O que andamos para conseguir criar coisas novas, seja nas artes seja na indústria criativa, a experiência acumulada, todo um saber aliado a talento e capacidade de trabalho tem pouca expressão financeira. Ou não tem mesmo nenhuma.

Na chamada indústria criativa, a publicidade serve de exemplo. As grandes agências conseguem os bons clientes e apresentam, tantas vezes, orçamentos significativos. O criativo que teve a ideia, que andou dias à procura de algo original, inovador, capaz de servir o cliente tem a satisfação de ver o seu trabalho aceite ou nem por isso. Se falhar pode ser substituído por outro. Com facilidade. É o talento à la carte sem que o cliente tenha, muitas vezes, a possibilidade de conhecer a pessoa que teve o rasgo criativo. Nas artes é diferente.

No mundo de hoje, quem quer seguir a via artística já sabe que terá obrigatoriamente outro emprego, o tal que assegura as contas e demais encargos. À conversa com uma jovem prestes a fazer o último ano em Belas-Artes, percebo que além de pouca expectativa, o alento não permite, há um desconforto relativo ao futuro. Diz-me: “Faço parte da geração do ordenado mínimo, mesmo com licenciatura e mestrado há muita gente a receber só isso, já nem são as habilitações que importam. É a sorte. No meu caso, será engraçado ver como olharão para a uma licenciatura em Belas Artes”. Depois acrescenta que pode sempre ir dobrar roupa para uma loja de moda ou ir para um cal center da vida. O que gosta de fazer? Pintar. O que gostaria de ter? Dinheiro para comprar telas de dimensões significativas. Gostaria de ter o seu atelier, de experimentar e, claro, de criar o seu universo artístico. Tem 22 anos. É uma jovem que tem a vida à sua frente, mas, por ser criativa, a vida que tem à frente parece-lhe um caminho escuro e difícil.

Importa apoiar estes jovens artistas e permitir-lhes fazer o melhor, porque a Arte é uma forma de identidade cultural, reflecte o tempo e o modo, joga com a história do que vivemos hoje. Não é possível existirmos sem Arte e sem o seu significado. Se a nova geração de artistas se sente limitada não terá grande capacidade de criar. Digo eu. O mesmo é válido, por exemplo, na Literatura. Quantos são os escritores que vivem do seu trabalho de criação? A maioria tem, ou teve, uma profissão paralela.

Somos ambíguos na forma como entendemos a Arte e a sua importância, por um lado apreciamos e admiramos, pelo outro dizemos, enquanto sociedade, que isso de ser criativo não puxa carroça, não é futuro. Para os jovens artistas, é fácil de entender, as pressões são muitas e começam, habitualmente, na família. Assim, em vez de artistas estamos a criar uma geração de artistas frustrados que ainda não fizeram nada e já estão a ouvir dizer que nada farão. Triste? Muito triste.

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