É o costume: perante uma crise temos alguns dias com "infobesidade" sobre esse assunto, mas é logo depois posto de lado e esquecido.  

Aconteceu assim em março, quando por duas semanas ficámos mergulhados em notícias sobre o inferno terrorista de Cabo Delgado; depressa, com raras exceções, voltámos ao desconhecimento sobre a vida das pessoas naquele martirizado norte de Moçambique. Tinha sido semelhante, no começo de fevereiro, com novo golpe da junta militar em Myanmar e com a dama de Rangoon, Aung San Suu Kyi, outra vez a perder o pedaço de poder e toda a liberdade; nunca mais demos atenção aquele pesadelo que continua no sudeste asiático. 

Com o passar do tempo também deixámos de saber de tantos refugiados que todos os dias continuam a tentar entrar na Europa. Tal como ignoramos o destino das vítimas do Boko Haram na Nigéria e de outros terrorismos na massacrada África central. 

Falta-nos notícia e a reportagem sobre tormentas sociais na vida pelo mundo, mas abunda em muitos media o relato e discussão sobre as tantas quezílias da baixa intriga quotidiana.    

O Afeganistão e o Haiti são histórias antigas com episódios intensos nestes últimos 20 anos. Neste tempo calhou-me viajar em trabalho uma vez a Cabul e outra a Port-au-Prince.

O Haiti é, inquestionavelmente, um país com Estado falido, mártir da nossa indiferença. Começa por aparecer, da janela do avião, um lugar de paraíso, com mar de sonho e montanhas luxuriantes. Até parece demasiado cartaz turístico de maravilhas naturais. Quando pisamos a terra dos 11 milhões de haitianos a realidade é, afinal, o caos e a pobreza. 

É difícil encontrar um país mais sofredor com sucessivas tragédias. Algumas provocadas por fúrias da natureza, outras por desastres com nome próprio de gente ruim que os causou.

O Haiti foi o primeiro país no mundo a rebelar-se contra a escravatura. Foi em 1803, quando souberam impor-se ao poder colonial da França de Napoleão. Hoje, a submissão do povo haitiano a novos poderes é uma desgraçada realidade.

À medida que entramos no conhecimento da vida nesta ilha depressa começamos a perceber que o caos geral é agravado pela corrupção, pela falta de Estado de Direito e pela criminalidade muito ligada ao narcotráfico. E este século XXI continua marcado pelas terríveis ditaduras dos Duvalier que o país sofreu na segunda metade do século XX: Papa Doc (1957-1971) e o filho, Baby Doc (na continuidade, até 1986).

O Haiti tentou levantar-se. Mas o tremendo terramoto de 2010 não só levou mais de 300 mil vidas como deixou uma lastimável história ligada ao que era suposto ser o socorro internacional. Multiplicaram-se, nos anos seguintes, denúncias de corrupção e também de abusos sexuais por parte de quem era suposto ter chegado para ajudar. Cresceu no Haiti o sentimento de que os representantes da comunidade internacional não só contribuíram para agravar a noção de que a terra deles era tratada como república das bananas e país sem Estado, ao mesmo tempo que se instalou o rumor de que foram os estrangeiros quem precipitou a brutal epidemia de cólera.

A realidade está à vista de todos: os fora da lei passaram a ser o poder mais forte nesta desgraçada metade da ilha La Española, que tem a República Dominicana a funcionar na metade ocidental. Os assaltos, assassinatos e sequestros para obtenção de resgate tornaram-se história recorrente nestes últimos anos no desgraçado Haiti.

Esta engrenagem da violência extrema levou ao assassinato, no mês passado, do presidente haitiano, Jovenel Moise, abatido na residência por um comando com uns 20 matadores profissionais. Ficou assim evidenciado como nem mesmo aquele que desempenha o cargo de mais alta autoridade do Estado é poupado no furacão da miséria dos vários tráficos e ajustes de contas no país.

O caso foi notícia por uns dias. Depois, o Haiti voltou a ficar distante da atenção do mundo, entregue ao destino danado comandado por grupos do crime que se movem na impunidade – mas também à mercê das fúrias da natureza.

No sábado no meio deste agosto, dia 14, um outro terramoto, também devastador, acrescentou desastre às desgraças. Morreram umas 2200 pessoas, 10 mil feridos sofreram com a falta de socorro e há dezenas de milhares que ficaram sem o que tinham como casa. Agravou-se a miséria, a fome e a sede, a que se juntou a ameaça de uma tempestade tropical, Grace, que (vá lá!) acabou por poupar o Haiti. 

Mas o mundo, desta vez, não deu atenção aos novos trágicos episódios no Haiti, porque as atenções foram desviadas pela súbita imparável entrada dos taliban em Cabul, avançada que a deserção geral das tropas governamentais afegãs tornou fulgurante.

É um facto que este agravamento da crise afegã merece atenção duradoura – mas é provável que, como costuma acontecer, daqui a alguns dias o assunto desapareça das notícias.

Somos levados a supor que o Afeganistão voltou à realidade taliban de 2001. Mas a realidade de hoje já não é a de há 20 anos. A ocupação pelas forças ocidentais, incluindo 4.500 mulheres e homens das forças armadas portuguesas, introduziu mudanças que são irreversíveis. A mortalidade infantil no Afeganistão ficou drasticamente reduzida; agora, a taxa é menos de metade da de há 20 anos. Em 2001, quase nenhuma menina ia à escola; agora, uma em cada duas sabe ler e escrever. Em 2001, apenas 20% da população afegã tinha acesso a eletricidade em casa; agora, a energia elétrica chega a quase todos, pelo menos nas vastas áreas urbanas. 

Os muitos relatos que nestes dias nos chegam do Afeganistão geram sobressalto. Teme-se que se generalizem os sinais de crueldade e a fome de vingança já está à vista em alguns grupos taliban. 

As mulheres vão ter de voltar a submeter-se a normas de há muitos séculos? Vão poder continuar a trabalhar, a frequentar a universidade, a caminhar pelas ruas e a praticar desporto sem a tutela de um parente masculino? Vão poder continuar a escolher o parceiro que querem?

O discurso dos dirigentes taliban de agora, apesar de áspero, não tem a crueldade do dos antecessores há 20 anos. 

Saber dialogar com o governo que vai instalar-se e que vai precisar de ajuda internacional é, certamente, um modo para atenuar o risco de derivas violentas.

A China já se impõe como o principal interlocutor internacional do novo poder taliban em Cabul. A cooperação de Pequim com o novo poder afegão vai depender da relação que este tiver com os grupos islâmicos, sobretudo os uigures, na região de Xinjiang. 

A Europa só tem a perder se não souber dialogar e negociar com os novos mandantes em Cabul e todos temos o dever de acolher os refugiados daquela terra que nestes últimos 20 anos tentámos ocupar e transformar. A ocupação pelos EUA começou por ter o objetivo de neutralizar o Afeganistão como base para a Al-Qaeda. Depois, com o envolvimento dos aliados na NATO, foi desenvolvida a ambição de construir no Afeganistão um estado democrático viável. Os esforços foram gigantescos e multimilionários, mas chocaram com as montanhas de incompreensão das estruturas tribais, com a incapacidade, a cultura de corrupção, incompetências e a endiabrada geografia e cultura local. Uma vez mais, tal como antes aconteceu com britânicos e soviéticos, nenhuma força exterior consegue impor-se no Afeganistão.

A desastrosa execução da fase final da retirada ocidental do Afeganistão abre um horizonte de grandes incertezas.

É imprescindível que o jornalismo se mobilize para continuar a relatar com rigor, a partir do interior do Afeganistão, o que acontece neste país. O jornalismo é um meio vital para que não haja silêncio a cobrir violações de direitos humanos e nova escravatura sobre mulheres afegãs.

Está evidenciado que os sucessivos poderes taliban não toleram o escrutínio do jornalismo. Importa que as negociações político-diplomáticas tratem de garantir que seja possível a presença e o trabalho de repórteres internacionais no país.

Uma das grandes ameaças para as mulheres afegãs, como para a continuação da indiferença internacional com a desgraça do Haiti, é a de ficarem no abandono pelo jornalismo.

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