Há anos que a China organiza uma Cimeira Económica Mundial (World Chinese Economic Summit), destinada sobretudo a organizar a sua expansão na Ásia. Mas este ano, em Pequim, Xi Jinping subiu a parada para a escala planetária. A importância da iniciativa está implícita nos convidados, vindos de cem países, e é evidente no plano apresentado pelo líder chinês. Se alguém duvidava que a ordem internacional está a mudar, este bombástico evento proclamou às sete partidas do mundo que estamos numa nova era.

Durante dois dias os chineses receberam com grande aparato um número impressionante de líderes mundiais, de Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan a Hailemariam Desalegn (Primeiro-ministro da Etiópia), passando por altos representantes europeus (Philip Hammond, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico), asiáticos (Nawaz Sharif, Primeiro-ministro do Paquistão, ou Najib Razak, homólogo da Malásia). Gritantemente ausentes, os líderes europeus (exceto o Primeiro-ministro da Itália, Paolo Gentiloni, e da Grécia, Alexis Tsipras) da Índia e da Austrália. Portugal fez-se representar pelo secretário de Estado da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira.

As ausências, naturais no xadrez geopolítico, ficaram muito aquém das presenças, que mostram bem a importância da China.

Perante o isolacionismo desejado pelos norte-americanos, os chineses apresentam-se agora como os campeões da globalização. Têm massa crítica e vontade, dois valores indispensáveis para a escala de expansão a que se propõem.

“A História mostra que a civilização se desenvolve com a diversidade e que as nações prosperam com o comércio”, disse Xi, acrescentando que o seu projeto é o maior do século XXI e está aberto a todos os países do mundo.

O projeto chama-se “The Belt and Silk Road”, o que tem sido traduzido em português por “A Rota da Cintura e da Seda”, ou “Uma Faixa, uma Rota” ou ainda “A Nova Rota da Seda”.

O nome lembra a famosa Rota da Seda que uniu a China aos mercados ocidentais durante séculos e que se desfez quando as guerras e inimizades, assim como o comércio marítimo a tornaram obsoleta. Está na altura de reativá-la – sob a batuta da China, evidentemente.

Na prática, a Rota consiste numa série de percursos ferroviários e rodoviários, oleodutos e portos, que se estendem da China até à Europa, com variantes pelos países do Sul da Ásia, passando pela Índia, Irão e Turquia, e chegando à África através da Etiópia.

Até à data, 56 países aderiram à ideia, mas outros veem com desconfiança o que lhes parece ser uma iniciativa imperialista e extremamente dispendiosa, que lhes acarretará dívida a longo prazo. Pois o projeto tem um custo astronómico, da ordem dos 900 mil milhões de dólares. Como será pago? Em grande parte, pelo sistema de dominação colonial clássico: os bancos chineses fornecem os empréstimos, que servirão para pagar as obras feitas por empresas chineses, sob a orientação de engenheiros e trabalhadores chineses. Os países por onde a Nova Rota da Seda passa poderão, assim, receber os produtos chineses a troco de dívidas imensas que levarão décadas a pagar. Em certas situações pontuais a vantagem da China é evidente, como o porto no Paquistão que permitirá escoar produtos chineses para África com um frete muito mais baixo do que o atual. O Paquistão também beneficia com as suas exportações, mas terá de pagar o investimento e a utilização do porto. Já há o precedente do porto de Atenas, que os chineses exploram há anos.

Para países pobres, sem infraestruturas e sem capital para as construir, o investimento chinês é benéfico, na medida em que gera emprego e anima as economias, possibilitando também as suas exportações e trocas internas. Por outro lado, os países mais industrializados, não querendo ficar fora da Rota, também não veem com tanta alegria o que consideram uma interferência e controlo das suas trocas comerciais.

À cabeça, a Índia, eterna adversária da China, não quer participar. A Austrália, sempre preocupada com a expansão chinesa, também não vê grandes vantagens. Já a Federação Russa está interessada, mas Putin mostrou um entusiasmo cauteloso. Os europeus, representados por secretários de Estado e funcionários de segunda linha, não assinaram a declaração final da Cimeira por acharem que certos aspetos não ficaram suficientemente claros – nomeadamente a sustentabilidade e correção ambiental dos projetos. Uma enxurrada de capitais chineses nunca é vista com bons olhos, pois a experiência mostra que os custos são altos, tanto em termos financeiros como de poder de decisão estratégico.

De qualquer modo, a expansão da Rota da Seda parece imparável. Infra-estruturas importantes já estão em andamento na península da Indochina, assim como o caminho-de-ferro e as estruturas para o porto paquistanês. O financiamento, além dos bancos chineses, já foi prometido pelo Asian Development Bank, o Asian Infrastructure Investment Bank, Banco Europeu de Investimento, New Development Bank, e Banco Mundial.

Mesmo que não seja universalmente vista com bom olhos, a iniciativa chinesa acaba por beneficiar da ausência de concorrência – nenhum outro país ou organismo tem o poder, fundos e crédito para um empreendimento destas dimensões.

Assim como os norte-americanos têm, no presente, um poder militar único, os chineses adquiriram uma iniciativa comercial sem paralelo. A História tem mostrado que dominar pelas armas é dispendioso e esgotante, enquanto o domínio comercial traz desenvolvimento e lucro.

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