Estive os últimos dias na estrada, em trabalho, a testar material de stand-up comedy pelo centro do país. Sim, é isso que eu classifico de labuta. Quando eu arranjar uma profissão a sério, prometo que avisarei os leitores. Foi nesse âmbito que tive a oportunidade de assistir a um jogo dos escalões de formação entre duas equipas locais. Não vou especificar nomes, consideremos, para efeitos retóricos, um jogo entre Desportivo de Focinho de Cão frente ao Venda da Gaita United.

Ora, chamem-me de otimista inveterado, mas ingenuamente tive a esperança de encontrar uma candura, uma simplicidade e uma alegria que já se perdera no futebol profissional dos mais velhos e que eu esperava ver cultivada num jogo de putos. Ou, pelo menos, uma cultura de rivalidade que respeitasse a idade, o amadorismo e a diversão dos miúdos. Claro que me deparei com a mimetização da cultura de ódio e de acefalia que é vigente na Primeira Divisão.

O problema não está, obviamente, nos miúdos. Na maior parte dos casos, os treinadores têm também noção da sua responsabilidade. O tumor do futebol de formação são os pais. Se pudéssemos pensar que nestes escalões o árbitro seria tratado de forma mais respeitosa, enganamo-nos. Para estes exemplares progenitores, o juiz da partida é, sem margem para dúvidas, “roto”. Quando não o é, tem comprovadamente “mais cornos do que o um balde de caracóis”. (Dependendo da capacidade do recipiente em questão, podemos estar a falar de muitos cornos, note-se).

Quando não se ataca o árbitro, os adolescentes adversários também são apelidados de “porcos”, por exemplo. É verdade que a combinação de atividade desportiva com o pico da puberdade leve a odores corporais pouco convidativos, mas uma claque de homens e mulheres na meia-idade a insultar crianças de 16 anos é que, para mim, constitui uma autêntica vara. No caso do jogo a que estava a assistir, por acaso o banco da equipa técnica situava-se no lado oposto à bancada, caso contrário certamente teria lugar o também comum assédio ao treinador para colocar o filhinho a jogar, que o puto ainda vai a tempo de ser um Futre.

O sonho de ser jogador profissional parece ser mais dos pais do que dos filhos. Os adolescentes aparentam ter mais noção de que jogar ao domingo contra o Venda da Gaita United contribui mais para a sua saúde, bem estar e divertimento do que propriamente para o futuro da sua carreira profissional.

Muitos pais projetam obsessivamente nos filhos a sua ambição desmedida, que se esquecem que lhes estão a transmitir a sua postura de grunho no futebol. Notícia de última hora: o seu filho não vai ser o novo Cristiano Ronaldo. Mas ainda vai a tempo de ser um gajo com quem dá para discutir bola.

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