As primeiras questões que naturalmente se põem são quem era este Soleimani, de quem só os especialistas tinham ouvido falar; e porque é que a sua morte pode provocar um conflito mundial? Afinal de contas, morrem diariamente incontáveis soldados de todas as patentes, para não falar nas situações de guerra latente a que já nos habituamos, como a da Índia/Paquistão, ou de guerra localizada a que já nem prestamos atenção, como a do marechal Khalifa Haftar contra o Governo líbio.

Antes de mergulhar na confusão inextricável que é o Sudoeste Asiático, convém talvez separar as águas, como Moisés fez para os israelitas atravessarem o Mar Vermelho – que por acaso também lá ficam. Mas não é preciso recuar aos tempos bíblicos; basta começar em 1916. Enquanto decorria a I Guerra Mundial, a Grã-Bretanha, que entrava sem o saber no declínio do seu Império, resolveu acabar com a ocupação da Península da Arábia pela Turquia, aliada da Alemanha. Ingleses e franceses fizeram um tratado secreto, chamado Sykes-Picot, em que dividiram os territórios que os turcos iriam perder.

Resumindo num parágrafo o que levaria resmas a contar, esses territórios foram atribuídos às populações árabes, que logo a seguir se revoltaram e, por volta da década de 1920-30, se tornaram independentes, sob as casas reinantes das tribos locais. (Algumas já tinham sido reinos independentes antes do avanço do Império Otomano, mas isso agora não vem para o caso.) Embora os europeus tivessem prometido e incentivado um Estado único para toda a península, a rivalidade entre as tribos tornou a proposta inviável. Uma coisa que não prometeram foi a re-criação dum estado judeu, e este “pormenor” iria estar na origem de muitos problemas.

Temos então uma primeira situação, que é a existência de vários países com fronteiras criadas a régua e esquadro por europeus que nunca lá tinham posto os pés; e temos a interminável divisão dos islamistas entre xiitas e sunitas, além das infinitas rivalidades tribais. Sob este pano de fundo de fino recorte surge o Estado de Israel, resultado da imigração dos judeus para a terra que tinham abandonado há séculos. A área era dos ingleses, mas, finda a II Guerra Mundial, os judeus começaram a ir para lá aos milhares e correram com os ingleses à bomba (literalmente). Contudo, e aqui está uma das razões do mal-estar entre árabes e europeus, as tribos, que discordavam em tudo, só concordavam em duas coisas: que os judeus não tinham direito a voltar para a península, e que os ingleses os tinham traído, ao prometer que isso não aconteceria, para depois deixarem acontecer.

Nesta situação há que incluir os dois Estados que, não estando na península, sempre a consideraram como sua: a Turquia, que a perdeu na I Guerra Mundial, e o Irão, que a perdeu para Alexandre o Grande (quando ainda se chamava Pérsia) e desde então não desistiu de a recuperar.

Resumindo, o pano de fundo é de estados árabes desavindos, dois impérios com ambições expansionistas, duas versões da mesma religião que se odeiam de morte, e uma terceira religião que as outras não suportam.

Sobre esta bela fogueira só é preciso atirar petróleo (e petróleo é o que não falta) para passar duma situação explosiva para uma explosão contínua. Não poderá jamais haver acordo – e muito menos paz – entre esta colecção de antagonismos religiosos e étnicos, e interesses económicos.

Pintado o cenário, passemos aos factos. A questão do petróleo – que certos analistas consideram o único factor a ter em conta — não é nova e já teve outros protagonistas. Quando Churchill decidiu que a armada britânica deveria usar motores a gasóleo em vez de caldeiras de carvão, isto na época da I Guerra Mundial, os estrategas avisaram-no para o problema estratégico: a Grã-Bretanha tinha carvão à vontade e nenhum petróleo, pelo que ficaria dependente doutros territórios para fazer navegar a sua imensa frota. Sendo uma potência imperial, isso não seria um problema; como sempre tinham feito, os ingleses simplesmente iriam buscá-lo onde fosse preciso, por todos os meios necessários. (Data dessa altura o “protectorado” britânico na Pérsia, que viria a ter consequências até hoje, como se verá. Já agora, a Pérsia passou a chamar-se Irão em 1935.)

Terminada a II Guerra Mundial, os norte-americanos substituíram os ingleses como Império dominante – com interesses e necessidades semelhantes. Duas situações interessavam a Washington em relação ao Sudoeste Asiático; as maiores reservas de petróleo do mundo e a existência de Israel (cujo lóbi nos Estados Unidos é omnipotente).

Em 1951, quando os ingleses já pouco mandavam na região, o Irão, reinado da dinastia Pahlavi, pró-ocidental, elegeu democraticamente o primeiro ministro Mohammad Mossadegh, com um programa de nacionalização dos recursos petrolíferos. A CIA encarregou-se de depor Mossadegh, num golpe que deu origem ao violento anti-americanismo que até hoje ficou no ADN dos persas.

Continuando a simplificar uma História que daria volumes com peripécias pouco edificantes de todas as partes envolvidas, chegamos à década de 1980. No Iraque, o rei há muito foi deposto e quem manda agora é Saddam Hussein, um árabe pouco religioso, mais preocupado com os seus interesses do que com a aborrecida hostilidade entre xiitas e sunitas. Turquia, Iraque, Síria, Líbano e Egipto são países populosos com governantes “civis”, enquanto os vários emirados e reinos que completam o puzzle geográfico da região são reinos teocráticos. Todos vivem de vender petróleo aos Estados Unidos e à Europa e de vez em quando atacam Israel, que ganha todas as guerras. Assim, o negócio é vender aos americanos, e o espírito é odiá-los. Saddam, sunita agnóstico, não vê com bons olhos a revolução xiita fundamentalista no Irão, que depôs o Xá Pahlevi pró-americano e criou uma república teocrática. Entre 1980 e 1988 o Iraque e o Irão massacraram-se numa guerra sem saída, até que, exaustos, concordaram numa paz patrocinada pelas Nações Unidas.

Saddam, sempre irrequieto, sempre expansionista, cometeu então o maior erro de cálculo da sua vida: em 1990 invadiu o Kuwait, pequeno em território e grande em petróleo, pensando que os Estados Unidos, que o tinham municiado na guerra contra o Irão, não se importariam. Mas os americanos, vendo um padrão de perda de fontes petrolíferas em crescimento, atacaram o Iraque. O presidente da altura, Bush pai, percebendo que Saddam era um excelente contentor do fundamentalismo expansionista do Irão, optou por derrotá-lo, mas não o depôs. Portanto continuou tudo na mesma, com a diferença que os Estados Unidos criaram mais um inimigo na região e uma grande presença militar.

Avancemos para 2003. O presidente agora é Bush filho, um sério contendor para o título de pior presidente dos Estados Unidos de todos os tempos e o autor do maior disparate dos tempos modernos. Na ressaca do ataque às Torres Gémeas de 2001, do qual Saddam não tinha nada a ver, invadiu o país e transformou-o num estado falhado, campo de batalha entre sunitas e xiitas iraquianos e de todos os países em volta. Deu, também, espaço ao Irão para se expandir.

Desde a derrota do Iraque (e enforcamento de Saddam) até hoje, a história é demasiado complicada e confusa para se poder resumir em espaço útil. É mesmo impossível de compreender, dada a ilógica dos interesses em confronto, umas vezes aliados, outras aguerridos. O Iraque nunca mais voltou a ser um país governável. A Síria tornou-se num campo de chacina entre o Governo de Assad e vários grupos de rebeldes, uns apoiados pela Turquia, outros pelos Estados Unidos, outros ainda pelo Irão. Assad só se salvou recorrendo à Rússia, que assim fez a sua entrada no ninho das víboras, bombardeando tudo o que mexe, hospitais inclusive, para defender o seu novo amigo. Vindo do nada, surge um Estado Islâmico sunita radical, o Califado Islâmico, comendo território à Síria e ao Iraque. A confusão proporciona o aparecimento dum proto-estado curdo entalado entre os dois países e a Turquia. Os norte-americanos, que nunca foram muito competentes em geo-estratégia, aliam-se ora a uns, ora a outros, sem conseguir nenhum objectivo – na verdade, sem ter nenhum objectivo. (Ao contrário do que corre persistentemente, já não é o petróleo. Hoje os Estados Unidos produzem petróleo que lhes chega e ainda têm fornecedores seguros, como a Arábia Saudita.) Finalmente, com a eleição de Trump, encontram esse objectivo: sair da região logo que possam – mas não conseguem, porque criaram compromissos, alianças e inimizades que os mantêm alapados nas suas bases.

É neste quadro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse – pestilência, guerra, fome e morte – que o iraniano Soleimani é abatido pelos norte-americanos no Iraque. Agora já sabemos quem ele era. O segundo homem mais importante do Irão, um militar não religioso cujo papel, nestas últimas décadas, tem sido semear a confusão na região, com o fim último de tornar o seu país dominante. Criou milícias, fomentou revoltas, combateu o Estado Islâmico (aliado aos EUA...), ajudou à confusão no Líbano, desestabilizou a Síria, quase tornou o Iraque num protectorado iraniano. Um guerreiro temível e um inimigo perigoso, que os norte-americanos já podiam ter eliminado, mas não o fizeram porque não tinham a certeza de quais seriam as consequências no complicado quadro de alianças interesseiras.

Trump agora tomou a decisão, não se sabe porquê – o que é típico de Trump, cujo único objectivo consistente é a sua própria glória. Há quem diga que foi para distrair a opinião pública do processo de demissão que lhe paira sobre a cabeça, ou para melhorar as suas hipóteses na próxima eleição. É muito provável. Mas não terá sido só isso. Quase com certeza que não mediu as consequências, que poderiam passar uma guerra aberta com o Irão. É característica dos americanos em geral, e dele em particular, começar uma acção sem considerar os objectivos ou, pelo menos, as saídas possíveis. Já disse, e nós acreditamos, que não quer uma guerra. O Irão também já disse o mesmo. O mais provável é uma fieira de pequenos ataques, violentas iniquidades, de parte a parte, como dois miúdos que se confrontam, mas não têm testículos chegar a vias de facto.

A inteligente e profunda leitura que o PCP faz da situação é esta: “Após três décadas de agressões imperialistas que semearam a morte e a destruição no Médio Oriente, a política belicista e agressiva dos EUA ameaça conduzir o planeta a uma nova guerra de grandes proporções”. Em termos de chavões, não podia ser mais corriqueiro. Quisera Deus (ou Marx) que fosse assim tão simples.

A esquerda, em geral, vê todas as situações como manifestações do “imperialismo americano”. Há um século, era o “imperialismo inglês”. E daqui a menos de cem anos será, certamente, o “imperialismo chinês”. É a arte de simplificar uma situação que não tem qualquer simplicidade.

À direita, discutem-se legalidades; se a morte de Soleimani foi um acto de guerra legítimo ou um ataque terrorista. Porque desde 1864 há um documento, a Convenção de Genebra, que regulamenta as leis da guerra. Já foi actualizado várias vezes, a última em 1949, portanto numa altura em que “guerra” era sempre entre dois países. Os estados terroristas, as organizações informais e subterrâneas não estão contempladas. É evidente que Soleimani era um inimigo. Discutir a moral ou a ética de o abater é absolutamente irrelevante.

O que interessa é que ainda não é desta que vamos para a III Guerra Mundial.

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