Voltarmos à rua, às lojas, aos cafés ou aos cinemas, de um dia para o outro, apenas, talvez, com o acrescento de uma máscara a tapar a boca e o nariz, seria como entrarmos num jogo de roleta russa em que até há mais de um cartucho nas câmaras do revólver.

A tão esperada, mas talvez ainda necessariamente demorada, decisão política de regresso aos contactos tem de estar baseada em critérios médico-científicos precisos. Para não estragar os resultados do bom desempenho, do extraordinário pessoal sanitário, dos acertados decisores políticos e da responsável cidadania.

A tarefa de organizar o recomeço é muito delicada. Como garantir que o regresso dos beijos, dos abraços, dos almoços e dos jantares na barra ou na mesa de um restaurante não traz uma nova vaga da covid-19.

O recomeço deve ser simultâneo, em todas as atividades e em todo o país, ou deve haver faseamentos? Deve ser adotada alguma restrição temporária às populações mais idosas, mais vulneráveis? Que percentagem de lotação admitidas nos estabelecimentos que reabrem? Por quanto tempo terá de durar essa primeira etapa da frase transitória, com a manutenção de distâncias de segurança?

É de imaginar que bares, discotecas, festivais e espetáculos desportivos sejam os últimos a reabrir.

O recomeço pode coincidir logo com a reabertura incondicional de fronteiras e liberdade de movimentos internacionais?

Os cientistas que orientam a decisão política vão, certamente, condicionar as recomendações ao resultado de testes serológicos para detetar a presença de anticorpos dirigidos contra a covid-19, indicador do grau de imunidade na população. Se a percentagem de população imunizada for expressiva, o recomeço poderá ser mais robusto. Obviamente, essa avaliação serológica, é, também, complexa e demorada. Há peritos que sugerem que se comece pelos profissionais da saúde, poderão ser uma amostra representativa do conjunto da população.

A circulação deste coronavirus está a ser avaliada em diversos países através dos pessoais fornecidos pelos telemóveis de cada um de nós. Isto está acontecer de modo coercivo na China e em modo relativamente consensual na Coreia do Sul e em Singapura. São modos intrusivos da privacidade que, mesmo nestas circunstâncias excecionais, devem ser discutidos. Parece-me absolutamente necessário garantir que o eventual acesso a esses dados fique, limitado, no tempo, com proteção da privacidade de cada um de nós e de todos, aos cientistas que cooperam com a autoridade sanitária.  A proteção dos dados pessoais é uma boa conquista do tempo antes da covid-19.

É dever do poder público, representado pelo governo e pela DGS (opinião pessoal: têm feito, acertadamente, em modo confiável, o que deve ser feito, ainda que haja quem ande a pretender valorizar falhas que todos no mundo tiveram), preparar tudo, minuciosamente, com toda a prudência, de modo a que o país possa retomar a atividade e que a atividade económica possa procurar as melhores condições para regresso, com o cuidado de prevenir, com o máximo de exigência, a possibilidade de sucessivas novas vagas da calamidade deste malfadado covid-19.

Temos de estar preparados para uma fase em que, possivelmente, estaremos em retoma e a conviver com o vírus. Implica estarmos bem acautelados. Provavelmente, a nossa vida não vai poder ser a mesma por muito tempo.

Uma das consequências da covid-19 é a reabilitação do decisivo papel central do Estado. Por toda a parte.

Os Estados Unidos da América somaram em duas semanas mais de 10 milhões de desempregados. Serão, dentro de dias, 15 milhões. Nos muito liberais EUA, Donald Trump mobilizou a colossal, inimaginável quantia de 6.200 milhões de milhões de dólares (ele disse: triliões) para o chamado “CARES ACT”. Em língua inglesa, “cares” remete-nos para cuidados, sim, é isso, mas este “cares” é, de facto, acrónimo de Coronavirus Aid, Relief and Economic Security, ou seja, Ajuda, socorro e segurança económica  em tempo de coronavirus”. É uma solidariedade liderada pelo Estado, que está a valer na sociedade liberal dos EUA, que está a valer em vários dos países europeus, entre os quais Portugal, e que terá de ser decisão comum da União Europeia, para que a união, para além de ter uma moeda e parecer económica, seja também política e social.

A covid-19 é uma ameaça séria à saúde e à sociedade. Também à União Europeia, que pode ter no vírus uma oportunidade para se afirmar como, de facto, uma união, que consegue curar-se e responder às aspirações dos cidadãos.

A TER EM CONTA:

"Murder Must Foul" é um lamento fúnebre de Bob Dylan, génio musical e poético transversal a sucessivas gerações, por JFK e pelo que aquele presidente da América dos distantes anos 60 fez sonhar.

A pergunta colocada pelo The New York Times: como saberemos que chegou o tempo de reabrir?

Como um grande jornal, The Guardian, está a ajustar-se, como este compromisso ao tempo covid-19. Também exemplar, vale relembrá-lo, o código de conduta editorial definido pelo SAPO24 antes ainda do primeiro dia do nosso Estado de Emergência.

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta, esta, esta, e esta.

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