As pessoas estão deprimidas e infelizes. As pessoas à minha volta, entenda-se, aquelas com quem falo ao telefone, com quem troco longos emails. Todas, sem excepção, estão mais desabonadas e desanimadas do que estavam há um ano. O aproximar do mês de Março e do primeiro aniversário da pandemia parece ter escurecido os nossos pensamentos. Da minha parte não aguento nem mais uma pessoa a dizer que vai ficar tudo bem. Vai ficar remediado. Ninguém me irá devolver as horas que não dancei, os abraços que não dei.

Os seres humanos são adaptáveis, portanto a malta adapta-se. É a forma de nos convencermos de que está tudo bem, mais uma frase e ideia feita. A verdade é que não é fácil, nem saudável do ponto de vista emocional, viver no monotema do vírus como se mais nada existisse digno de nota, nesta constante de notícias que exploram tudo o que é negativo, tudo o que falha. Não é bom sermos confrontados com dificuldades que não tínhamos previsto para a nossa vida. Conheço quem esteja em poucos metros quadrados com os filhos pequenos, a trabalhar, a dar assistência aos mais velhos, a tentar sobreviver até ao fim do dia sem ter um ataque de nervos. Também conheço quem se automedique, para ver se consegue não perder a cabeça. Há dias, no supermercado, vi uma senhora em lágrimas – era demasiado evidente que estava num qualquer fio de existência, nem a máscara ocultava a sua tristeza. Poderia ser qualquer coisa, dirão, uma notícia acabada de receber ou o preço do peixe, fosse o que fosse, não tive como a abordar ou consolar, já que se impõe a distância e tudo o resto.

A notícia da administração das vacinas tinha arrebitado os ânimos. Depois percebeu-se que, além dos chicos-espertos, o tempo para chegar à nossa vez é longo, muito longo. Com o aumento dos casos, alguns de nós fomos confrontados com notícias assustadoras: um amigo em coma induzida, um vizinho que morreu com Covid. Os negacionistas já não fazem tanto alarido, ou talvez me engane, porque todos os dias leio que a polícia identificou uma série de pessoas que jantavam juntas (na semana passada, 13 almas espertas decidiram ir jantar a um restaurante de um amigo, no Bairro Alto, e algumas dessas almas decidiram publicar fotos nas redes sociais). O desalento mantém-se em várias frentes. As novas sobre as escolas, e os alunos em putativo tele ensino, são alarmantes. Professores sem capacidade para lidar com o que se lhes pede, alunos sem computadores, pais desesperados, sem condições para dar aos filhos a educação que almejam. Não está, portanto, a correr bem. Estamos nas vésperas de fazer um contra-festejo desta realidade e, num ano, a esperança de voltarmos a assumir de estilo: viver a vida que vivíamos tem vindo a esfumar-se. A Primavera está a chegar, já se sabe, mas não podemos ir vê-la nos jardins, na praia. A Páscoa será celebrada, por quem a celebra, de forma restrita. Os empresários fazem contas, os trabalhadores fazem contas, o Estado faz contas. Sim, será preciso manter algum optimismo, mas francamente parece-me tão difícil quanto dizer adeus à pandemia.

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