A SIC Notícias vai acabar com os programas de desporto "Play Off" e "O Dia Seguinte", que assentam em comentadores que representam clubes de futebol, devido à "toxicidade" criado à volta deste género, disse à Lusa na segunda-feira o diretor de informação da Impresa, Ricardo Costa.

O canal do grupo Impresa é o primeiro a decidir descontinuar este tipo de programas.

A TVI, que tem programas como "Livre e Direto" e o "Prolongamento", refere que tem a "decisão tomada há várias semanas e será oficialmente comunicada após o fim da época", que termina no próximo sábado com a final da Taça.

Fonte oficial da estação de Queluz recorda que tem "uma boa tradição de programas com outro registo, como o 'Mais Futebol'" e também "criou formatos como o 'Mais Transferências' ou o 'Mais Bastidores' que são hoje replicados em todo o mercado".

Adianta ainda que a nova equipa da direção de informação, liderada por Anselmo Crespo, que "começa formalmente a trabalhar a 1 de setembro, está a definir a oferta a partir da época 20/21".

Questionada sobre a decisão da SIC Notícias, a RTP diz que não tem "representantes dos clubes". "Sempre fomos nós a escolher os comentadores que entendemos adequados ao serviço público que prestamos", afirma a direção de informação da estação pública.

"Todas as estações preparam, por esta altura, as suas ofertas para a próxima temporada" e "identificarão os seus problemas, os seus interesses e responderão em conformidade", prossegue a RTP, que recorda que "há muito se decidiu terminar alguns formatos ligados ao futebol".

"Felizmente, não temos programas ruidosos e comprometidos nem comentadores 'tóxicos'. O que não impede alterações, mantendo o debate, o pluralismo e a civilidade, marcas de serviço público, que devemos honrar", refere a direção de informação da RTP.

"Não apostamos nem apostaremos em programas de diatribes, rumores ou insinuações", assegura.

Desde 2004, a RTP tem o programa "Trio D'Ataque", por onde passaram personalidades diversas da sociedade portuguesa e desde 2012 tem no ar a "Grande Área", com conhecidos treinadores e ex-jogadores.

Desde há cinco anos, conta ainda com o programa "Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio", que é "centrado nas grandes memórias do futebol português, recorrendo aos mais de 60 anos do arquivo RTP e a protagonistas que revivem esses momentos com um jornalista e um sociólogo do futebol".

A direção de informação da RTP salienta que trata o desporto e o futebol como outros domínios da vida pública.

"Gostamos de debate plural. Estamos atentos aos sinais da sociedade portuguesa, particularmente agora que atravessamos uma circunstância histórica única. Por isso, trabalhamos na renovação dos nossos formatos à luz dos valores do serviço público", remata a RTP.

Questionada também sobre o tema, fonte oficial da CMTV, do grupo Cofina, destaca que o canal "preza o debate, a democracia e o contraditório, seja no desporto, seja na política ou nas outras áreas da sociedade", considerando que "os seus programas de debate permitem a troca de ideias e de perspectivas diferenciadas" e que "promove esses debates com sucesso, tendo em conta a liderança clara de audiências, com frontalidade e não enganando o espetador".

"Os nossos espetadores sabem que os nossos comentadores se identificam com determinado clube, sabem que o seu olhar é o de adepto desse clube, numa dialética onde a síntese cabe ao espetador", afirmou fonte oficial à Lusa.

Fonte oficial da CMTV defendeu "ser mais saudável esta opção do que colocar jornalistas a debater temas em que, porventura, o espetador não tenha todo o conhecimento de que necessita para poder interpretar o que fica por de trás dos comentários".

Numa alusão à decisão anunciada pela SIC Notícias, fonte oficial do canal do grupo Cofina respondeu que "também a CMTV descontinuaria programas que continuadamente perdessem o seu horário", apontando que "os programas agora descontinuados registavam performances abaixo de 50% da conseguida pela CMTV com os seus formatos concorrentes".

Contactada pela Lusa, fonte oficial da Sport TV disse que o canal tem dois programas - “Titulares” e “Aposta Tripla” - com adeptos dos ‘três grandes’, mas não representantes dos clubes.

“Ambos os programas têm como principal objetivo falar de futebol e fomentar o interesse na competição” e “não alimentar polémicas”.

O “Titulares” está no ar desde agosto de 2016 e o “Aposta Tripla” desde março de 2017.

“O programa ‘Titulares’ vai ser interrompido apenas durante o defeso” e o “’Aposta Tripla’ mantém-se, sem interrupções”, adianta.

Responsáveis estão satisfeitos com fim dos programas de comentário

Em resposta à decisão da SIC, vários responsáveis de associação do universo futebolístico mostraram-se agradados com o fim dos programas de comentário.

O presidente da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), Rodrigo Cavaleiro, explicou à Agência Lusa que a autoridade a que preside "saúda esta decisão" da SIC e, segundo foi noticiado, da TVI em retirar os programas de comentário desportivo, com debate entre adeptos dos denominados ‘três grandes'.

O tema já tinha sido debatido "há bastante tempo no grupo de trabalho para a violência", que envolve várias entidades e é liderado pelo secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, tendo sido concluído que "a solução mais plausível poderia passar por uma certa concertação entre os vários grupos" de media em prol da "responsabilidade social".

"Saudamos esta decisão, porque se estes órgãos de comunicação social reconhecem algum caráter de toxicidade nestes programas, que têm promovido alguns confrontos que de facto em nada privilegiam o ambiente desportivo salutar que se pretende, e promovem a hostilidade entre principais rivais, inclusivamente também quando vem também de alguma forma deixar visível alguma instrumentalização que estes programas poderão ter por parte dos principais interessados, não podemos fazer outra coisa se não saudar a decisão, assumindo aquilo que os canais viram como a sua responsabilidade social", considerou Rodrigo Cavaleiro.

O dirigente relembrou, ainda assim, que "há ainda outros canais que têm programas na mesma linha" e que "o que está aqui em causa é a necessária mudança de mentalidades".

Também o presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), Luciano Gonçalves, disse hoje à Lusa que a instituição fica "muito satisfeita" pela decisão de terminar com os programas de comentário desportivo na SIC.

Segundo o responsável, esta "é uma boa notícia para o futebol no seu todo, não só para a arbitragem", porque "este tipo de programas não estava a fazer bem ao futebol nacional".

"[Temos de] Dar os parabéns pela decisão e coragem às direções de informação dos canais que o fizeram ou venham a fazer", reforçou.

Segundo o dirigente, os programas incentivavam "ao ódio e violência" e pautavam-se pela "falta de ética e falta de respeito, pelos intervenientes diretos no programa e não só".

"Parece-me claramente, e é essa a minha leitura, que isto é um sinal. Parte da comunicação social já está a fazer um esforço para que se possa alterar este tipo de comportamento e ambiente. Cabe a todos os agentes, incluindo a arbitragem, conseguir alterar verdadeiramente o ambiente que só prejudica o futebol no seu todo", declarou.

Luciano Gonçalves deixa ainda críticas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que "nada fez ao longo dos anos para que isto se alterasse". "Felizmente, esses canais deram esta resposta muito positiva", acrescentou

Rodrigo Cavaleiro diz que o efeito destes programas "vai permanecer ainda durante muito tempo", lembrando iniciativas como o Plano Nacional para a Ética no Desporto, através de vários "prémios por bons exemplos de desportivismo", que visam a "valorização dos melhores valores que o desporto pode oferecer".

"São coisas que devem ser vistas como tendo efeitos a médio e longo prazo. Alguns destes programas terminarem não significa que alguns efeitos dessa toxicidade associada não permaneçam durante algum tempo. Vai levar ainda bastante tempo a que essas mudanças sejam visíveis, mas é um caminho que se está a percorrer e que se deve saudar", completou.

O presidente da autoridade, implementada pelo Governo em setembro de 2019, avisa que "tudo o que tem mais visibilidade e mediatização" acaba por influenciar mais "os mais jovens", pelo que é de redobrada importância "conseguir desde muito cedo transmitir os bons valores do desporto" e "limitar a vertente do confronto apenas à competição propriamente dita".

"É nesse sentido que o desporto deve ser protegido, e não permitindo que seja um pretexto para se trazer de forma mais visível tudo o que são maus princípios de vida, as intolerâncias e a falta de respeito pelo próximo. (...) Transformar hostilidade em hospitalidade", acrescentou.

Programas de comentário apresentavam “indicadores de agressividade”

"Aquilo que observamos [nesses programas], muitas vezes, tem que ver com uma grande exaltação verbal, comportamental, que são indicadores de alguma agressividade verbal e não verbal, e que eram tidos como aceitáveis dentro deste tipo de programas", defende a psicóloga Ana Bispo Ramires

Segundo a especialista em psicologia do desporto, estes programas serviam como outras figuras públicas ou jornais que "alimentam essa discussão", que dão "palco a este tipo de comportamentos, que se caracterizam por níveis de agressividade mais elevados", o que acontece é que estes estão a ser "legitimados".

"O desporto em si defende o fair-play, que é exigido aos atletas. É muito importante que todas as estruturas, nomeadamente todos os agentes que com ele se relacionam possam assumir este fair-play. Eu diria que este era um tipo de formato televisivo que já há algum tempo pedia que fosse reformulado e revisto", acrescentou.

Estes comportamentos perdem assim o palco que lhes permite chegar aos adeptos, ainda que isso não queira dizer "que não continuem a existir noutros palcos, outro tipo de contextos de debate", mas é assim passada a mensagem "de que não se está a ser conivente, que é bastante importante".

"Uma vez mais, o desporto está a dar uma mensagem para a sociedade geral, para a sociedade que o assiste. Está a dar um exemplo do que podemos fazer e temos coragem de fazer. Porque este tipo de comportamento vemo-lo em outros contextos. É sempre de louvar que surjam iniciativas destas que possam inspirar outros contextos e situações a seguir o exemplo", afirmou Ana Bispo Ramires.

Se este tipo de debates e confrontos existiam na televisão "porque a sociedade assim o permite e valida", a eliminação desses conteúdos é um sinal, indicou, ainda que a redução deste tipo de "discussões acesas" tenha de "começar em casa, dando apoio a famílias, escolas e até outros contextos, como empresas".

O objetivo, afiançou a psicóloga, seria o de "eliminar este tipo de comportamento". "Só nos traz problemas enquanto comunidade", atirou.

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