Eu, desde já, confesso: Programação, algoritmos e fórmulas que no final fazem ‘coisas’ bater certo com outras ‘coisas’ não é o meu forte. Acho que nunca seria capaz de fazer um calendário de jogos entre vinte equipas com as condições inerentes. E por condições inerentes refiro-me a regras que têm que ser respeitadas na realização do calendário. Como por exemplo:

  • Cada clube é emparelhado com outro e ambos nunca poderão realizar, no mesmo fim de semana, jogos em casa. Por exemplo, Manchester United e Manchester City, em circunstância alguma poderão, na mesma jornada, jogar ambos em casa. O mesmo acontece com Everton e Liverpool e por aí em diante;
  • Da mesma forma que os clubes rivais ou próximos não podem jogar em casa no mesmo fim de semana, a Premier League tem que se organizar com a Football League - responsável pela organização dos calendários da Championship, League One e League Two - para que o mesmo seja levado em atenção e não haja conflitos ‘dramáticos’ entre clubes e adeptos rivais, mesmo não jogando na mesma divisão. Millwall e West Ham United, salvo raras exceções, não jogam em casa no mesmo dia, por exemplo;
  • Um questionário é enviado a todos os clubes e estes têm o direito de referir certas datas em que não queiram realizar jogos em casa. A polícia poderá ter algo a dizer na matéria, caso estejam previstos eventos de grande escala nas imediações do estádio nesses dias;
  • Nenhuma equipa poderá jogar mais de dois jogos seguidos em casa.

Caso estas condições não chegassem para tornar todo este processo num autêntico pesadelo, veio a saber-se esta semana, através de um dossier disponibilizado pela Premier League aos detentores dos direitos televisivos para 2019-2022, que a mesmas tem, ao longo dos últimos anos, influenciado o ‘sorteio’ que dita o calendário para a época futebolística.

Clubes Top 6’ e ‘Clubes Top 8

Antes de percebermos ao certo o que a Premier League faz para arranjar o calendário à sua maneira, temos que perceber o que caracteriza estes dois tipos de clubes. E a resposta não é difícil. Todos os anos a Premier League olha às tabelas de final de campeonato das últimas três épocas e faz uma média classificativa. Essa média dita quem são os ‘Clubes do Top 6’ e os ‘Clubes do Top 8’. Este ano os ‘Clubes Top 6’ foram Manchester City, Tottenham, Arsenal, Chelsea, Manchester United e Liverpool e os ‘Clubes Top 8’ são todos os anteriores mais Everton e Southampton.

Sendo a Premier League uma empresa, o negócio e a rentabilização do seu produto são uma prioridade. Assim sendo, ao longo dos últimos anos, sem se saber com precisão quantos, a Premier League recorre à manipulação do calendário anual. Não só para, provavelmente, facilitar todas as condições a que este tem que cumprir, mas também para permitir ter jogos competitivos todas as jornadas e não estar sujeita a ter fins de semana menos atrativos sem emparcelamentos de grande interesse para os adeptos.

Este relatório veio dar razão a muitos técnicos e adeptos que, aos anos, colocavam em causa a isenção da Premier League na realização do calendário, sendo que muitos se queixavam de favorecimento óbvio aos clubes de maior nome.

Na Premier League há sempre um jogo grande

Que outros fatores se juntam então às prévias condições do calendário? Pois bem. Com o relatório ficou a ser conhecido que, de forma a promover o interesse das massas e conseguir controlar o constante interesse do público na liga, a Premier League junta mais três condições às já previamente descritas.

  • Os ‘Clubes Top 6’ não se podem encontrar tanto na primeira como na última jornada também e também no fim de semana em que se disputam as meias-finais da Taça de Inglaterra.

Esta condição existe porque a primeira jornada, ainda disputada no princípio do mês de agosto, coincide com uma época do ano em que ainda muitos adeptos estarão de férias, e como consequência, é tradicionalmente, a jornada com menos audiência durante todo o ano. Na última jornada a razão é ligeiramente diferente. Uma vez que os jogos são todos disputados à mesma hora, a liga prefere não ter um jogo ‘grande’ que poderá, muito provavelmente, retirar a atenção dos restantes encontros e poder assim levar menos pessoas aos estádios, principalmente se for um embate que possa decidir posições cimeiras na tabela. Relativamente ao fim de semana das meias-finais da Taça de Inglaterra é, novamente, devido a marketing. Com dois jogos à partida a puxar pelo interesse dos adeptos, não haverá necessidade de ‘desperdiçar’ um jogo grande nesse mesmo fim de semana que já o é, por si só, atrativo.

  • Terá que existir pelo menos um jogo, e nunca mais que dois, entre ‘Clubes Top 6’ em 26 das 38 jornadas jornadas. Portanto a ’sorte’ nunca ditará que todos os seis clubes joguem entre si numa só jornada, essa é uma garantia.

A principal razão para que tal aconteça parece ser óbvia. O espalhar dos encontros mais competitivos pelo calendário beneficia a publicidade, o marketing e consequentemente o negócio que é a Premier League. Mantendo pontos de interesse durante um maior número de jornadas beneficiará o negócio que move o futebol inglês.

  • Por fim, tendo em contas os ‘Clubes Top 8’ a Premier League garante que, em todas as jornadas, se jogue pelo menos um encontro que coloque frente-a-frente duas equipas deste grupo. Se recorrermos à jornada a disputar este fim de semana, encontramos o Southampton Vs. Manchester City, que vai assim ao encontro desta condição, preenchendo essa mesma cota.

Assim como nas condições anteriores, o objetivo da Premier League é a rentabilização do negócio e a manutenção do interesse na competição por um maior período de tempo ao longo de toda a época.

Até que ponto é que esta é a melhor forma de agir? Não me cabe a mim julgar. Mas que a Premier League se tornou, nos últimos anos, numa máquina de marketing e num organismo de alcance global, disso não há a mais pequena dúvida. E com toda a certeza que a forma de gestão, incluindo a ‘manipulação’ referida neste artigo, é uma das razões que nos leva, no final, a gostar tanto da melhor liga de futebol do mundo. Será que os fins justificam os meios?

Quanto ao calendário para 2018-19, esse será lançado dia 14 de junho e aí poderemos confirmar, ou não, todas as ‘regras’ e ‘condições’ aqui hoje apresentadas.

Esta semana na Premier League

Com o Swansea a precisar de um milagre para evitar a despromoção. Um Manchester City a tentar alcançar todos os recordes possíveis e, inclusivamente, alcançar os 100 pontos na classificação. E por fim com o último lugar de acesso à Liga dos Campeões a ser disputado entre Chelsea e Liverpool, bastando ao Liverpool um empate frente ao Brighton, a última jornada desta edição da Premier League será, com toda a certeza, mais uma extraordinária jornada de futebol.

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