Neste primeiros dois parágrafos, estou a tentar ser sensato e não revelar nenhuma das ocorrências dramáticas que nos foram dadas a conhecer. Se não tiver visto o episódio, tiver interesse em ver e ainda estiver a ler esta frase, gabo-lhe a coragem. Faltam poucos caracteres para lhe arruinar a experiência narrativa. Vá lá à sua vida. Bom, já só estamos nós? Ótimo. Ah, não. Está ali um senhor de óculos que abriu o link sem querer, leu ensonado as primeiras palavras do texto e agora arrisca-se a ficar a saber por aqui que o Jon Snow se transformou num abacate e que agora governa Westeros como se fosse uma franquia do Celeiro. Menti. Não foi isso. Mas há quem ache que o que aconteceu foi igualmente absurdo.

Ora, Daenerys Targaryen destruiu King’s Landing. É verdade. Uma bela cidade com bons bordéis e muitos pobres sem culpa da inoperância dos seus governantes, que nunca fizeram nada por eles sem ser dar-lhes a oportunidade de humilhar uma ex-MILF (ex porque faleceu e, antes disso, quase todos os seus filhos também). Ora, Daenerys decidiu que não bastava ter a cidade a render-se ao seu exército, mas que não podia dormir descansada, numa conchinha constrangedora com Jon Snow, se não a caramelizasse com o seu dragão-filho (o único que ainda não deixou morrer, alguém que chame a segurança social). Para muitos, foi chocante.

Compreendo que, para muitos, esta evolução seja muito difícil de digerir. Afinal, durante oito temporadas construímos expectativas de que Daenerys viria a ser a heroína que salvaria Westeros da ameaça White Walker e da intriga política, para além de que a concebíamos como o garante das liberdades dos povos oprimidos. As bochechas queridas da atriz Emilia Clarke contribuíram para toda esta farsa: aquela Khaleesi de sorriso doce não podia ser a má da fita.

Julgo que o maior problema é que a cadência da evolução de Daenerys de salvadora da pátria a criminosa de guerra foi bastante atabalhoada. É claro que a temporada não só podia, como absolutamente necessitava de ter mais episódios. A ideia de Khaleesi-vilã não cai do céu, mas é plantada de forma um pouco desleixada, aliás como vários caminhos que a série tomou recentemente. Uma boa parte dos fãs manifestam a mesma surpresa do que um vizinho de um assassino em entrevista à CMTV: “Nunca suspeitei de nada. Ela parecia-me tão calma e equilibrada! Andava só pelo bairro, com os seus dragões. De vez em quando, aparecia com uns homens mais velhos, mas cada um sabe de si. Caiu-me tudo quando soube.”

Porém, é também indiscutível que é pertinente que a personagem abrace a tirania que tanto alegava combater. Não é que Daenerys seja uma menina do coro, nós é que a habituámos a vê-la como uma menina do coro. É como as crianças. Não acreditamos que o sobrinho que tivemos ao colo em bebé se transforme num mânfio de 14 anos que é apanhado a roubar Skittles na mercearia de um cidadão do Bangladesh. Era, portanto, uma menina do coro, daquelas que efetivamente chacinam esclavagistas e outros inimigos sem um julgamento justo, mas uma menina de coro ainda assim.

Guerra dos Tronos" não é um conto de fadas, a série não conquistaria o que conquistou se fosse uma xaropada que romantizasse as monarquias medievais com um bom guarda-roupa. É antes uma série de fantasia muito realista na qual quem se endeusa raramente se livra da decadência (hubris is a bitch). Daenerys ficou obcecada com a acumulação de poder; deprimida com a ausência de amor do povo que deseja liderar; desgastada a nível emocional com a empreitada da batalha de Winterfell, uma guerra que nunca viu como dela; perdeu referências de estabilidade (como Jorah e o próprio Tyrion, que embevecido com a rainha perdeu racionalidade e cometeu erros); perdeu dois “filhos” (já disse para chamarem a segurança social). O surto da doença de mad queen não era assim tão imprevisível.

Claro que não era um fim desejável para quem vê a série no sentido de se deparar com um happily ever after no fim da história. Uma das grandes vantagens de Daenarys perante todos os seus inimigos, durante as oito temporadas da série, foi a que estes facilmente a subestimavam. Agora, fomos nós a subestimar Daenerys. Como todos os outros, nem nos passava pela cabeça vê-la sequer como inimiga.

Recomendações

Podemos criticar a escrita dos episódios mais recentes, mas visualmente continuará a ser do melhor que já se fez em televisão.

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