1. “Caralho, como vai ser esse futuro?” é a pergunta quase no fim do documentário “Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai, que acaba de ter estreia mundial no Festival de Berlim. Ela vem dos três jovens protagonistas, que como dezenas de milhares, sobretudo filhos de pobres, ocuparam as escolas secundárias públicas no Brasil nos últimos anos, para que muitas delas não fechassem, para que o Estado não congelasse a Educação. O filme centra-se nas ocupações pioneiras de São Paulo, em 2015, mas recua a 2013, o ano em que as ruas explodiram, e vai até Dezembro de 2018, incluindo a vitória de Bolsonaro.

E é nesse momento de escuridão, com o presidente eleito decretando a morte de todo o activismo, que os três jovens do filme perguntam, depois de incontáveis bombas de gás, bastões, arrastões da polícia: “Caralho, como vai ser esse futuro?” É espanto, é medo, mas não é derrota. Por isso, antes do fim tem a jura: “Aqui ninguém vai voltar pra senzala, pro armário, pra cozinha. Eles não passarão!” Sendo sobre estudantes de escola pública em revolta, o que este filme mostra é a pulsão — a tesão — que faz do Brasil, sim, país do futuro. Tão incrivelmente vivo no meio da morte, cercado de morte, ameaçado de morte.

E nada será mais urgente no começo de 2019, em qualquer lugar onde essa pergunta, por mil e uma ameaças, nos pára o coração: “Caralho, como vai ser esse futuro?”

2. Vendo esse filme em casa, agora, na periferia de Lisboa, não parei de chorar. Não por luto do Brasil que vi nas ruas desde 2013, pensando no desfile de horrores desde então, em quem ocupa cada vez mais poder, na licença para o Estado chacinar, como ainda esta semana aconteceu numa favela do Rio de Janeiro, 13 mortos. Que se somavam já aos jovens atletas mortos no Flamengo, num incêndio em instalações precárias, sem autorização de habitação, maioritariamente negros. Jovem, pobre, negro: uma coisa só.

E como o filme mostra esse contraste permanente, brutal, entre jovens, em maioria pobres, negros, e os brancos engravatados no poder. Há uma sequência, espécie de resumo dos alicerces do Brasil, em que os estudantes, já há muito em luta, com muitas noites em claro, muito trabalho, ainda assim esfuziantes de energia e força, estão diante de uma mesa de fantasmas engravatados. A vida, uns degraus abaixo, sem microfone, mas vibrante, e lá no topo, como mortos-vivos, os mandantes pálidos, com direito ao microfone e à última palavra, todos homens, brancos, engravatados, empertigados. É o contraste entre qualquer rua do Brasil e os deputados no Congresso. O contraste entre os estudantes de escola pública entregues à luta pela sua própria educação, ocupando o asfalto, e a madame que nunca viveu estes problemas, porque como toda a elite tem acesso a escolas privadas, e quer passar com o seu carro. Atrasada, sim, mas não meia hora. Centenas de anos.

E aqueles polícias militares marchando com os seus escudos, batendo com os seus bastões, lançando as suas granadas de gás para cima de crianças, arrastando, torcendo corpos de crianças, enfiando crianças em grades, obedecendo a ordens do alto, eles próprios mal-pagos, despreparados, como há centenas de anos.

Vi isto ao vivo desde 2013, nas ruas de São Paulo como no Rio de Janeiro, e contra isto, e apesar disto, marés de gente gritando “Não acabou / tem de acabar / eu quero o fim da Polícia Militar!”, correndo, escapando, dançando, sentando no asfalto para tocar, para cantar, e não há como não chorar, não de luto, mas da luta, da inspiração. Porque é muita vida na nossa cara. Muita vida querendo ficar viva. Tudo o que o mundo precisa em 2019, tudo o que transborda no Brasil.

Em nenhum outro país que eu conheça, um documentário sobre estudantes em revolta podia ser tão sensual, ter tantos corpos se abraçando, se beijando, tantos sorrisos, tanta pele, tanta língua, tanto cabelo, tanta graça, porque isso faz parte da pulsão vital, é a sua declaração permanente, e por isso em nenhum outro país que eu conheça a palavra é tão exactamente tesão. Um tesão bem na cara do escudo, do bastão. Aquele cartaz no meio da ocupação: “Se me der um sorriso eu te dou um beijo.”

3. Em São Paulo, só estive com estudantes mais velhos, os que iniciaram a revolta de 2013 contra o aumento da tarifa de ônibus. Mas no Rio de Janeiro acompanhei um pouco estes secundaristas, quando, já em 2016, a ocupação das escolas públicas alastrara a mil, em todo o Brasil.

Um deles era o Colégio Pedro II, a escola pública mais antiga e famosa do país, que tem 12 campus no Rio. Apareci de surpresa num deles, o do Humaitá, e bastou dar o nome e explicar ao que vinha para me deixarem entrar. O que se passava lá dentro era uma micro-experiência de cidade, de organização humana, uma pequena Praça Tahrir, como vi acontecer no centro do Cairo, nos escassos dias que durou a revolução de 2011. Aqueles estudantes entre os 12 e os 19 anos tinham criado nove comissões: Comida, Limpeza, Saúde, Actividades, Segurança, Comunicação, Pais, Infraestruturas e Tesouraria. Tinham actividades diárias. No momento em que cheguei, acontecia uma roda de capoeira. Negros descendentes de escravizados faziam voar estudantes brancos pela primeira vez, com os sons e os movimentos trazidos de África por aqueles que o império português forçou a ir para o Brasil. Ali estavam todos no pátio do colégio fundado pelo imperador. Ocupando o Pedro II. Ocupando a história.

Se a luta em São Paulo em 2015 começara por ser contra o encerramento de várias escolas, multiplicara-se entretanto pela ameaça da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congelava gastos públicos por 20 anos, incluindo na Educação. Contra isso, aqueles estudantes trabalhavam no duro. Ocupar assim dá trabalho, e essa era a primeira conquista, o primeiro aprendizado, como dizia um dos rapazes com quem mais conversei: “É uma mudança radical, quebrar ociosidade, improdutividade, o ficar encostado. Aqui, a gente está-se propondo fazer coisas.” Esse estudante, que me lembrou um muito jovem Caetano Veloso, pelos caracóis, o corpo esguio, o falar lento como baiano, vencera a concorridíssima prova para ser aluno do Pedro II, e não era filho de rico, vinha da Zona Norte, dois ônibus para chegar nas aulas.

E eles não arredavam, dormiam ali, cozinhavam, faziam turnos.

4. “Esses meninos são incríveis, mas onde eles querem chegar?” perguntou uma carioca de meia-idade, da elite, com quem conversei por esses dias de 2016. “Qual o objectivo deles?”, insistia ela. E o que pensei foi que aquelas perguntas já não eram deste tempo, ou desta geração. Não há uma só resposta para elas, e mais do que “chegar” eles queriam estar acordados,  dizer que a vida é deles, a escola é deles, a cidade é deles, o futuro é deles, lutar por algo que os políticos não estão a fazer. “Gente inédita para um tempo inédito”, escrevi então. Algo que entretanto vimos desde a March for Our Lives contra as armas nos EUA à jovem activista ambiental sueca Greta Thunberg.

5. Algo que está em Marcela Jesus, Lucas Penteado e Nayara Souza, os três protagonistas de “Espero tua (re)volta”. A documentarista Eliza Capai entrevistou dezenas de jovens, filmou incontáveis horas mas foi com estes três que condensou a enérgica narrativa do filme, grande trabalho de montagem, para além do mais. E recorrendo a materiais de arquivo e outros fragmentos disponíveis, reconstitui por exemplo a transição capilar de Marcela, jovem negra, neta de empregada doméstica analfabeta, filha de mãe batalhando para pôr comida na mesa, que nas suas primeiras experiências de luta estudantil, bem garota, ainda aparece com o seu cabelo crespo esticado. Até assumir o “black”, e o pintar de violeta, bem visível. Tudo parte da luta, que também é feminista, também passa por ter os rapazes na cozinha da ocupação, esfregando panela, chão, quebrando o incrustrado. Passa por usar as velhas cadeiras da escola como escudo contra a violência da polícia. E de noite, quando os ratos vêm, ainda ter energia para piada do género: prefere esses ratos ou os que estão em Brasília?

Na hora e meia que o filme dura, é todo esse Brasil que brota, o Brasil que tem de escolher entre ter dinheiro para morar e dinheiro para comer, o Brasil da escola pública sobrelotada e em risco, o Brasil que sempre apanhou da polícia, a polícia que sempre obedeceu a quem está no poder, gente no poder como Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, que acabou por recuar na primeira batalha dos estudantes e em 2018 correu à presidência para ter o pior resultado de sempre do seu partido.

“Espero tua (re)volta” é um dos 12 filmes brasileiros esse ano no Festival de Berlim. Está em competição na Mostra Nova Geração. Torço para que, com prémio ou sem, circule o mais possível. Precisamos todos muito dessas meninas, desses meninos.

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