A ideia da decadência linguística é simples: estamos a falar pior, a comer letras, a usar menos palavras, a reduzir a complexidade... É uma ideia baseada nas impressões individuais e no ouvir dizer. Ouvimos tanta gente dizer tal coisa que só pode ser verdade. Mais: ouvimos tanta gente a falar mal!

Ora, se formos olhar com atenção para o que é esse «falar mal», encontramos numa grande parte das vezes a inevitável variação linguística — longe da decadência, estamos perante um fenómeno de sempre (e para sempre), presente em todas as línguas. A língua muda, às vezes de maneira irritante, mas não se torna menos complexa ou, de alguma maneira objectiva, pior (também não se torna melhor, claro está). Para já, falamos da oralidade — quanto à escrita, a conversa é outra (já lá chegaremos).

Vejamos: a capacidade linguística está imbricada no cérebro humano. Uma criança aprende a falar com muita facilidade, sem necessidade de que os adultos se esforcem (e, ainda assim, quase sempre, esforçam-se). Mesmo em situações extraordinárias, como no caso dos crioulos, recriados por filhos dos escravos, as crianças recriam línguas completas mesmo se não receberem informação suficiente sobre uma língua anterior. Na Nicarágua, um grupo de crianças surdas — que não ouviam outras línguas e a quem não foi ensinada uma língua gestual — parecem ter criado, nos anos 80 do século XX, uma língua gestual de raiz, com gramática e vocabulário.

É verdade que ainda não conhecemos bem os mecanismos cerebrais que estão na base da linguagem humana. Sabemos, no entanto, que problemas genéticos particulares levam à perda de capacidades linguísticas. O gene FOXP2 parece estar particularmente ligado à linguagem. Não é — ao contrário do que se chegou a difundir, numa interpretação simplista do funcionamento da linguagem — o gene da linguagem. É um gene que tem uma função importante para o desenvolvimento de estruturas cerebrais essenciais para a linguagem.

Ora, o cérebro humano não muda rapidamente. É o resultado de uma evolução de milhões de anos. Não parece haver razão para acreditar que as nossas capacidades linguísticas estão a diminuir. Em todas as línguas e em todas as épocas, há um processo relativamente estável de aprendizagem das regras e do vocabulário na primeira infância (mais uma vez, estou a falar da oralidade). Só quando há um problema físico concreto (como uma falha no gene FOXP2) é que encontramos uma diminuição marcada da capacidade linguística de um ser humano. Quer isso dizer que temos todos a mesma capacidade? Não: há variação entre indivíduos (não há ninguém igual) — o que não encontramos é uma tendência para a diminuição dessa capacidade colectivamente.

Há, aliás, fortes indícios de que as línguas tendem para um equilíbrio no que toca à complexidade. Por exemplo, se uma língua necessitar de mais fonemas para transmitir informação, esses fonemas serão ditos de forma mais rápida. Ou seja, a rapidez de transmissão de informação mantém-se constante. Da mesma forma, se a informação transmitida por determinado fonema começar a desaparecer, os falantes encontrarão outras formas de a transmitir, como no caso do desaparecimento dos casos do latim e a sua substituição por preposições nas línguas românicas.

Em suma: não há línguas que exijam mais inteligência do que outras — e o mesmo vale para diferentes fases da mesma língua. A inteligência necessária para falar o português de hoje não é diferente da inteligência necessária para falar o português de há 500 anos. O cérebro humano não mudou assim tanto...

Se as línguas mantêm estes equilíbrios, por que razão mudam? A verdade é que, se todos temos o equipamento cognitivo típico do ser humano, todos somos também ligeiramente diferentes do vizinho do lado. Os portugueses não têm cérebros diferentes dos outros povos — mas têm cérebros ligeiramente diferentes entre si. Ora, cada grupo a que pertencemos — grupo familiar, social, geográfico — tenderá a ter uma diferente frequência de uso de determinados sons, palavras ou construções. Uma vogal é pronunciada de uma determinada forma aqui e de outra acolá... Quando os grupos fazem todos parte de uma mesma comunidade linguística, a variação ou se apaga gradualmente ou fica cristalizada, por vezes como marca regional ou social. Vemos a actuação de forças centrífugas e forças centrípetas dentro da língua, que vão sempre empurrando a língua por caminhos ligeiramente diferentes ao longo do tempo.

Os idiomas registam variação no espaço e no tempo, mas não se tornam menos capazes de transmitir a complexidade do mundo. Simplesmente variam. Todos estes processos são de difícil análise. Olhar para variações de uso de determinados termos ou na realização de determinados sons e concluir daí que a língua está em decadência ou gritar, como tantas vezes se ouve, que hoje todos são analfabetos mostra mais da ignorância de quem grita do que de quem é objecto do grito...

Outro dos factos que costumam ser apresentados como prova da decadência da língua é a importação de estrangeirismos. Ora, embora seja verdade que encontramos um uso quase caricatural de estrangeirismos em certos textos, a sua existência é característica de todas as línguas, com excepção das mais isoladas. O inglês está cheio de estrangeirismos, por exemplo. Que hoje a fonte seja praticamente uma só (o inglês) é circunstancial. O francês teve o mesmo papel durante séculos e, antes, o castelhano também nos serviu de fonte. Podemos tentar lutar contra este estado de coisas, mas convém reconhecer que não é de agora. O português já ofereceu palavras a muitas línguas. Há línguas, aliás, com uma quantidade assinalável de palavras importadas do português, como é o caso do indonésio. Estes fenómenos decorrem das relações políticas, militares, culturais e económicas entre povos e não de uma qualquer decadência propriamente linguística.

Então não há maneira de uma língua entrar em decadência? Sim, há: começar a ser cada vez menos falada e a ser substituída por outra língua. Basta olharmos para várias regiões da Europa — mesmo aqui por cima de nós por exemplo, na Galiza — para encontrarmos línguas que, para sobreviverem, têm de ser protegidas.

E a escrita?

Note-se que tudo o que descrevi vale para a oralidade. A escrita implica mecanismos bem mais artificiais, que não decorrem directamente da evolução humana nem das características dos nossos cérebros. É necessário aprender conscientemente a escrever. Ou seja, as línguas podem mesmo passar por períodos de decadência — mas na escrita… Quando o Império Romano desapareceu, os níveis de alfabetização desceram. No entanto, as línguas em si, na oralidade, não se transformaram em subprodutos linguísticos — acabaram por dar origem às nossas línguas, que simplificaram partes do latim, mas complexificaram outras (os artigos, por exemplo).

Ora, mesmo na escrita não vivemos hoje num período de decadência: a alfabetização é superior a qualquer época passada. Ainda não estamos bem? Pois não. Preocupa-me a falta de leitura de muitos jovens, que não permite ganhar capacidades de escrita adequadas para um mundo em que vivemos pela escrita. Mas de uma preocupação até conclusões catastróficas sobre a evolução da língua vai, claro, uma grande distância.

Neste século xxi, a língua sofre um desenvolvimento que talvez se aproxime, em importância, da invenção da imprensa ou da expansão da escolaridade: o uso cada vez mais regular da escrita, mesmo num registo informal (na Internet, nos telemóveis, nas redes sociais…). A importância de saber escrever bem é cada vez maior, num tempo em que o uso da língua de cada um de nós está exposto como nunca esteve. Um português dos anos 40, se não usasse a escrita na sua profissão, escreveria para uma dúzia de pessoas, no máximo (se soubesse escrever). Um português de hoje, ao publicar numa rede social, pode estar a escrever para centenas ou milhares de pessoas. Temos de apostar no treino da escrita e da oralidade em situações formais (que se aproxima da escrita), sem cair em ideias de decadência com pouca ou nenhuma base nos factos da língua.

Enquanto escrevemos melhor ou pior, o mecanismo da língua lá continua a trabalhar, com os seus ruídos de fundo, a passar de geração em geração, a saltar de cérebro em cérebro.

Notas:

  1. Encontramos um tratamento jornalístico sobre o caso das crianças da Nicarágua no artigo «How Deaf Children in Nicaragua Created a New Language», de Shoshi Parls. Sobre o desenvolvimento desta língua, encontramos, entre muitos outros, o artigo científico de Ann Senghas e Marie Coppola: “Children creating language: How Nicaraguan Sign Language acquired a spatial grammar”. Sobre o desenvolvimento de complexidade linguística nas línguas gestuais de jovens, encontramos um artigo recente de Svetlana Dachkovsky et al.: «Constructing Complexity in a Young Sign Language».
  2. Podemos encontrar uma descrição da ligação entre a linguagem e o chamado «gene da linguagem» — e ainda da forma simplista como a questão foi encarada em alguns círculos linguísticos — no livro O Livro dos Humanos, de Adam Rutherford.
  3. Sobre a tendência para a manutenção da mesma complexidade na linguagem, veja-se o artigo de Christophe Coupé et al. «Different languages, similar encoding efficiency: Comparable information rates across the human communicative niche» e ainda o artigo de Tiago Pimentel et al. «Phonotactic Complexity and Its Trade-offs.»
  4. Uma versão do texto apareceu no livro História do Português desde o Big Bang.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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