Depois da resolução do BES e como único membro da família que se mantém na banca, José Maria Ricciardi afirmou, em entrevista ao Público, que pretende criar “um banco novo”, “num conceito diferente dos chamados bancos clássicos”. O antigo gestor do BES explica que este deverá ser um banco “pequeno, pelo menos no início” e “virado para o mundo digital, mas que dê às próximas gerações e aos colaboradores a possibilidade de crescer no futuro”.

“Fui desafiado a regenerar o grupo por um elemento da minha família. Mas já não sou novo e espero ter energia e tempo pela frente para cumprir esse desejo”, conta Ricciardi.

O ex-administrador ressalvou, contudo, não estar confiante, pois “é muito difícil”, mas assegura estar “a fazer os possíveis para o conseguir”.

“A família Espírito Santo era conhecida em todo lado, o melhor nome da banca portuguesa foi destruído. Se conseguir começar a fazer a sua regeneração, para que as gerações seguintes o desenvolvam, partirei desta vida com a consciência tranquila de que fiz tudo o que podia”, conta ao jornal.

“Ver gente da minha família impecável e séria a sofrer com a hecatombe, a vergonha e o desastre do que se passou no grupo, cria-me angústia e ansiedade. E depois de profundas investigações das autoridades judiciais e fiscais, vemos que os problemas foram causados por um número restrito da família e o resto não tem culpa. O tempo dos Távora já passou”, afirmou na entrevista.

Este projeto teria assim como objetivo “começar a fazer a regeneração” do nome Espírito Santo, no entanto, caso venha a acontecer, Ricciardi não avança se o banco teria o nome de Espírito Santo, já que a decisão ficaria dependente “do branding e [da] estratégia comercial”.

Sobre o desfecho do BES, o ex-administrador acredita que teria sido diferente com o atual Governo.

“Se o tema BES tivesse sido tratado por este Governo, o desfecho teria sido provavelmente outro, pois o atual primeiro-ministro sabe negociar com Bruxelas. E isto não tem nada de ideológico, o BES devia ter ficado no Estado e ter-se negociado uma capitalização pública”, justificou, fazendo ainda referência ao Lloyds, que foi resgatado pelo governo britânico em 2008. O Estado inglês, argumentou Ricciardi, “acabou a revender parte das suas ações com lucro para os contribuintes ingleses”.

José Maria Ricciardi afirmou ainda que tem acompanhado os julgamentos de Ricardo Salgado e do BES, mas não fez qualquer comentário, “devido à pendência dos processos em curso e devido ao facto de ter sido chamado como testemunha do Ministério Público”.

Sobre a tese da defesa de Ricardo Salgado que insiste que todas as decisões eram tomadas pela família e os órgãos sociais, referiu apenas que “a verdade dos factos será com certeza confirmada”.

Questionado sobre como era possível não ter conhecimento do que se passava no BES, sendo membro do conselho de administração, Ricciardi escuda-se com o facto de ter tido a vida “passada a pente fino” durante vários anos de investigação, nomeadamente as contas bancárias, e ter sido “totalmente ilibado”.

“Estas entidades têm acesso a informações que mais ninguém tem e concluíram que existia um grupo a funcionar em circuito fechado, como uma célula, com comunicações encriptadas, que recebia dinheiro de um saco azul. E que era muito difícil aos outros administradores, auditores e reguladores terem conhecimento. Uma coisa é desconfiar, outra é ter provas”, justificou. Ricciardi admite, porém, que “provavelmente” podia ter feito melhor.

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