Imaginemos que o leitor não consegue passar o Inverno sem fumar charros. No Verão até não lhe fazem muita falta, mas nos meses frios não dispensa o quentinho do entorpecimento por THC. Ora, ao longo das décadas, tem vindo a recorrer a um dealer que nunca foi propriamente recomendável, mas a quem se foi habituando. Acontece que, nos últimos meses, o dealer tem-se tornado violento, agredindo repetidamente um vizinho do leitor. O leitor faz queixa do dealer, mas continua a querer comprar-lhe erva, porque não tem paciência para arranjar novo dealer. No entanto, é o próprio dealer que deixa de vender erva ao leitor, pois não suporta chibos. Nisto, o leitor exige a todos os seus amigos que não dependem desse dealer - não só que reduzam o consumo de erva - mas que partilhem a deles consigo. É isto que está a acontecer com o gás na Europa (dá-me ideia).

Um país dependente do gás é como um adolescente dependente de estupefacientes: começa tudo quando se escolhe mal as companhias. A Alemanha escolheu mal o dealer e agora somos nós que temos de girar a nossa. Enfim, Portugal é que sabe andar nisto: tal como o haxixe, sabemos bem que o melhor gás vem do Norte de África. Tenho a certeza de que este debate dará propano para mangas, mas, na verdade, não sei do que estou a falar - todo o meu conhecimento relativo a este combustível resume-se à canção “há fogo, há fogo nas cuecas do Diogo / há gás, há gás nas cuecas do Tomás”. Porém, uma coisa é certa: a nível comunitário, Portugal não pode ser subjugado no contexto do gás. Caso contrário, não teremos hipótese senão formular obsessivamente trocadilhos com a aceção figurativa da palavra "bilha" que está relacionada com a sodomia. E isso seria fatal para o projeto europeu.

Nitidamente, a Alemanha tem-se aquecido acima das suas possibilidades. E os seus habitantes têm sido piegas ao não emigrar para as zonas tropicais. Nos próximos meses, poderão até vir a ter o FMI (Fresquinho Muito Incómodo) à perna. Dir-me-ão, “isso de cobrar aos alemães a falta de solidariedade na crise das dívidas soberanas - castigando-os com falta de solidariedade no momento atual - é muito mesquinho e ressabiado”. É possível. Resolvemos assim: a gente não cobra favores e eles não cobram dívida. Na altura, segundo Pedro Nuno Santos, tínhamos a bomba atómica. Hoje, basta-nos uma bomba de calor.

E vão logo pedir a Portugal que diminua o consumo de gás. Uma pessoa vai ao Norte e ao centro da Europa e é só casas com aquecimento central e ar condicionado, mas é o tuga, que frugalmente se municia ou de uma ventoinha ou de uma escalfeta, consoante a época, que tem de gastar menos energia em climatização. Isto é malta que só se preocupa com o calor quando, face a temperaturas recorde, há ingleses a suar que nem PIIGS. Tenham paciência, mas sejam mais inventivos. Têm frio no inverno? Recorram à eficiente mantinha. Têm calor no verão? Sejam tão criativos como o casal que roubou uma piscina. Se a outra crise criou a geração à rasca, que esta sirva pelo menos para ensinarmos a Europa a desenrascar-se.

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