Diogo Freitas do Amaral foi sempre muito enfático ao refutar a ideia de que o seu percurso político tivesse sido marcado por qualquer incoerência ou ziguezaguear ideológico. Na sua perspetiva, a realidade envolvente é que foi mudando, tendo ele permanecido rigorosamente no mesmo lugar, o que acabou por alterar, aos olhos exteriores, a sua posição relativa face a alguns dos principais atores políticos. Não é claro que as coisas tivessem sido exatamente assim, mas há alguma verdade nisso.

É que há algo que parece evidente: no plano estrito das ideias, há que convir que a evolução de Freitas de Amaral se fez sempre num quadro de razoabilidade e moderação, que eram a sua indiscutível imagem de marca. Mas, obviamente, creio que ele próprio sempre entendeu que ser visto num dia ao lado de Durão Barroso e no outro de José Sócrates não deixava de ser impressivo, e chocante, para o observador externo. E essa era talvez a razão porque sempre sentia necessidade de se justificar.

A Presidência

Tenho para mim que Freitas do Amaral sempre considerou que o seu imenso capital de experiência política era mal aproveitado pelo país. Tendo chegado à soleira de Belém em 1986, para depois ser tratado de forma vil por uma família partidária próxima por quem dera a cara, Freitas terá considerado que a hipótese de um “remake” com sucesso não estava afastada por completo.

Posso estar errado, mas acho que Mário Soares foi sempre o grande “culpado” pelo alimentar desse sonho. Como nas grandes batalhas militares em que os generais opostos acabam por gerar a estranha afetividade dos contrários, Soares e Freitas conseguiram ultrapassar a ferocidade, até verbal, da contenda de 1986, vindo a estabelecer entre si uma espécie de “entente”, mais do que cordial, que, na minha perspetiva, tinha a fidelidade comum à ideia da bondade do projeto europeu como o cimento de união.

O sonho da Presidência da República, a meu ver, esteve presente em Freitas do Amaral até à sua entrada, como independente, como ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates. O seu regresso às Necessidades, onde estivera quase duas décadas antes, criava-lhe um estatuto que ele entendia poder ser um degrau potencial para proporcionar a hipótese do acesso a Belém. Freitas terá medido mal duas coisas: a desafetação que o setor conservador do país tinha criado em torno do seu nome, visto como alguém que se “mudara” para o campo contrário, e o escasso apelo que uma sua candidatura poderia suscitar à esquerda, que nem o apoio de Soares e Sócrates era capaz de ultrapassar.

O partido

Difícil e dolorosa foi a relação de Freitas do Amaral com o partido que criou em 1974. O CDS havia sido um ato de coragem cívica, ao permitir um espaço institucional de acolhimento de quantos se não reviam no tropismo socializante da Revolução. Do mesmo modo, havia sido corajosa, e coerente, a decisão de fazer o partido quebrar o unanimismo na aprovação da Constituição, em 1976. O CDS e Freitas do Amaral pagaram, com essa atitude, um preço pesado, em termos de estatuto no campo democrático.

Limitado, desde o início, pela lógica de proselitismo eleitoral no campo da direita (recordo que a semântica política era outra, à época), Freitas cedo percebeu que a capacidade de afirmação política do seu partido, em termos de governação, obrigava a delicados jogos de aliança. Se não tinha votos, o CDS tinha pessoas, era esse o seu património e era por aí que poderia consagrar-se. E Freitas fê-lo, exemplarmente, num acordo com Sá Carneiro.

A morte de Sá Carneiro e de Amaro da Costa, alter ego de Freitas, viria a decapitar um certo projeto da direita portuguesa, que a frustrada candidatura presidencial de Soares Carneiro potenciaria. Freitas afastar-se-ia mais tarde do CDS e o partido, nas suas diversas encarnações, passou a exorcizá-lo, através do endeusamento de Amaro da Costa, cuja memória passou a ser arremessada, com regularidade, contra a imagem de Freitas. A retirada do retrato do fundador do partido das paredes da sede, um ato de falsificação da História cometido no consulado de Paulo Portas, representa talvez o ponto mais baixo dessa “vendetta”, cuja ingratidão muito terá ferido Freitas do Amaral.

O Estado

Freitas nasce para o Estado com o 25 de Abril, ao ser convidado, sob o sobrolho cerrado de alguns, a integrar o Conselho de Estado. O seu estatuto académico, a imagem madura “avant la lettre” e uma certa “gravitas” concederam ao trintão Diogo Freitas do Amaral um estatuto que acabou por induzi-lo a criar um partido conservador democrático, explorando a necessidade que os militares sentiam de, feita a Revolução, construir o Estado, em moldes equilibrados que permitissem a aceitabilidade externa do regime.

O CDS de Freitas de Amaral não conseguiu, contudo, integrar qualquer dos governos provisórios, ao contrário do PPD (hoje PSD) e do PCP, bem como do partido heterónimo deste, o MDP-CDE. Só a vitória da direita, na viragem da década, levará Freitas e o CDS ao governo.

Freitas do Amaral mostrou, em todas as funções políticas que desempenhou, uma forte dedicação ao serviço público, um elevado sentido de Estado e uma qualidade de intervenção que nunca ninguém disputou com seriedade, para além das naturais divergências políticas. Refiro as duas passagens pela pasta dos Negócios Estrangeiros, de que fui testemunha próxima, mas igualmente no exercício do cargo de presidente da Assembleia Geral da ONU, um lugar que, não sendo executivo, tem uma delicadeza em termos de exercício que Freitas do Amaral soube interpretar com sabedoria, inteligência e uma forte cultura que era a sua, para prestígio de Portugal - afinal, o seu grande desiderato nos lugares por que passou.

O homem

Só bastante tarde, na minha vida, vim a conhecer pessoalmente Freitas do Amaral. Foi em 1999, em Nova Iorque, onde ambos tínhamos ido em trabalho. Depois de um jantar, pelas ruas, confessei-lhe que, nas presidenciais de 1986, eu chegara a temer que, a coberto da sua candidatura presidencial, “viesse por aí o fascismo”. Freitas do Amaral riu-se e disse esperar que eu tivesse ficado, entretanto, definitivamente convencido de que ele não era “um fascista”. Não era, disse-lhe que achava que ele era uma espécie de conservador inglês, nos tempos em que a maturidade já me permitia ter isso como um elogio. Nos dias de hoje, já nem sei...

Seria de novo em Nova Iorque, para onde eu entretanto fora viver, dois anos depois, que nos reencontraríamos. Alguns amigos políticos de Diogo Freitas do Amaral estavam furiosos com ele, por ter editado uma peça de teatro que foi lida como uma “deslealdade” face à memória de Marcelo Caetano. No almoço que lhe ofereci, revelou-me alguma mágoa com essas atitudes, que via como injustas.

Cruzámo-nos depois, uma ou outra vez, em Lisboa. Depois, em Brasília, em 2005, com ele já de novo como ministro, apreciei o modo assertivo como expunha a política externa do novo governo que integrava, numa atitude que mostrava, simultaneamente, um grande à-vontade no exercício do cargo mas também uma perspetiva muito nacional da função, diria mesmo que um pouco dissonante com o modelo “formatado” de diplomacia que prevalecia numa União Europeia, onde a máquina obedecia a uma linguagem cada vez mais comum. Fiquei curioso em ver o impacto futuro do estilo, mas Freitas do Amaral acabaria por ser obrigado, por razões de saúde, a abandonar o executivo.

Faz hoje precisamente uma semana, voltámos a coincidir, na mesma sala do serviço de um hospital, onde eu estava por uma coisa simples e onde ele tentava recuperar de um último esforço para superar a nova doença que agora lhe poria um ponto final na vida. Já não falámos.

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