O jornalista Peter S. Goodman, correspondente internacional do The New York Times, publicou há um ano o livro Davos Man: How the billionaires devoured the world. Conta neste livro que há muitos empresários que nos quatro dias do Fórum em Davos fazem mais negócios do que em todo o resto do ano. Estão todos juntos em clima propício aos negócios.

Este encontro cimeiro em Davos tem o mérito de gerar debate sobre o que preocupa o mundo. Não costuma ter remédios, mas os sensores de Davos ativam a procura de respostas.

Aos empresários e banqueiros passaram, a partir da entrada neste século, a juntar-se chefes de Estado e de governo, ministros e conselheiros, académicos e estrategos. Na última década (com pausa nos anos da pandemia) tornou-se atrativo no cartaz a presença de gurus da inovação e tecnologia, também de artistas e celebridades. Leonardo di Caprio, George Clooney, Bono, Idris Elba, Guardiola e Shakira também são – entre outras -  personagens de Davos. Greta Thunberg tinha 16 anos quando, em 2020, fez o discurso da “casa a arder” que levantou todos em aplauso e mobilizou opiniões para a emergência climática.

A agenda de Davos costuma ser dominada pela confiança e pelo incitamento à expansão da globalização. Desta vez, com a ordem mundial em grande desordem geopolítica e novas linhas de fratura, a resposta ao sobressalto e às emergências marca a edição 2023 que decorre por toda esta semana.

O tema principal neste ano passa mesmo pelos riscos que ameaçam o progresso do mundo, da guerra na Ucrânia à inflação descontrolada que está a agravar a pobreza, da escalada das alterações climáticas ao crescendo de populismos e baixa das possibilidades de diálogo.

Há a tradição de o dia da abertura do Fórum Económico Mundial de Davos ser o da divulgação do relatório anual da ONG Oxfam sobre as desigualdades no mundo. O dado principal neste relatório de 2023 causa impacto: pela primeira vez nos últimos 25 anos há aumento simultâneo da riqueza e da pobreza extremas. É especificado que o 1% de população mais rica se apropriou de quase 2/3 da nova riqueza criada desde 2020. Daí a proposta no relatório Oxfam de profunda revisão da fiscalidade internacional. É chamada a atenção para o facto de metade dos mais multimilionários pelo mundo ter residência fiscal em países de baixos impostos. A Oxfam preconiza uma nova taxação do super-ricos: o ”aumento generalizado dos impostos sobre os mais afortunados”, de modo a que possa começar algum reequilíbrio global.

Os novos multimilionários da Rússia tornaram-se presença nos últimos 30 anos do Fórum de Davos. Em articulação com o Kremlin reconverteram um café-pastelaria de Davos em “Casa da Rússia”, onde por entre vodka e champanhe promoviam receções e negócios. Neste 2023 os russos estão banidos de Davos e o café que até aqui era a Russian House chama-se, desde maio do ano passado, Russian Warcrimes House (Casa dos Crimes de Guerra da Rússia) e acolhe uma exposição de fotografias da guerra na Ucrânia. Há ecrãs que mostram vídeos com reportagens da guerra, mapas dos lugares bombardeados e listas de vítimas. A Ucrânia vai seguramente receber reforço de apoios.

As circunstâncias políticas, económicas, ambientais e sociais deste Davos 2023 não têm precedentes desde a criação, em 1971, pelo alemão Klaus Scwab, do que designou como World Economic Forum. Scwab, agora com 84 anos, continua a ser o organizador e anfitrião. Na mensagem de abertura denunciou “as práticas políticas egoístas e de curto prazo” que estão a gerar um “círculo vicioso”. Desejou como esperança “o regresso do mundo à antiga normalidade”.  

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