Está tão julho que não dá para perceber se o que ferve mais é o alcatrão ou o sangue. As ruas apresentam-se praticamente desertas, salvo um ou outro passeio noturno, um último cigarro antes de um novo dia útil. Alverca, viga que segura o ennui suburbano, silencia-se. Só o ruído de passos e de carros avançando fora pela Nacional quebra a monotonia. São poucas as janelas que deitam luz. Quando o FC Porto ganha um campeonato, é como se o tempo, que por aqui sempre se contou lento, morresse.

Passam dois jovens, a alguns metros da praça. Vislumbram o símbolo eterno cosido à camisola azul e branca. Pedem gritos. Acrescentam-lhe um impróprio, daqueles que já traz o ponto de exclamação colado. O grito sai tímido, mas sai. Sai tímido porque festejar um título em território inimigo – e a experiência diz-nos isso – é sempre potencialmente perigoso. Mas sai, repito. E tinha mesmo que sair, tinha mesmo de ser esse grito a única coisa a iluminar um ano tão obsceno.

Portooooo, Portooooo...

O FC Porto não foi campeão no sofá, já que o Vitória SC não conseguiu fazer uma gracinha em Lisboa (e teria sido deliciosamente irónico que assim tivesse acontecido, tendo em conta todo o triste episódio em torno de Marega, em fevereiro). Muito se disse, e diz, e dirá sobre essa ideia de se ser campeão “no sofá”. Como se o campeonato se decidisse apenas pelos deslizes dos outros, ou sobretudo por um último deslize. Que a honra maior é ser-se campeão jogando e vencendo. Porém, a forma como se chega ao ambicionado troféu é irrelevante: numa terça-feira, numa quarta ou num sábado, o que importa é garantir que aquele primeiro lugar não mais nos foge.

Se a equipa não o foi, tiveram de o ser forçosamente os adeptos. Tanto aqueles a 300 quilómetros de distância daquele palco para todos os sonhos, como aqueles que até lá moram ao lado. Alguns preferiram ignorar a pandemia e deslocar-se, ainda assim, em grupo para as ruas da Invicta. Outros optaram pela segurança dos seus carros para fazer uma festa mais ou menos improvisada na Avenida dos Aliados. Mas a esmagadora maioria dos Portistas foi campeã no sofá de casa, impedida por um maldito vírus de se juntar aos seus, à sua tribo, às suas cores. Impedida de ver os seus heróis a celebrarem como seres humanos.

É isto que sobretudo dói e tira quase toda a alegria de se ser Portista abaixo do Mondego. Em situações normais teria dado um gozo terrível compreendermo-nos únicos entre os demais, desfrutar de toda a schadenfreude que se segue ao apito final do árbitro em jogo de título. Sem essa mistura de júbilo e malícia só o corpo vagueia pela noite, procurando reduzir ainda mais os níveis de adrenalina que o disparo de Fábio Vieira à trave fez explodir e o golo de Marega tranquilizou.

Mas o corpo é só o veículo do ser, e o ser grita, tímido ou não, para que o ouçam ou não: Portooooo...

Foi justo? Qualquer pessoa que goste do futebol sabe que a justiça existe na classificação e nos resultados. Os outros fraquejaram, mas nós também. Por vezes jogámos mal, mas os outros também. Assim o é todos os anos. Assim o foi no ano passado sem que ninguém se atrevesse a falar em “demérito”; quando os vencedores são outros inventam-se “recuperações” para manter vivo o mito. Olhando de forma fria, o FC Porto é campeão porque ganhou mais que os rivais. E ganhou inclusive aos próprios, em todos os quatro jogos, algo que não acontecia na mesma época desde um tal de Mourinho.

Admitimos, porque não temos pudor em admiti-lo, que a dada altura não pensávamos poder estar a celebrar um título em julho. Não só porque ultrapassar tamanha distância pontual era uma tarefa extremamente difícil (não impossível), mas também porque nunca na vida imaginámos que os títulos se pudessem celebrar em julho – isso é mês de praia, de festivais de música, de bronzes à camionista e de finos atrás de finos em esplanadas cobertas por guarda-sóis.

Isso agora não interessa para absolutamente nada porque prevaleceu o FC Porto. Prevaleceu Sérgio Conceição, que não está isento de críticas mas que hoje e nas próximas semanas não as merece ouvir, porque nos devolveu a honra. Prevaleceram todos os jovens que não há muito tempo também celebravam no sofá ou nos Aliados e que agora estão ali, no campo, a viver uma das noites mais mágicas das suas vidas, apesar de tudo.

E prevaleceu a crença que não se perde nunca porque o ateísmo é algo que não existe no futebol, mesmo que ao longo do ano andemos com t-shirts satânicas na ânsia de assustar os vizinhos pouco dados ao heavy metal.

Cresce a madrugada e sucedem-se as imagens nas televisões, as entrevistas curtas, os sorrisos dos que ali estiveram em campo para nos fazer lembrar que o mundo continua a girar apesar da pandemia. Janela aberta e ventoinha ligada e lua cortada pelos prédios em frente. O sono não virá esta noite. A cabeça já foi tomada pela alegria, e por alguma melancolia. Pensar no futuro? Não vale a pena. Há gente no Marquês. Os amigos e camaradas de clube vão partilhando as suas mensagens e fotografias nas redes sociais, a todos responde-se com amor e um abraço à distância. Queria-vos, não aqui, mas a meu lado. Mas muitas mais ocasiões haverá para isso. No fim de contas, Somos Porto. Não é?

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