Fixei a frase porque ela sintetiza não apenas a chegada ao poder do mais lamentável Presidente que os Estados Unidos da América viram na Casa Branca, como traça um paralelo com um debate que, nos últimos anos, tem ganhado expressão no mundo ocidental: a vacinação obrigatória num qualquer Plano Nacional de Saúde pública.

Num caso como noutro, estamos perante um problema de ineficácia prática do modelo educativo que, em democracia, decidimos seguir. De nada serve explicar a necessidade de pontes e entendimentos entre povos, religiões, e sistemas, se na prática se cultiva o mais feroz individualismo, a noção de que os “outros” são sempre os culpados, e se espicaçam os pequenos ódios e segregações.

Já tudo se disse sobre o populismo, a demagogia, o ilusionismo ideológico e a descarada tendência para a mentira de Trump, até mesmo quando a mentira recai sobre ele, sob a forma de promessas que sabe previamente serem impossíveis de levar avante. Já tudo se disse mas, além do fogo-de-vista de algumas demissões, nada de relevante aconteceu. A vacina é inócua num povo mais preocupado com a sua existência presente do que com o longo prazo que não viverá.

Num tempo em que os media, pulverizados pelas plataformas eletrónicas e debaixo do fogo das chamadas “fake news” — tantas vezes “apenas” as notícias que os leitores gostariam que fossem verdadeiras... —, qualquer louco convincente, que chega a afirmar que a sua beleza resulta do facto de ser rico, tem margem de manobra para alimentar uma aparência de grandeza (que felizmente os diversos poderes paralelos do regime conseguem ir travando).

Confesso: há um ano, a vitória de Donald Trump foi de tal forma inesperada, absurda, e cheia de rabos de palha, que nem lhe atribui relevância. Em poucos meses seria destituído, nem que fosse apenas pelas alarvidades que diz sobre as mulheres. Passado este tempo, a política de “toca e foge” do homem que pretende ser o mais poderoso do Mundo parece mais discreta — mas nem por isso escapa a gafes como a que a CNN lhe atribuiu recentemente, quando afirmou que se reuniu com o presidente das Ilhas Virgens e acrescentou que a população e o seu presidente são espetaculares”. Sucede que o Presidente das Ilhas Virgens é... Donald Trump.

Vivemos, portanto, o grande falhanço da “cultura e da civilização”, como dizia Vargas Llosa, porque o plano de erradicação de doenças que a vacinação em massa garante não se aplica ao que depende da informação, da vontade, e acima de tudo da compreensão do fenómeno político para lá do voto regular. Enquanto a educação para a cidadania não conseguir pôr uma vasta maioria a relacionar política com urbanismo, natureza, indústria, saúde, ou o simples ato de escolher entre este filme e aquele, será improvável que algo mude, e a ideia de um mundo global continuará a ser a proximidade de muitos pequenos mundos. De costas uns para os outros. Deixando aos Trumps desta vida uma enorme floresta para incendiar à medida das necessidades. Não será por acaso que, segundo o último estudo de opinião do The Washington Post, o presidente reúna a taxa de aprovação mais baixa de sempre num primeiro ano de governação, mas ao mesmo tempo mantenha a base de apoio que o levaria de novo à vitória se as eleições ocorressem agora. “Ama este país e cuidará dos meus valores”, explicava uma mulher de trinta e poucos anos numa reportagem do El País. Trinta e poucos anos.

E ainda Trump...

Jornalista, humorista, meio anárquico, grande repórter, P.J. O’Rourque é uma das mais autorizadas vozes do pensamento moderno norte-americano. Nesta entrevista, percebe-se bem porquê...

Outra boa entrevista de outro excelente pensador (e ativista), a de Michael Moore. Além de Trump, não lhe escapa o Brexit e fala do seu novo show, cujo titulo é revelador: "The terms of my surrender"

Vá, um pouco de humor para amenizar o ambiente. Donald Trump e os seus inesperados dotes de intérprete de canções da moda. “Despacito”? Isso mesmo...

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