Manhã de sábado em Belgrado, 23 grandes atletas, em altura e em tamanho, entravam na pista para a qualificação para o lançamento do peso nos Europeus de Pista Coberta. Entre eles, destacavam-se dois que vestiam as cores de Portugal e chegavam juntos: Tsanko Arnaudov e Francisco Belo. Inseparáveis de há uns anos para cá.

O objetivo dos 23 ali presentes era garantir um lugar na final, o que pressupõe que por norma seja cada um por si, mas com Tsanko e Francisco é um pouco diferente.

O luso-búlgaro concentrou-se, lançou e logo à primeira atingiu 20,52. Superou a marca de qualificação e cumpriu o que se pedia. Ergueu os braços, gritou, e celebrou com o sentimento de dever cumprido.

Podia ter arrumado as suas coisas e arrepiado caminho, porque à tarde havia uma final para disputar, mas preferiu ficar na pista concentrando agora as suas atenções no seu amigo e colega de treino no Benfica.

“Garanti no primeiro lançamento a qualificação inesperadamente e depois tentei ajudá-lo para que ele viesse comigo até à final”, conta-nos.

Nas três tentativas que fez, Francisco não conseguiu mais do que os 19,55 e viu terminar assim a sua aventura europeia em Belgrado. Ao passar na zona mista, falou primeiro sobre o que correu menos bem, para depois dedicar as suas palavras e esperanças em Tsanko.

“Vamos dar-lhe toda a força possível para que ele consiga levar mais longe o nome de Portugal. Ele também estará a representar-me na final, quero que ele dê o seu melhor e vai correr bem de certeza”, confessou.

"Somos mesmo uma equipa"

Quem não conhece os dois lançadores pode até estranhar tamanha cumplicidade e amizade entre duas pessoas que competem entre si vezes sem conta, mas para ambos não há nada de anormal nisto.

Viram-se pela primeira vez no longínquo ano de 2010 em Setúbal num Nacional sub-23. Francisco não se lembra nada disto, já Tsanko, atual recordista nacional do peso (21,08) tem a memória presente e a história na ponta da língua.

“Foi no Nacional de Juniores ao ar livre em Setúbal (2010). Naquela altura era eu que ameaçava a marca dele, era mais isso. Tinha começado há pouco tempo e não era ninguém. Ele é que tinha as grandes marcas, ainda tem o recorde nacional sub-23 de pista coberta. Eu não o conhecia e nem sequer falávamos. A imagem que tinha dele era a de um grande lançador”, recordou.

Quatro anos mais tarde, o treinador ucraniano Vladimir Zinchenko recrutou estes dois jovens atletas pela primeira vez. Ambos tiveram de mudar a sua técnica de lançamento e começar tudo do zero.

“Por essa mudança ter sido simultânea ajudou a criar logo desde muito cedo uma relação de entre-ajuda. Ele tem coisas positivas para lançar e para treinar, eu tenho outras”, diz Francisco, complementado por Tsanko: “Ele ajuda-me a mim quando tenho alguma dificuldade, e eu faço o contrário. Não existe um segundo pensamento de: ‘não o posso ajudar muito para ele não evoluir’. Ajudo-o sempre naquilo que eu posso, para que possamos evoluir os dois, o que tem acontecido. Não existe aquele lado individual em que tu estás por tua conta e eu estou por minha. Somos mesmo uma equipa”.

A palavra amizade e a definição de competição saudável é referida vezes sem conta nesta conversa com os dois atletas do Benfica em Belgrado. Para ambos, o facto de um fazer uma grande marca é motivo de alegria e de motivação para o próximo lançamento.

“Ele que melhore, que eu depois irei ultrapassá-lo, e mais tarde acontecerá o contrário”

“Ele que melhore, que eu depois irei ultrapassá-lo, e mais tarde acontecerá o contrário”, atira Francisco, sempre secundado por Tsanko: “Havendo competitividade entre os dois, obriga-nos a querer fazer cada vez melhor e isso tem-se visto nos resultados”.

Mas com tantas horas juntos em treino, competições e saídas de amigos, de certeza que há pequenas irritações que vêm ao de cima.

“Eu não gosto quando ele canta (risos). Ui.. Acontece muitas vezes”, refere Tsanko sem hesitar perante os risos de Francisco que não se fica na provocação.

“E o amor que o Tsanko tem pelo carro? Fechar a porta do carro tem de ser sempre muito devagarinho. Se bato com a porta é um problema. Ah, e pergunta-me sempre se limpei os pés antes de entrar”, confessa.

E no meio desta sintonia entre dois pesos pesados, como é visto o futuro? “Queremos fortalecer esta amizade, ajudarmo-nos. Espero que ele esteja no Mundial (Agosto de 2017 em Londres) comigo”, prevê Tsanko.

Francisco explica o porquê: “É que eu sou o único que consegue partilhar o quarto com ele competição”.

E a conversa termina como começou: entre risos e provocações mútuas. Na final de sábado, Tsanko garantiu o quarto lugar, estabelecendo um novo recorde nacional de 21,08. Falta agora saber se na próxima competição, Francisco conseguirá responder à letra ao amigo.

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