O relato com voz própria é de sempre. Toda a humanidade encontrou sempre uma poesia para dizer – e para cantar: já era assim quando os trovadores medievais davam música às palavras. Mas as tecnologias têm ampliado, de modo sempre crescente, as possibilidades de comunicação de notícias, histórias, saberes e de arte.

Jean-Paul Sartre colocou em 1947 uma pergunta (“qu´est ce que la littérature?”) que estimulou o debate sobre o que se escreve, sobre como a prosa se serve das palavras e como a poesia serve as palavras, sobre o estilo e sobre o comprometimento de quem escreve.

Bob Dylan tem sido um mestre em todo este último meio século a percorrer os caminhos da palavra e do imaginário. É um sábio a construir pontes com toda a arte. É brilhantíssimo o modo como usa a linguagem e como lhe dá um corpo poético. Num contexto oral que também tem um contexto escrito. Sempre com grande inteligência.

Tomemos o exemplo de um dos poemas mais cantados e mais ouvidos, Blowin’ in the wind. Dylan, em três versos curtos, confronta-nos com a guerra, com a injustiça, com o racismo. Ele pergunta-nos quantos oceanos a pomba branca tem de percorrer para poder descansar num areal, quantas balas de canhão devem voar antes de serem banidas para sempre, quantos anos algumas pessoas terão de viver para poderem ser livres, quantas mortes serão necessárias para sabermos que demasiadas pessoas morreram?

Dylan transformou o papel de uma canção, deixou de ser apenas o de entretenimento, passou a ser também o de protesto ou de alerta: entrou a desafiar a inteligência e a sensibilidade de quem o escuta, com a pergunta recorrente: o que é que pensas disto? Ao deixar-nos a responsabilidade de responder está também a colocar a questão sobre o que é ser-se um ser humano.

É suposto que o roteiro de qualquer primeira viagem a Nova Iorque de um fã de Dylan inclua o mítico Chelsea Hotel. Não é porque seja um lugar ideal para alojamento, mas pelo tesouro de histórias vividas lá dentro e para sentir a atmosfera daquele hotel que é uma residência para muitos que o escolhem. Em 132 anos de existência o Chelsea acolheu dezenas de lendas do século XX, de Mark Twain a Allen Ginsberg, de Kerouac a Mapplethorpe, de Bukowski a Janis Joplin. Arthur C. Clarke escreveu ali o 2001: Odisseia no Espaço. Também lá moraram dois Dylan: um é o genial galês Dylan Thomas, escritor de versos e prosas que pedem para ser lidos em voz alta, junta palavras e sentido com ritmo e cadência de música, é música de palavras; o outro é Bob Dylan, nome artístico de Robert Allen Zimmerman. Está assumido que o apelido artístico foi escolhido como homenagem ao poeta galês que pôs fim à vida em novembro de 1953, tinha 39 anos, precisamente no Chelsea Hotel, depois de se encharcar em uísque. Foi num quarto do Chelsea que Bob Dylan, ao mesmo tempo que ouvia o folk de Woody Guthrie leu muito da poesia francesa de Rimbaud e Baudelaire que tanto o fascinou e inspirou. Tal como leu tanto Shakespeare, T.S Eliot, Ezra Pound, Steinbeck e Melville. Também leu muitos dos 400 e tal poemas escritos por Dylan Thomas. Ambos estes Dylan com a poesia como arma contra as injustiças. Tal como Dylan Thomas, Bob Dylan congrega o popular e o elitista em poemas focados nas questões da nossa vida. São génios que rompem o silêncio.

Diz-se de Bob Dylan que é uma voz da sua geração. Sim, mas é muito mais que isso, é um poeta livre cuja voz tem hoje ainda muito mais ressonância do que a que se impôs quando, ido da universidade do Minnesota para a Greenwich Village de Nova Iorque, irrompeu nos anos 60 como estrela acústica. Ele abriu o caminho.

Os dados do Spotify mostram que já antes do efeito Nobel de agora, em cada mês mais de quatro milhões de pessoas escutam em streaming pelo menos uma canção de Bob Dylan. Ele é um cronista acutilante do que está à nossa volta. Meteu a sua observação em poesia que nasceu oral e que se revelou literatura maiúscula. É trazida por uma voz cheia de inquietação que nos interpela. Com ele – também com mais gente - a arte popular que alguns continuam a colocar subalterna e inferior impôs-se como coisa séria. Levou o comité Nobel da Literatura a mudar de refrão.

Bob Dylan continua a soprar-nos, com o vento em fundo, a pergunta recorrente: e tu, o que pensas sobre isto?

VALE VER:

As capas da vetusta Time Magazine são sempre uma perspicaz imagem semanal de uma visão sobre o mundo americano. Vale a pena ver como é mostrada a evolução da candidatura Trump: aqui, no meio de agosto; aqui, na edição desta semana. Nem era preciso usar palavras.

Duas leituras com o jornalismo no centro: esta inquietação e esta esperança.

As mulheres sauditas ainda estão impedidas de conduzir um automóvel e só podem viajar com autorização do marido. Mas já podem votar e até fazer campanha política, como mostra este excelente documentário do The New York Times.

Thuli Madonsela, a mulher que é um baluarte na África do Sul. Depois de Mandela, uma bem necessária lufada de confiança.

Uma imagem do dia é esta no The Independent. Interesses divergentes unem-se para a estratégica reconquista de Mosul. É uma vitória sobre os fanáticos terroristas que se pretendem califado especialmente desejada por Obama. Mas há sobressaltos pelas atrocidades que pode desencadear.

Três primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta do Públicoesta do L'Orient, de Beirute, e esta do britânico Mirror que volta a pôr Mourinho como especial após o jogo em que De Gea foi inultrapassável.

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