Como em qualquer outra rivalidade, nos clássicos do futebol há uma mistura inebriante de atmosfera histórica, geográfica, política e social que vai muito para além das simples preferências desportivas. Se Olympiacos vs Panathinaikos é considerado o “Dérbi de eternos inimigos”, dividindo a capital grega em dois, entre o clube que nasceu no Porto de Pireu, Olympiakos, com uma base, inicial, assente nas classes mais desfavorecidas, e o emblema fundado em Atenas por gentes de estrato social mais favorecido (Pana), o duelo Olympiakos-PAOK assenta numa rivalidade entre cidades portuárias, Pireu e Salónica (Thessaloniki), capital da Macedónia, importante centro de comércio virado para o Mar Egeu e Balcãs e segunda cidade do país – Hellas – que os ingleses decidiram apelidar de Grécia.

O clube do norte olha para os emblemas do sul (onde se inclui o Pana e AEK) e acusa o estado grego de favorecer estes últimos, procurando nesta inclinação explicar a diferença abissal de títulos entre as duas camisolas. Os vermelhos e brancos, com um símbolo de uma coroa colocada numa cabeça, somam 44 campeonatos, enquanto os preto e brancos identificados pelas duas cabeças de águia que honram a memória das pessoas e lugares que outrora fizeram parte do império bizantino após a queda de Constantinopla (conquistada pelo império Otomano), erguerem, somente, em três ocasiões o troféu máximo do futebol grego, a última vez, no ano passado.

Na capital apresentaram-se dois clubes em igualdade pontual na liderança. Facto que trouxe mais emoção ao que se poderia passar fora e dentro do relvado.

Num breve introito na rivalidade que é caracterizada como guerra norte-sul e cuja origem recua aos primórdios da organização do futebol, o episódio de tentativa de “rapto” na década de 60 do século passado da então jovem estrela da Macedónia, Giorgos Koudas, por parte de Pireu, conforme já explicámos na antevisão da partida, acrescentou desde então, mais uma grama à eterna rivalidade que se estende a outras modalidades (basquetebol, o ópio nº2 do povo grego).

Um cordão de polícias e autocarros

A história dos duelos está pincelada de jogos interrompidos, confrontos entre adeptos e jogos à porta fechada. O ambiente é sempre quente, vivido com uma paixão exacerbada. Demasiado peso da eterna questão de “vida ou de morte” sobre aquilo que é muito mais que isso. Um jogo de futebol. Um simples jogo de futebol.

Na preparação para viagem até ao local do clássico, em Pireu, numa zona menos nobre da cidade apesar dos barcos de muitos milhões que decoram as marinas, foi feito um aviso por quem serviu de cicerone. Nada de cor verde. Estranho quando do lado de lá joga um onze de preto e branco, a cor com que vão ao extremo de pintar as suas redes sociais para não ferirem emoções. A explicação surge de forma simples: Tem a ver com o eterno inimigo da metrópole ateniense, o Panatinaikos.

Olha-se ao redor do estádio Karaiskákis, em especial à porta de onde entram as equipas, e mais parece estarmos em preparação para uma guerra.

Um a um, alinhados, duas horas antes da chegada as equipas, os policias saem do transportes que ali os levou e dão passos acelerados em direção ao “carro vassoura” de onde retiram uma sandes e um sumo (água). Para a mente estar forte, necessitam de estômago reconfortado.

Os autocarros da polícia ficam encostados uns aos outros, separados por pouquíssimos centímetros, construindo um muro de chapa e grades. Por ali não passará ninguém.

É acrescentado um cordão policial, com homens de farda azul e outros de verde. Armados com capacetes, máscaras de fumo, bombas de gás lacrimogéneo, cassetetes e escudos. As proteções transparentes denunciam marcas de outras batalhas, num país e numa cidade em que as manifestações violentas fazem parte da vida. O olho negro de um polícia assume-se como testemunha dessa vivência de confrontos.

Há quem alivie a pressão e ansiedade com um cigarro. Pouco falam uns com os outros, a não ser as chefias que comunicam por altifalante, enquanto medem a temperatura.

créditos: Miguel Morgado | Madremedia

As forças de segurança estão ali para evitar o pior. E em especial para salvaguardar a chegada a bom-porto da equipa que viajou do norte. Não servem de mediadores num confronto entre adeptos afetos às duas cores, porque simplesmente de Salónica não viaja ninguém. É assim o futebol grego quando envolve partidas entre eternos rivais. Não há adeptos de fora a verem os jogos. Porque no passado distante correu mal, muito mal (com perda de vidas), o tempo mais presente dita essa regra. Nem uma alma a mais daqueles que entraram no autocarro no Hotel Hyatt.

O transporte da comitiva forasteira, acompanhado de carros e sirenes, é feito num veículo sem qualquer referência aos nomes e cores. Chegou instantes depois da viatura oficial do Olympiacos. A tonelada rolante de cor encarnada viu-se obrigada a fazer avanços e recuos porque não conseguiu entrar no local que lhe estava reservado. Algo que presenciámos. Ao autocarro descascado do PAOK, aconteceu o mesmo. Ou pelo menos assim reza a história contada, uma vez que segundos antes tínhamos sido “convidados” a deixar aquele espaço devido à previsão de chuva de objetos e ambiente tenso.

O autocarro aproximou-se do estádio, parou antes de onde devia e os jogadores caminharam largos metros a pé. Houve cuspidelas e arremessos de objetos e empurrões quando entravam por um espaço em que ninguém conseguia ir de braço dado. Uma situação caótica à chegada que mereceu um recado de Abel Ferreira à saída, na conferência de imprensa, como se verá mais à frente.

O Mar de chamas vermelhas e os “Contentores” dos Xutos

O Olympiakos é o clube mais popular em toda a Grécia, com adeptos em qualquer canto do continente e ilhas. Dizem ser 6 milhões (onde é que já vimos esse número). No entanto, no estádio só cabem pouco mais de 30 mil.

Estava cheio. Repleto. Um dos topos, local dos grupos organizados, transbordava.

Ainda vestidos “à civil”, os jogadores do PAOK entraram, rapidamente, em campo. Assim entraram, assim, saíram debaixo de uma receção feita com very lights. Nem tempo tiveram para aquecer a relva.

“A carga pronta metida nos contentores, adeus oh meus amores que me vou, para outro mundo...”, a música dos Xutos & Pontapés deu as boas-vindas aos guarda-redes da “casa”, com José Sá à cabeça. Uma letra que tanto pode apontar à portugalidade que se estende do banco – Pedro Martins – ao relvado - Sá, Daniel Podence ou Rúben Semedo -, ou ao ADN portuário do emblema.

O rock internacional, AC/DC (Thunderstruk) abriu as portas do palco aos artistas do Olympiakos para o aquecimento. A entrada do PAOK é percepcionada com decibéis de assobios e insultos, num cântico em que se refere a opção sexual dos filhos dos pais adeptos da formação de Salónica. Nada que não se passe noutros estádios.

Um vídeo de homenagem que passa no ecrã do estádio recorda dois episódios negros da história do futebol helénico. O primeiro o que vitimou adeptos do PAOK a 4 de outubro 1989, adeptos que regressavam a casa depois de um jogo com o Panatinaikos e que se despistaram num autocarro. O segundo, envolvendo a morte de 20 apoiantes do Olympiakos e um do AEK, na maior tragédia do futebol grego, na célebre Gate 7 (porta 7) do estádio e cujo depoimento de uma mãe arrancou fortes aplausos.

É hora da tão esperada partida. 19h30 na Grécia (17h30, em Portugal Continental). As três equipas, PAOK, Olympiacos e o trio de arbitragem (espanhol, visto que no mundo da bola grega ninguém confia em ninguém, à partida) entram ao mesmo tempo ao som de música. Entrada no teatro grego feita debaixo de fogo vermelho. Um espetáculo de pirotecnia que, tem tanto de beleza, como de aterrador. Boas-vindas que levam a que se demore oito minutos para levantar o pano para o show começar.

A catarse coletiva nas bancadas

Quatro artistas e dois encenadores portugueses marcaram presença neste clássico do futebol grego. Para além dos treinadores Pedro Martins e Abel Ferreira, Rúben Semedo, Podence e Sá, entraram na equipa titular de Pireu, enquanto Vieirinha ficou a aquecer o banco do PAOK.

Durante a partida, a vida de José Maria Sanchez Martinez, o juiz, não foi fácil. A cada minuto, um jogador pedia falta. O público, esse, assobiava sempre. E exigia falta, cartões ou simplesmente queria que algo acontecesse. Sempre a favor dos seus.

Nos topos, os adeptos não se calavam. Vivem cada jogo como uma catarse coletiva. Puxam os braços para trás da cabeça e projetam, com força, para a frente, um gesto assente numa coreografia delicada que contrasta com a voz grossa de quem o faz. O som de uma corneta e um bate-palmas alinhado antecede o grito “O-L-Y-M-P-I-A-C-O-S” num diálogo, muitas das vezes ensurdecedor, entre bancadas.

Ao minuto 29, o central do onze de Salónica, Ingason, marcou, de recarga, na sequência de um livre. Estranho momento, o silêncio fúnebre vivido no estádio que abafou os gritos, únicos, de jogadores e do banco de suplentes. Mais ninguém.

Ao intervalo, o relvado é regado.

Aos 50’, Podence cai na área. O árbitro consultou o VAR e manda seguir debaixo de uma vaia de protestos. Pouco mais de 10 minutos, o internacional português foi atropelado na pequena área. Penalidade que Valbuena (viria a sair lesionado) concretizou para delírio da multidão que soltou a tensão acumulada.

A estrutura metálica abanou, mais tochas deram cor às celebrações, a equipa galvanizou-se mas não houve mais golos. O que não significa que o Olympiacos não tivesse mais oportunidades. Teve. E o estádio quase ia abaixo. Mas não foi.

Final do jogo. Empate. Algumas crianças no relvado dão os parabéns aos pais, os jogadores encaminharam-se para o balneário e os treinadores para a flash interview.

Enquanto descíamos as escadas, o dono do Olympiakos, Evangelos Marinakis, veio em sentido contrário, apressadamente, para a sala presidencial guardada por uma guarda pretoriana.

A Conferência de imprensa com um recado em português

Num país com “cerca de 10 jornais desportivos”, uns são clara e assumidamente afetos a um ou outro clube. O Fos (mais antigo), Protathlitis (que significa campeão) e o Gavros (alcunha dos adeptos que é, nem mais, nem menos, que peixe), torcem pelo emblema que nasceu no porto de Pireu. O Forza só é vendido em Salónica.

De forma ordeira, com assessores de imprensa e intérpretes que acompanham os treinadores, Abel Ferreira, o primeiro a entrar, elogiou as três equipas. “Foi um árbitro com personalidade. Não é fácil aqui”, referiu o estreante da liga helénica ao comentar o ambiente escaldante que é sempre vivido nestes clássicos do futebol grego. Pedro Martins foi em sentido contrário. “Teve uma dualidade de critérios gritante”, acusou.

Abel aproveitou o palco para elogiar a “paixão em estado puro” com que os adeptos vivem o jogo e deixou alguns recados, uma mensagem transmitida mesmo com o “risco de lhe sair caro”, assumiu. “Falta a força dos nossos adeptos e não podemos combater esta atmosfera”, disse, aproveitando para elogiar a vivida no relvado. “É bonito”, sublinhou. Mas se “queremos crescer tem de ser em todas as dimensões. Não acredito que o Tottenham (que havia jogado no mesmo palco para a Liga dos Campões) tenha deixado o carro a 150 metros do balneário”, rematou. “Olympiakos sem PAOK e vice-versa não existiam um sem o outro”, disparou.

* o jornalista viajou para Atenas a convite da Betano

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