Não me considero fã do universo Aleixo, no sentido em que esse adjectivo restringe a minha admiração ao nível duma idolatria com acne. Dificilmente serão as palavras de um fã quando afirmo, em plena consciência, que o Bruno Aleixo está no topo das criações portuguesas do séc. XXI. Um fã citaria incessantemente as falas dos personagens, introduzindo expressões desse universo para dentro do quotidiano; ora eu já vivo, ou vivi, num quotidiano que não precisa de importar uma única das expressões do Aleixo — já as tem todas. É por isso que, ao invés dum fã a citar, eu passo a considerar: Bruno Aleixo está, na pior das hipóteses, nivelado com qualquer momento maior da comédia feita em Portugal, e é o mais endémico de todos.

Os meus pais e avós conheciam a história do Raúl Solnado na guerra. A minha geração lembra-se do José Severino (Herman José) cuja especialidade era “mais bolos”. Todos conseguimos salientar algum sketch do Gato Fedorento, como aquele tresloucado em que duas pessoas se acusam mutuamente de que “Jesus Cristo é o senhor!”. De Bruno Aleixo já se terá imortalizado o famoso “Iiih ca burro!”, ou um indevido “Calhou cocó”. A consagração raramente distingue humor dum soundbite, por isso como se explica não termos entronizado ainda o rezingão Aleixo? Parece um bocado à margem, quando comparado com fenómenos passados.

Quantos terão retido, por exemplo, o jogo de Streetfighter entre uma espécie de cão (Bruno Aleixo) e certo busto de Napoleão (Busto)? Estou a fazer referência ao excerto dum episódio do Programa do Aleixo, excerto que é ainda um dos mais sublimes marcos televisivos do humor em português. Nada deve a um Soldado Solnado, a um Severino dos bolos ou a um Ricardo Araújo padreco. Atinge o píncaro humorístico mesmo sem um bordão, sem trocadilhos e sem uma punchline. Não há qualquer virtude em ser-se menos reverenciado, ou menos transversal, mas há muitas virtudes na rareza de Aleixo. É raro como uma trufa-branca, mesmo que, por vezes, tenha o aspecto e a subtileza duma couve tronchuda.

Por esta altura, Bruno Aleixo não deixa de ser bastante popular: tem dois programas de rádio e outro de televisão. Vem recebendo muita atenção na imprensa (capaz de despoletar-me indignação falsa). Os vídeos na internet contam milhões de visualizações — ainda que com a ajuda dos muitos fãs brasileiros; descobriram que ninguém faz piadas de portugueses melhor do que os portugueses (embora o lado anedótico de Aleixo esteja todo na premissa, raramente na conclusão). Apesar da fama, há também a noção de um culto que, por definição, é restrito — tanto pelo lado aguerrido de alguns entusiastas, como pela parte que mantém resistência ao fenómeno. Dificilmente Bruno Aleixo cairá num goto generalizado, nem terá o estatuto daquele enfant terrible que se consagrou. Isto não é um mau presságio para os destinos aleixianos, pelo contrário – é uma desconfiança do público alargado, que tende a amaciar os mesmos humoristas que consagra. Ninguém domará este animal. 

Tenho estado a discorrer sobre Bruno Aleixo sem me dar ao trabalho jornalístico de explicar no que consiste, ou referir-me sequer aos seus criadores — esses tratantes que dão pelo nome de João Moreira e Pedro Santo, duma equipa onde originalmente João Pombeiro também militava. Tal explanação em torno do tema já foi (como referi no início) sobejamente coberta, pelo que usarei a minha rubrica final de recomendações para vos direcionar a alguns artigos. Sendo este um espaço opinativo, limitar-me-ei hoje a dar uma opinião, extremamente favorável por sinal. Reitero que o universo Aleixo é das mais ricas criações portuguesas da actualidade; para prová-lo conseguia enumerar uma lista extensa. Por agora, fica um punhado de razões, ou desmistificações de equívocos:

- Sobre Aleixo poder-se-ia aplicar o mesmo epíteto que a série Seinfeld congeminou para si própria: “um programa sobre nada”. É justo aproximar Aleixo da melhor sitcom americana de sempre, embora o exemplo português tenha pouco de sitcom e ainda menos de norte-americano. Mantém-se é a ideia benfazeja do “programa sobre nada”. Só onde não há nada é que há espaço para tudo.

- É um erro frequente afirmar que o humor aleixiano é nonsense. O absurdo existe, de facto, na inverosimilhança das personagens (como um cão-ewok, um busto ou um médico invisível), mas estas funcionam como avatares dum humor que é o mais próximo da realidade. A comédia não se apresenta incongruente, ou defeituosa, faz é uso das incongruências e defeitos no seu estado puro, no seu habitat natural: o quotidiano.

- Reconhece-se plenamente a hilaridade dos regionalismos usados por Bruno Aleixo, ainda mais quando pontuados num sotaque bairradino cheio de brasileirismos. Mas nem tanto se faz referência a outro ingrediente genial: os silêncios. Santo, Moreira e Pombeiro têm usado este elemento confrangedor com o mesmo critério e expressividade que se encontra em grandes obras de cinema autoral. A diferença está no aproveitamento: um recurso habitualmente dramático é, aqui, de pleno propósito humorístico. E que bem que funciona.

- O Homem do Bussaco, outra ilustre personagem desta galeria, é mais asneirento que o Bocage e tem mais piada que todas as anedotas do Bocage somadas. É, na minha modesta opinião, caso raríssimo de bom aproveitamento do palavrão na comédia lusa. O único decente dos indecentes.

- Depois de 30 anos em que as figuras de proa do humor nacional se declararam descendentes dos Monty Python, eis que chega uma dupla cujas referências são crianças e animais. Há qualquer coisa evangélica nesta matéria prima, e um rigor naturalista a aproveitá-la. O humor inteligente não tem de nos fazer pensar.

Ainda andamos orgulhosos duma selecção nacional de futebol que tão bem nos representou lá fora. Nesta semana pusemos a bandeira metafórica na janela virtual, em apoio ao angelical Salvador Sobral que tão bem nos representa lá fora. E cá dentro? Quem é que nos pode representar e orgulhar – exactamente aquele que não queremos como exemplo, porque fomos nós a servir-lhe de molde. Orgulhemo-nos do Bruno Aleixo, que é impar e brilhante. Como ele só há um, e ocasionalmente 10 milhões.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

Terminando pelo começo, uma pequena contextualização jornalística para os que, no que concerne ao Aleixo, andam a dormir: Bruno Aleixo, o esplendor de PortugalValha-nos Bruno AleixoNo divã com Bruno AleixoElogio de Bruno Aleixo.

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