O Brasil continua lindo nas músicas, o futebol não vai tanto assim, mas a política e os políticos vão ladeira abaixo na maré cada vez maior de protestos impulsionados pela parceria entre Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (com o grupo Globo na primeira linha) na denúncia da suja corrupção e lavagem de dinheiro pelo poder político do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma.

A estratégia de informação e comunicação meticulosamente desenvolvida ao longo dos últimos 19 meses por aqueles três pilares, com a sucessão de manchetes sobre escândalos envolvendo políticos e empresários, está a golpear, de forma que parece não permitir salvação, a cúpula do PT. O clamor popular, com o povo na rua de modo maciço, está a gritar: basta de vocês! O alvo em fundo neste Brasil fraturado, é Lula, o inimigo de classe.

Toda a gente já ouviu que no Brasil (como em outros países, claro), para fazer aprovar uma lei no parlamento, é preciso comprar o voto de deputados caciques. Deputados vendem o voto a quem pagar mais. Lula e amigos avançaram por esse caminho. Foram apanhados pela armadilha e são denunciados por muitos que são useiros e vezeiros nessa prática de submundo. Agora, chega para muitos, uma ocasião de ouro para ajustes de contas, desforra eleitoral e reversão do quadro político iniciado em 2003, com a eleição de Lula com 52 milhões de votos, correspondendo a 61,27% do eleitorado brasileiro.

Em 2009, no final de uma das pomposas cimeiras do influente G20, o presidente Obama, ao cumprimentar o presidente brasileiro, comentou: “Este é o homem, o político mais popular ao cimo da Terra”. O então presidente do Brasil, um Lula da Silva ex-operário metalúrgico que mal arranhava a fala em inglês, mas com 27 doutoramentos honoris causa de prestigiadas universidades europeias e americanas, era o símbolo mais poderoso da grande mudança ocorrida na América do Sul após o fim da Guerra Fria e com o avanço da globalização. Lula seguiu pelo caminho de reformas iniciado por um presidente com grande mérito, Fernando Henrique Cardoso, e ousou mexer profundamente na estrutura da sociedade brasileira, com demasiados muito pobres.

Nos oito anos da sua presidência (2003/2011), Lula tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Fez funcionar o plano Fome Zero, que deu alimento a quem não tinha como comer. O salário mínimo subiu 77%. A energia eléctrica chegou finalmente a áreas rurais habitadas por milhões de pessoas. O analfabetismo recuou imenso. Foi uma década de vertiginoso crescimento económico, de remoção de algumas das antigas injustiças sociais e de aumento do prestígio internacional do Brasil com a diplomacia de Brasília a liderar a fundação, com a Rússia, Índia e China, do grupo BRIC de novas potências.

Esse Brasil, inspirador e que parecia feliz, beneficiava de um ciclo económico altamente favorável, quer com a expansão da exploração do petróleo num tempo de barril caro, quer com as exportações agrícolas. Mas esse Brasil potência internacional que passou a reivindicar lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e que investia milhões na construção de estádios de futebol para o Mundial de 2014 e para os Jogos Olímpicos deste ano, continuava a ser um país com serviços do Terceiro Mundo em setores fundamentais como a saúde, a escola ou os transportes. Foi contra este estado de coisas que começou a disparar há três anos a rebelião das classes médias urbanas – que tinham, em grande parte, ficado de fora das melhorias no tempo de Lula. As “passeatas” sucederam-se, depois houve alguma trégua. Mas a crise económica, que baixou o rendimento das exportações, a que se juntou a depressão com a enorme queda do preço do petróleo, mostrou logo a seguir como o Brasil é um país com pés de barro, com o desenvolvimento sustentado por alicerces frágeis em terrenos movediços e com a classe política habituada a viver na entranhada corrupção que envolve gente do governo e da oposição – tem sido sempre assim no Brasil.

E, no meio de tudo isto, surgiu um justiceiro: chama-se Sérgio Moro, tem 44 anos, é juiz federal e comanda a operação baptizada de Lava Jato, que está a abalar o mundo político e de negócios no Brasil. A popularidade de Moro, com estatuto de herói nacional, está a preencher o vazio político. Moro investiga a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro. Começou a desmontar o polvo pela petrolífera pública Petrobrás. O fio da meada está a levar a investigação para dentro de ministérios e empresas, e a revelar a corrupção endémica. A impunidade dos mais poderosos acabou. Está em curso no Brasil uma operação “Mãos Limpas” idêntica à que António di Pietro conduziu - antes de, com controvérsia, se assumir político - na Itália dos anos 80 e 90.

Há quem se inquiete com dúvidas sobre a arbitrariedade dos investigadores e a sua hostilidade ao PT – a justiça estará na mão de forças políticas? Há quem também questione a assumida parcialidade dos mais poderosos grupos de media no Brasil.

Seja como for, a presidência de Dilma está bloqueada e a destituição parece no caminho. A economia em implosão. O povão, dividido, em ebulição. Quase toda a classe política está ameaçada. Lula, agora perseguido, depois de ter sido ídolo popular e presidente carismático está na corda-bamba – mas não se pode subestimar o seu instinto político e capacidade para lutar. Há, para Lula, depois de tantos formidáveis êxitos, um fracasso inquestionável: não conseguiu, por não querer ou não o deixarem, resolver o problema da corrupção institucionalizada que põe tanta gente a embolsar dinheiro ilegal.

O Brasil está agora extremado, muito bate-boca, muita emoção a puxar fúrias. Provavelmente, vem aí a punição das negociatas na era de Lula. Mas isso não basta para resolver a corrupção entranhada no sistema político. Já tinha sido assim com Collor de Mello, que em 1989 tinha ganho a Lula (53%/47%), mas que três anos depois foi derrubado num “impeachment” por corrupção e lavagem de dinheiro. O problema brasileiro continua a estar no sistema político profundamente inquinado.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Após cinco anos de guerra, há agora uma pontinha de esperança para a Síria? The New York Times vê a trégua iniciada em 27 de fevereiro mais consistente que o imaginado. Os refugiados são gente que está a sobreviver assim.

Achtung, sim, mas dizer-se que o populismo anti-imigração e anti-refugiados se impôs nas eleições estaduais alemãs será exagerar a realidade. Os mais votados, avisa-nos The Guardian, foram políticos que são pela Europa e por uma solução europeia para a crise dos refugiados. Mas a xenofobia e a islamofobia, com a sua linguagem racista, são patologias que passaram a infetar a Alemanha de agora.

Esta outra terça-feira é dia chave no apuramento de candidatos presidenciais nos EUA, com primárias em cinco grandes estados (Florida, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Illinois). A fragilidade de Hillary Clinton é o seu défice de credibilidade - não entra no eleitorado “sub 35”. Donald Trump aparece como um palhaço – mas a fúria dos cidadãos contra o establishment pode causar surpresas.

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