A mais valiosa dessas epístolas é, indubitavelmente, a carta dos códigos do Cartão de Cidadão. Quando é depositada na caixa do correio tão aguardada carta, os cidadãos pululam de êxtase, na medida em que passam agora a estar habilitados a alterar a morada fiscal ou a conceber uma assinatura digital, entre tantas outras coisas que pertencem ao âmbito erótico-oficial.

A carta dos códigos do Cartão de Cidadão, como tantas outras cartas que o Estado carinhosamente nos endereça, vem com a folha colada, protegendo o cidadão da violação da correspondência, de assédios da privacidade. Ora, protege tanto que acaba por ser difícil de abrir, sendo habitual que o cidadão rasgue um pouco da carta, dificultando o acesso aos tais códigos que lhe permitirão alterar a morada fiscal. Mas lá está, o amor burocrático não se oferece, conquista-se. Até porque estamos a falar de um casamento duradouro.

Sim, duradouro. A validade dos Cartões de Cidadão é agora de dez anos. O Estado não nos deseja agraciar com mais do que um Cartão de Cidadão por década. Logo, o funcionário dos registos é obrigado a veicular-nos uma difícil realidade desta relação – “agora, não se esqueça!, tem de guardar esta carta durante dez aninhos”. E pronto. É assim que contraímos um matrimónio forçado com uma folha A4. Dez anos numa pasta da Staples, na gaveta da mesa de cabeceira, ou, para os entusiastas do amor perigoso, na carteira. Como qualquer paixão, tem tudo para correr mal.

Diz-se que um verdadeiro amor pode sobreviver a tudo, até a uma traição. No caso do amor com Instituto dos Registos e do Notariado, o amor pode sobreviver a tudo, menos ao extravio da carta dos códigos do Cartão de Cidadão. É a linha vermelha do namoro notarial.

Se porventura tal sumiço ocorrer, o cidadão não tem outra solução se não voltar ao início. Tem de voltar à primeira casa, convidar o Estado para um novo primeiro encontro. Tem de agendar um dia, vestir uma camisa, fazer a barba. Mas o Estado já avançou com a sua vida. Nunca lhe faltaram pretendentes. Tiveste a tua oportunidade, agora temos pena. Queres voltar para os braços do Estado? Tira senha ou desampara a Loja do Cidadão.

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