Denunciar actos de violência, maus tratos, abusos. Ter a coragem de dar a cara, enfrentar um primeiro agente da autoridade na esquadra, depois outros, explicar em pormenor o que aconteceu e como aconteceu. É preciso coragem, é preciso conseguir ultrapassar uma mescla de sentimentos de vergonha, de culpa, de medo.

Uma mulher ou um homem que conseguem apresentar queixa merecem o nosso respeito e merecem que o Estado tenha ferramentas para agir adequadamente em defesa das vítimas. Isto não tem discussão. Uma queixa apresentada passa a crime público, não pode ser retirada.

Esta semana, inesperadamente, um homem que conheço há muitos anos, que estava num casamento infeliz, foi acusado de abusos psicológicos à ex-mulher. Um dia depois de ter feito a queixa, a ex mulher decidiu retirar a queixa. Explicaram-lhe que passara a crime público e que não havia nada a fazer.

A ex-mulher saiu da esquadra, porventura, perplexa. O homem, acusado de maus tratos, contou-me a sua situação com tristeza. Disse: “Irei a tribunal, farei tudo para provar que não a maltratei. Ou melhor, maltratei quando decidi que a relação tinha terminado. Ela sente-se despeitada”.

O homem não quis o divórcio por ter outra pessoa, quis o divórcio “por ter deixado de gostar dela”. Poucas pessoas acreditarão, acrescenta. E depois pergunta: “Acusar está na moda, não está?” Tento dizer que não é uma moda, é um percurso que as mulheres têm feito pela liberdade, pela dignidade, pela vida com qualidade e que esse percurso tem mérito e está longe de estar terminado. Ele encolhe os ombros.

Quando se afasta, percebo que a expressão “com o mal dos outros posso eu bem” se encaixa ali na perfeição. Uma falsa acusação é uma espada em cima da cabeça, é uma perversidade e não ajuda à causa das mulheres. Um homem ou mulher capaz de acusar outro ou outra de maus tratos como ferramenta de humilhação é o preço que temos de pagar pela coragem de outros e outras de enfrentar os seus agressores? Parece que sim.

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