1. Por motivos de desintoxicação, não vi a posse de Bolsonaro no primeiro dia do ano. E só agora fui à Net ver aquele instante em que um cavalo o impediu de avançar. Quanta esperança concentrada em quatro cascos! Bem espernearam, resistindo à rédea. O domador (do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, também conhecido como Dragões da Independência) deve ter visto a vida a andar para trás. E logo atrás ia o eleito no Rolls Royce, com a sua princesa de rosa-suave, braços livres para falar a linguagem dos surdos. Se Evita, a original, disse que só se casaria com um príncipe ou um presidente, Michelle tem um presidente que fará das mulheres princesas, e dos homens príncipes, libertando-os da maléfica ideologia de género. Não me confundam. Viva o rosa em todas as encarnações! Noel & Guimarães, Iansã, México ou Mangueira! Tudo a favor dos surdos, nada a favor das Evitas. Obrigações do Estado não são caridade de primeira-dama. Tal como areia para começar o ano é na praia, não na vista.

Para muitos milhões — todos os que torcemos por aquele cavalo, no mínimo socialista —, dia 1 em Brasília soou como um certo fim de mundo. Mas vale lembrar que o mundo já acabou muitas vezes. No Brasil, acabou mesmo antes de aquela terra se chamar Brasil, para os índios que lá moravam em 1500.
O Brasil já nasceu na luta. Em tupi-guarani, aliás, quer dizer vermelho.

2. Ah, mas dia 1 não foi só rolê de Rolls Royce. O Capitão Bozo não parou de bulir. Em menos de 24 horas já tinha detonado vários ministérios, secretarias e direitos, o futuro dos índios e da Amazónia ou o aumento do salário mínimo. Isto, ao mesmo tempo que lançava privatizações, liberava armas vitalícias e confirmava a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.
Tudo a condizer com a Estrela de David que entretanto ondulava ao lado da nova ministra (e pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular) Damares Alves, em mais um vídeo inesquecível, no qual ela declara: “Menino veste azul e menina veste rosa! É uma nova era no Brasil!” Acabaram os ministérios do Trabalho, da Cultura, das Cidades, Esportes e Integração Racial? Ora, em compensação foi criado o ministério à altura de Damares, uma mulher que há muito devia ter sido tratada psiquiatricamente. Noutro vídeo ainda, ela esclarece: “O estado é laico mas esta ministra é terrivelmente cristã. E neste governo menina será princesa e menino será príncipe, está dado o recado!” Falou, pastora.

3. A parte do futuro dos índios também tem a ver com Damares, e o seu Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Porque a Funai, a Fundação Nacional do Índio, passa a estar sob a sua alçada.
Mas Bolsonaro teve a gentileza de a esvaziar antes, decerto para não pesar tanto. Onde antes cabia à Funai demarcar áreas indígenas, agora isso será feito pelo Ministério da Agricultura, desde dia 1 também chamado Ministério do Agronegócio, dado que a empossada ministra Tereza Cristina era a líder da bancada do agronegócio na Câmara dos Deputados, também chamada de Bancada do Boi. Tradução: os índios e a Amazônia estão na mão do inimigo.
E isso vem bem a tempo de travar os 128 processos de demarcação em curso, que envolvem mais de 120.000 indígenas de várias etnias.
Nada que surpreenda, tendo em conta que há tempos Bolsonaro ameaçou até tocar numa das maiores conquistas indígenas, a demarcação da área conhecida como Raposa Serra do Sol, em Roraima, feita em 2005. Lula podia ter feito muito mais pelos índios e pela Amazônia, mas essa foi uma decisão do tempo dele. Visão de Bolsonaro: “É a área mais rica do mundo. Você tem como explorar de forma racional, e no lado dos índios dando royalties e integrando o índio à sociedade.” Por rica, ele está a pensar nas reservas de nióbio e urânio.

Sendo tão simbólica, a Raposa dificilmente será tocada. Mas já vimos demasiado, neste fim do mundo, para pôr as mãos no fogo.

4. Damares, a estrela pastora, ganhou ainda algumas outras transferências. Por exemplo, a Comissão da Anistia, criada em 2002, com Lula, para “reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988”, foi tirada ao Ministério da Justiça e entregue a Damares. Tal como a pasta LGBT. No próprio dia da posse, Bolsonaro retirou-a oficialmente da lista de Directrizes dos Direitos Humanos, e passou-a para o ministério de Damares.

5. Outras novidades das primeiras horas. Bolsonaro anunciou que vai demitir os funcionários com ideias “comunistas”; extinguir a Justiça do Trabalho por “excesso de direitos” para os trabalhadores; libertar as chefias diplomáticas para nomeações políticas; privatizar a Eletrobras, apesar do veto do Congresso; impor a prisão de condenados em segunda instância; extinguir o Conselho de Segurança Alimentar, que orienta o combate à fome e o Bolsa Família; aumentar a idade da reforma. Entre a escrita desta crónica e a sua publicação, esta lista estará decerto desactualizada.

6. Um ponto à parte para destacar uma decisão doméstica. Bozo e Michelle mudaram-se para o Palácio da Alvorada, mas retirando as emblemáticas cadeiras da esplanada, porque eram vermelhas. É que, como Bolsonaro disse na sua posse, é chegado o momento de acabar com o socialismo no Brasil, quanto mais o comunismo. Funcionários, cavalos, cadeiras, saibam que Deus vê tudo e Bozo é o seu enviado!
Um dos novos ministros (Tarcísio Gomes de Freitas, com a pasta da Infraestrutura) não hesitou em dizê-lo, em plena posse: Bolsonaro foi o “escolhido de Deus”.

7. Entretanto, a grande imprensa brasileira, que tanto contemporizou com o que aí vinha, teve o seu aperitivo do que aí vem. Leiam a descrição do decano Jânio de Freitas, uma daquelas vozes que já rareiam no jornalismo:
“Eram 1500 jornalistas na cobertura da posse de Bolsonaro. Entre serem revistados ao menos duas vezes, obrigados a se apresentar 7 horas antes da posse, serem confinados em cercadinhos sem cadeira, sem alimento, sem direito de ter maçã, iogurte ou garrafa de água; com restrição de acesso a banheiro e bebedouro, o planejado para os jornalistas foi humilhação generalizada. Nem por isso a dignidade da profissão mereceu mais do que o aborrecimento pessoal. Se respeitada, com a reação proporcional levando à retirada geral, a ausência de cobertura reverteria para Bolsonaro a lição que seu general planejador quis para os repórteres. Mas só uns poucos jornalistas estrangeiros se retiraram.”

8. E alguns media portugueses estão tão ofuscados com o fenómeno Bozo que até anunciam o aumento do salário mínimo como primeira medida. Não, bozocegos. Ele tirou oito reais ao aumento já aprovado pelo Congresso.
Depois, de que se lembrou uma das três televisões lusitanas? Convidou um neo-nazi, condenado há vinte anos por envolvimento no homicídio de um português negro, deu-lhe tempo para fazer a apologia de Salazar, e ainda foi para a rua sondar “os portugueses” sobre se precisamos de um novo Salazar.
Bozais de todo o mundo unidos. Ou, como diz um cartoon genial publicado ontem pelo brasileiro Odyr Bernardi: “Nunca houve um momento melhor para ser idiota”

Estamos no ponto em que isso já pisa a Constituição, vira crime.

9. Falta de inteligência não é um problema de Marcelo Rebelo de Sousa. O que só torna mais problemática a sua recente actuação em Brasília. Digo actuação porque se trata de um performer nato.
Marcelo não só foi à posse como esteve vinte minutos reunido com Bolsonaro. “A reunião foi muito boa, foi formalmente muito boa, foi substancialmente muito boa”, declarou aos jornalistas, no final do encontro. “Como eu disse, e como disse o Presidente Bolsonaro, era uma reunião entre irmãos, e entre irmãos o que há a dizer diz-se rápido, como se diz em família, e há uma empatia natural entre povos que facilita fazer passar a mensagem.” Mais, anunciou “entre o final de 2019, mas provavelmente princípio de 2020, uma eventual ida do Presidente Bolsonaro a Portugal”.
Dou de barato que Marcelo fosse à posse, num país com uma comunidade de origem portuguesa tão grande (que maioritariamente, e sem surpresa, votou Bolsonaro). Dou até de barato a reunião três vezes “muito boa”. Mas Marcelo tinha que ter dito algo em público que o demarcasse, e demarcasse a democracia portuguesa, das já claras inflexões não-democráticas. Ou seja, não acho que o problema seja Marcelo ter ido. Acho que devia ter ido, e fazer o que como poucos sabe fazer, passar mensagens nas entrelinhas. Marcelo, mestre de dizer uma coisa e o seu contrário, podia ter dito o mínimo necessário publicamente, seja o que for que tenha dito nos vinte minutos em privado. Escolheu não o fazer.
Cá estaremos, entre o final de 2019, começo de 2020, para dizer a Bozo o que pensamos. Se ele aguentar até lá.
Entretanto, seremos todos socialistas, comunistas, índios, gays, mulheres de todas as cores, cavalos vermelhos e o que bem nos der na telha. Avante Brasil!

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