Em 2018, tive muita vontade de escrever sobre os nomes que já irei revelar, mas acabei por permitir que outros assuntos os ultrapassassem. Antes que o ano se esgote, vou brevemente abordar esses dois impreteríveis que a dada altura preteri.

1 – Joana Marques Vidal

Primeiro as senhoras, e, neste caso, não é qualquer cavalheirismo básico, nem concessão feminista, nem o preenchimento de quotas. Joana Marques Vidal é uma das nossas maiores figuras do ano, exactamente porque foi uma das maiores figuras dos últimos anos. O facto de ser discreta na sua acção não amnistia esta minha pulhice: nada escrevi sobre ela até hoje.

Há muito por onde pegar para louvar a antiga Procuradora-Geral da República, nem que seja pelo contraste com a (in)acção dos seus predecessores. Marques Vidal foi a mulher que pôs a mão na massa, e estamos a falar no contexto de uma nação cheia de mãos sujas, mãos enluvadas e massas suspeitas. Portugal afinal não era o país de brandos costumes, era sim o país dos costumeiros intocáveis – o mandato de Joana na Procuradoria-Geral da República fez-nos acreditar que isto podia mudar, e agora a sua substituição (num processo que quanto mais sensato se apregoava, mais espúrio soava) faz temer o regresso dos inatingíveis.

Aparentemente, também passámos de ser um país de analfabetos para um país de gente que adora discursos. As intenções políticas de combater a corrupção andavam magníficas ao nível retórico; talento extraordinário este, de gente que conseguiu usar a mesma boca para, simultaneamente, discursar para a frente e assobiar para o lado. Joana Marques Vidal tornou-se incómoda porque, num poder separado do político, teve o desplante de fazer o que lhe competia. Não cedeu ao esmorecimento estratégico que pareceu afectar outros no seu cargo, sobretudo quando se farejavam certas potestades. Para a fogueira, mandou menos escutas do que impunidades; era como se, até então, fosse mais urgente impugnar uma prova do que uma vaca sagrada.

Há quem diga que as acções e motivações da ex-Procuradora são discutíveis. Não aqui. Neste cantinho que eu assino, nada disso é discutível. Estamos tão habituados à passividade da incompetência, ou à competente passividade, que somos mais rápidos a suspeitar de quem age. Desconfiamos da eficiência. Conspiramos contra a coragem.

Ninguém me desconvence: estou convicto de que a substituição da Joana Marques Vidal teve cariz político; estou convicto de que a não-recondução se deveu ao incómodo, ao medo, e a uma tentativa de reinstaurar certas impunidades; estou convicto de que as recomendações constitucionais para a sucessão não passaram dum balde de areia para os nossos olhos. Uma patifaria. Deixem lá o “Can’t touch this” para o M. C. Hammer, não para os martelos dos juízes.

2 – Conan Osiris

“Ai que prazer/não cumprir um dever”, dizia o Fernando Pessoa no seu poema “Liberdade”. Pois, agora que me preparo para destacar o Conan Osiris, vou entregar-me ao prazer de não o descrever, como seria devido. Nem é que o Conan seja indefinível ou indecifrável – há até um extenso rol de características e influências com que podemos abordá-lo –, mas outras coisas interessam-me nesta escolha. Para já, sou reservado na minha percepção do fenómeno “Conan Osiris” exactamente porque a surpresa inicial gerou mais expectativas do que confirmações, e então aguardamos surpresas futuras que consolidem todas as suspeitas; provavelmente só saberemos enquadrar a identidade do músico através do seu próximo passo, o seu segundo lote de canções. A singularidade do artista exige mais do que a espantosa amostra que dele já temos.

No entanto, o que me apraz dizer sobre a relação de 2018 com o Conan Osiris transcende a identidade do músico, e mede pulso a alguma identidade do país. É verdade que a popularidade do Conan nem é a mais abrangente que conhecemos, mas por outro lado há muito que o burburinho se transformou em burburão. Não se trata dum fenómeno do qual possamos arredar o país como um todo.

No dia em que escrevo isto, verifico que uma considerável parte das listas musicais de “melhores do ano”, quer em rádios quer em publicações especializadas, contempla o disco “Adoro Bolos” nos lugares cimeiros. Considero as nomeações justíssimas. Da mesma forma que a música do Conan me soa despretensiosamente pop, também as distinções dos críticos me parecem arredadas de qualquer vício pretensioso, e não distinguem o artista só pelo exotismo. Aliás, o rápido entranhar deste músico estranho é um mérito partilhado: tanto se deve ao talento e originalidade do Conan como se deve à abertura de quem o escuta.

Talvez eu esteja a querer forçar o optimismo da história. Ainda assim, num país tão rápido a entronizar alienígenas musicais pelas suas fraquezas, é louvável que se esteja a entronizar este alienígena pela sua qualidade. Se Conan fosse só estrambólico, se não fosse bom, não teria tido esta veloz cavalgada de sucesso.

Fico contente por perceber que ainda temos capacidade para produzir e captar originalidade. Contente por haver uma réstia de reconhecimento de intervenções artísticas, mesmo quando elas se escondem em expressões corriqueiras como a música pop. Contente por termos aprendido a lição variaçónica de não enjeitar o ímpeto extravagante da nossa cultura. Talvez o segundo disco do Conan me contradiga mas, até lá, considero que o Portugal do Osiris é mais civilizado do que o Portugal sem ele.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO (edição gastronómica)

As recomendações prendem-se com as minhas descobertas mais assinaláveis no ano que finda. Serão apenas três, e em ordem crescente de preço.

Não vou dizer o nome da minha primeira sugestão por motivos que acabarão por entender. Falo dum restaurante que fica meio escondido nas galerias externas dum prédio ali pela zona da Graça em Lisboa, na Rua Natália Correia. Duas nepalesas são o rosto da minúscula casa, e depois a cozinha revela-se tão sincera, quanto simples, quanto deliciosa. É como um tasco de street food asiática, mas sem ser na street. Carta reduzida, como deve ser, mas ainda assim cheia de surpresas bem confeccionadas. As pakoras são o petisco ideal, seja qual for o contexto. Os momos, sobretudo quando mergulhados num caldo límpido de vegetais, parecem ter a capacidade de curar qualquer maleita. O chili agridoce de frango é de arrebitar os mais mortiços. E, para rematar, o preço afigura-se tão ligeiro que saímos de lá sempre a achar que se enganaram a nosso favor. O nome do restaurante não digo, porque nunca o decorei (ou talvez, apesar da recomendação, queira manter este segredo bem resguardado).

Segunda sugestão é o Cais da Pedra. Há já alguns anos que lá vou, tanto pela proximidade de minha casa, como pelo conforto da extraordinária bochecha de porco. Há que confessar que esta casa do chef Sá Pessoa é, acima de tudo, uma dessas hamburguerias modernas que despontaram massivamente na última década. É verdade que o fenómeno do hambúrguer gourmet foi tão ostensivo que rapidamente se banalizou e tornou irritante. Mas também é verdade que o snobismo crítico para com o fenómeno das hamburguerias também se banalizou, também se tornou irritante. Assim sendo, mais vale destacar o que é bom do que rejeitar o conceito por si só. Neste sentido, destaco o Cais da Pedra, mesmo que sejam poucos os hambúrgueres da carta que já provei - há no entanto um que motiva completamente a minha recomendação: chama-se Rossini, e será muito difícil provarem-me que não é um dos melhores hambúrgueres do mundo. Se não estiverem para aí virados, há outros motivos de atracção, quer seja a proximidade do Tejo, as azeitonas kalamata ou a digníssima carta de cocktails.

Terceira e última sugestão será mais curta na descrição, porque exigiria poesia e eu não estou nos meus dias. Casa de Chá da Boa Nova, onde a genialidade do Siza Vieira encontra o talento e a simpatia do Chef Rui Paula. Estou-me pouco a ralar para discussões pacheco-pereirianas sobre o que é “comida”; sinto o chamado das rochas de Leça da Palmeira, e das iguarias aquáticas do Rui Paula.