Estão a votos 468 dos 535 lugares no Congresso dos EUA (todos os 435 lugares de deputado na Câmara dos Representantes e 33 dos 100 lugares no Senado), o cargo de governador em 36 dos 50 estados e, também, em três territórios sob bandeira dos Estados Unidos: Guam, ilhas Virgens e Marianas do Norte.

A atmosfera política que envolve estas eleições está a puxar os eleitores para fora da habitual letargia eleitoral.

Os argumentos que mobilizam os cidadãos para estas eleições com campos polarizados são vastos e fortes:

- Ampla parte da população multicultural, sobretudo nas cidades dos estados nas costas leste e oeste, está revoltada e furiosa com a linguagem e estilo provocador de Trump, com tantas indignidades.

- A maioria de quem vive na enorme América interior, a população branca que sente ter perdido relevância nas anteriores presidências, está aguerrida para defender Trump que consideram como o presidente que defende os interesses deles.

- A batalha pela eleição de um juiz com passado controverso para o crucial Supremo Tribunal mobilizou e dividiu os americanos, com grande despertar dos que estão contra as opções de Trump.

- A grande marcha com milhares de migrantes da América Central que neste momento atravessa o México, à velocidade de 50 quilómetros por dia, em direção à fronteira dos EUA, aviva o fantasma, explorado por Trump, de invasão dos EUA por gente que vem de fora e que “rouba oportunidades” aos que sempre foram do país. 

- A matança de 11 pessoas, judeus que participavam numa cerimónia religiosa numa sinagoga de Pittsburgh, crime praticado por um soberanista branco inflamado pelo ódio aos que chegam de fora, reabre, uma vez mais, a discussão sobre o livre acesso e posse de armas de fogo, que Trump defende com veemência – Obama foi uma rara exceção, mas impotente, contra o lóbi das armas.

- As opções de política externa de Trump, marcadas pelo isolacionismo, com rejeição de medidas contra as alterações climáticas, rompimento de tratados, diabolização do Irão e condescendência com a inquietante Arábia Saudita, hostilidade aos tradicionais aliados ocidentais e apoio aos movimentos anti-sistema, populistas e nacionalistas na Europa, chocam os que defendem a América como líder do movimento por um mundo melhor, com mais liberdade e mais solidário.

- O desmantelamento por Trump do sistema de saúde para todos introduzido por Obama, e as duras leis anti-imigração.

- O elenco de colaboradores de Trump envolvidos em escândalos e, alguns, sob investigação, mostra o ecossistema que carateriza a atual presidência dos EUA.

- Os ataques sistemáticos aos jornalistas e à imprensa dos EUA revela como Trump vê a liberdade de imprensa.

- O entusiamo das religiões evangélicas no apoio a Trump, apesar de nos altares os pastores denunciarem comportamentos como o Presidente tantas vezes exibe (materialismo, narcisismo, egoísmo, falsidade, avareza, etecetera).

- A economia dos EUA está em ebulição, robusta, o PIB cresce acima dos 3% e o desemprego está com a taxa mais baixa dos últimos 49 anos – 250 mil postos de trabalho criados em setembro. Trump aposta na redução de impostos – mas esta medida é vista como benefício maior para as classes mais ricas.

Nunca umas eleições de meio de mandato tiveram na agenda de debate temas tão vitais e impulsos tão contraditórios.

O quadro económico dá crédito aos republicanos, o partido que alinha com Trump. Mas, apesar desse trunfo para a propaganda eleitoral, os republicanos estão em alto risco de perderem a maioria na Câmara dos Representantes, o ramo do Congresso que controla os cordões da despesa pública e que tem o poder de “impeachment”. Todas as sondagens apontam para derrota republicana e vitória dos democratas neste parlamento dos EUA.

Os democratas estão à beira de recuperar o controlo de um órgão decisivo no sistema de poder político nos EUA, apesar de não terem uma liderança galvanizadora.

Há neste momento muitas almas dentro do partido Democrata, cada qual a puxar para seu lado. As divisões são fundas: jovens e velha guarda, moderados centristas e esquerdas socialistas, gente que vive nos estados nas costas oceânicas e gente da América profunda.

Um facto funciona a favor dos democratas: estas eleições são locais. São centenas de eleições e cada uma é um caso. Prevalecem o carisma e as simpatias de quem está perto dos eleitores.

O resultado global dos democratas vai juntar os que defendem os EUA governados com moderação ao centro, como é o caso do governador de Nova Iorque Andrew Cuomo ou John Delaney do Maryland, com gente à esquerda como Elizabeth Warren, senadora pelo Massachussets que se impôs no tempo do Occupy Wall Street pelo seu ativismo contra os financeiros, também gente que entra na política à velocidade de um cometa, como Alexandria Ocasio-Cortez superstar socialista em Nova Iorque, ou Stacey Abrams que provavelmente vai ser a primeira mulher negra eleita para o cago de governador nos EUA.

Estas eleições intercalares podem ser uma oportunidade para os democratas voltarem a um tempo de confiança “Yes, we can”. Está para se ver se vão ser capazes de definir uma estratégia e uma liderança que se imponha, que galvanize e capte a imaginação dos cidadãos com novas atraentes propostas de futuro. Também que seja capaz de construir pontes para negociação política com os rivais republicanos.

O Senado, com 100 lugares, tende a continuar com maioria republicana. É um resultado que vai permitir a Trump clamar que não sai derrotado destas eleições. Se, como as sondagens anunciam, perder a Câmara dos Representantes, Trump vai ser obrigado a baixar a arrogância e a negociar.

Nestas eleições vemos o choque entre a onda azul dos democratas e o muro vermelho dos republicanos. É muito provável que traga mudanças.

Há uma questão que também fica para se ver: Obama ressurgiu na ponta final da campanha para estas eleições. Obama vai voltar a ser um nome na cabeça do cartaz político do futuro dos EUA?

A TER EM CONTA:

The New York Times estreia o mapa de evolução das previsões em tempo real. A CNN volta-se para o resultado final.

A National Public Radio propõe-nos um guia para seguir e interpretar a noite eleitoral nos EUA

The Guardian pergunta se esta é a campanha eleitoral mais racista nos EUA.

El País conta como os gurus tecnológicos se mobilizam contra Trump.

The New Yorker escolhe para capa na semana de eleições o gosto de vaguear por Central Park.

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