As democracias ocidentais estão por cinco dias em cimeiras sucessivas - depois do G7 na Baviera, agora a NATO em Madrid -, confrontadas com o cenário mais difícil desde o fim da Guerra Fria: responder aos desafios estratégicos colocados pela agressividade da Rússia e pela ambiguidade da China, num tempo em que o Sul do planeta, genericamente (a Austrália é exceção), não está alinhado com o Ocidente.

A NATO tinha sido declarada pelo presidente francês em estado de “morte cerebral”. Este diagnóstico de Emmanuel Macron tem menos de três anos, é de novembro de 2019. É facto que naquele tempo imperava nos EUA a presidência Trump que ignorava a Aliança Atlântica e hostilizava os europeus.

A guerra desencadeada com a invasão russa da Ucrânia veio dar à NATO, aos 73 anos de vida, o vigor e protagonismo que nunca antes teve.

A Aliança Atlântica nasceu em Washington, em abril de 1949, com a união militar de uma dúzia de países movidos pela intenção de naquele tempo pós II Grande Guerra conter a União Soviética e proteger as democracias da Europa Ocidental do comunismo. 

Nestes 73 anos de vida a NATO assistiu à queda do Muro de Berlim (1989), ao estilhaçar da União Soviética (1991) e ao fim do Pacto de Varsóvia (1991), um colapso do mundo comunista que parecia indicar fim de missão para a NATO. Mas, imediatamente a seguir, a guerra civil jugoslava que se tornou guerra dos Balcãs (1991/2001) reorientou a NATO. Missões controversas no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e nos mares da Somália revelaram novos horizontes para a NATO, que mesmo assim não deixava de parecer um velho e obsoleto clube militar.

Agora, o expansionismo de Putin levou a Europa – sem exército europeu – a considerar que a NATO é o principal instrumento de defesa de que dispõe perante ameaças e ataques externos.

Antes, a presidência dos Estados Unidos, com Joe Biden, já tinha definido a autocracia da China, em auge global, liderada por Xi Jinping, como a grande rival e ameaça, o que fez apontar focos para a região do Indo-Pacífico.

É assim que a NATO, ao serviço dos interesses ocidentais, passou a apontar para um horizonte muito mais global que atlântico.

A NATO passou dos 12 parceiros iniciais para 30 estados membros e, agora, perante a nova ameaça russa, vai acolher mais dois, a Finlândia e a Suécia.

Nunca uma cimeira da NATO terá tido tanta premência e urgência.

A agenda define como prioridade a definição do “conceito estratégico da NATO para a próxima década”.

A brutal agressão russa à Ucrânia impõe que o reforço da defesa coletiva para garantir a independência e soberania de cada país membro seja tema principal. Mais: como reagir a um líder como Putin que teoriza o regresso "grande mãe Rússia" dos mais de 25 milhões de russófilos espalhados por países vizinhos na sequência do que ele considera como a "grande tragédia" da implosão da URSS no final de 1991. A NATO está obrigada a ponderar o cenário – que se deseja afastado – de confronto direto com a Rússia. 

De facto, neste momento, nenhum cenário pode ser excluído. Mas perturba que não se vejam sinais de iniciativas que levem a negociações para a tão necessária paz.

Mas a NATO, nesta cimeira de Madrid, também vai ser chamada a preparar a nova ordem global que está a ser instalada, com contornos ainda por definir. Desafios geoestratégicos como a China e a ciberguerra também vão estar nesta cimeira de Madrid. Provavelmente a mais determinante nos 73 anos de vida da Aliança Atlântica.

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