjamin Mendy (Mónaco - Manchester City, 57,5 milhões de euros) e Laporte (Athletic Bilbao - Manchester City, 65 milhões de euros) entraram nas dez transferências mais caras da temporada. Em 2016/17, Mustafi (Valência - Arsenal, 41 milhões de euros) e Stones (Everton - Menchester City, 55,6 milhões de euros) era os únicos defesas no top 10. Um ano antes, Otamendi (Valência - Manchester City. 44,6 milhões de euros) era o único representante do primeiro terço do campo em tabela idêntica.

Em 14/15, David Luiz (Chelsea - PSG, 49,5 milhões de euros), Mangala (Porto - Manchester City, 45 milhões de euros) e Luke Shaw (Southampton - Manchester United, 37,5 milhões de euros) ocupavam três lugares deste ranking, sendo que no ano anterior não houve nenhum defesa no top 10. Em 2012/13, o único defesa presente em tal lista, foi o jogador mais caro do ano, Thiago Silva (AC Milan - PSG, 42 milhões de euros). No ano anterior houve zero defesas no top 10. Em 2010/11, David Luiz, que se mudou do SL Benfica para o Chelsea, estreava-se nestas andanças com vários zeros e em 2009/10, a ida de Lescott para o Manchester City também valeu a presença entre as transferências mais caras.

Portanto, vamos a contas. Este ano, entre as 10 maiores transferências, foram gastos 317 ME em defesas. Em quatro defesas, mais precisamente. Estes números superam os do ano passado - zero -, os 207,15 milhões de euros gastos em três defesas no top 10 de 2017/18, ano que começava a marcar esta tendência, os 96,6 milhões de euros gastos em dois defesas em 16/17, os 44,6 milhões de euros gastos num defesa em 15/16, os 132 milhões de euros gastos em três defesas em 14/15, os zero euros gastos em zero defesas em 13/14, os 42 milhões de euros gastos em Thiago Silva em 12/13, os zero euros gastos em zero defesas em 11/12, os 25 milhões de euros gastos pelo Chelsea em David Luiz em 10/11 ou os 27,5 milhões de euros que o City desembolsou para contratar Lescott em 09/10.

Se fizermos uma simples média percebemos que, esta temporada, um defesa central no top 10 de transferências vale 79,25 milhões de euros. Mais do que em 17/18 (média de 69 milhões de euros), 16/17 (média de 48,3 milhões de euros) ou 14/15 (média de 44 milhões de euros).

Se somarmos toda esta matemática de mesa de cabeceira ao facto de Virgil van Djick estar entre os favoritos à conquista da Bola de Ouro, depois de já ter ganho prémio de melhor jogador do ano para a UEFA, temos o futebol a encontrar o seu equilíbrio após 10 anos em que Cristiano Ronaldo e Lionel Messi inclinaram o campo.

4 - Elementar, meu caro Watson

créditos: Martin BUREAU / AFP

Parece uma verdade tão absoluta que nem precisa de ser comprovada: os preços do mercado de transferências parecem ter vida própria e continuam a crescer de forma exorbitante.

Os recordes têm sido batidos todos os anos, por uma ou outra razão. Em 2009/10, Cristiano Ronaldo transferiu-se de Old Trafford para o Santiago Bernabéu e tornou-se no jogador mais caro de sempre. Quatro anos depois, a ida de Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid fizeram do galês o mais caro de sempre. Três anos depois a transferência de Paul Pogba da Juventus para o Manchester United fizeram do francês o mais caro de sempre. No entanto, em 2017/18 tudo mudou. Nesta temporada, nenhuma das três transferências mais caras do ano aconteceu abaixo dos 100 milhões de euros. Aliás, o top três desse ano envolveu 492 ME (Neymar, 222 milhões de euros, Coutinho, 145 milhões de euros, e Dembelé, 125 milhões de euros).

Este ano continuou a ser gasto muito dinheiro, mas João Felix, Griezmann e Hazard estiveram longe de bater o recorde de 17/18. Superaram o da temporada passada, sim, por 14 milhões de euros, mas ficaram-se pelo segundo lugar da geral.

Mas o que é que tudo isto nos diz sobre o futebol de amanhã? Numa era em que um mercado, aparentemente arrumado, pode mudar de um dia para o outro com a transferência de um jogador insatisfeito como Neymar, um atleta que sozinho já fez movimentar 310,2 milhões de euros, ou com o desfecho de uma novela que se arrasta há muito tempo como a de Bruno Fernandes, que futebol temos amanhã?

Nenhum jogador parece seguro, nenhum negócio parece inconcebível. O futebol tornou-se num negócio para alimentar o próprio jogo. As primeiras três histórias mostram como nem clubes de elite como Atlético de Madrid ou Chelsea conseguem agarrar os seus melhores jogadores e mostram ainda como 126 milhões de euros não é qualquer impedimento para um clube que tinha como maior transferência a compra de Thomas Lemar ao Mónaco por 70 milhões de euros. O segundo ponto, relativo ao jogador português, mostra quem sabe aproveitar uma janela de oportunidade. O Benfica, clube que investiu numa nova academia assente em big data, domina entre os formadores dos novos talentos portugueses que andam a conquistar a Europa. Por um lado, conseguiu conquistar um selo de qualidade e garantir elevadas quantias a entrar nos cofres, por outro vê-se sem conseguir segurar os seus maiores talentos por muito tempo, como foi o caso de Renato Sanches ou Felix, ou de, no passado, não ter aproveitado o melhor de todos eles, como aconteceu com Bernardo Silva, João Cancelo ou Hélder Costa.

O terceiro capítulo de análise a esta janela de transferências fala da evolução do valor de mercado dos jogadores que atuam no primeiro setor do terreno e é sobre como eles se têm notado cada vez mais. Hoje falámos apenas dos quatro que irromperam por entre as transferências mais caras, mas se alargarmos a tabela ao top 20 encontramos logo nomes como Aaron Wan-Bissaka (Crystal Palace - Manchester United, 55 milhões de euos), Éder Militão (FC Porto - Real Madrid, 50 milhões de euros) ou Ferland Mendy (Lyon - Real Madrid, 48 milhões de euros). E percebe-se também que a linha de defesas não funciona apenas como último muro antes de a bola chegar ao guarda-redes, mas sim como início dos momentos de construção de jogo e lugar onde habitam jogadores-chave capazes de originar mudanças táticas ao longo da partida.

Por último, uma constatação mais ou menos óbvia: os números nunca vão parar de aumentar e tudo isto que foi escrito pode ser outra coisa completamente diferente no mercado de verão de 2020/21. Porque hoje, e mais do que nunca, no futebol quem tem mais dinheiro é quem mais ordena.

*Os números utilizados neste artigo têm por base o site Transfermarkt

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