O racismo é um tema recorrente na minha casa. Não por o meu marido ser negro, antes pela constante surpresa perante a realidade. Estamos no século XXI a discutir racismo. A discutir se existem etnias superiores. Estamos ainda perante atos de discriminação, de violência, de machismo.

O meu avô casou, antes do 25 de abril, com uma senhora de origem indiana. Um dos meus tios casou com uma de origem angolana, outro com uma de origem japonesa. A questão da cor — qual cor, senhores? — nunca me ocorreu.

Nunca pasmei com o cabelo escorrido ou em carapinha. Não fui criada assim. Os meus filhos tão-pouco. Tinha o mais velho cerca de cinco anos quando me apareceu com lágrimas nos olhos e disse: “Mãe, a Daniela diz que eu sou branco e eu não sou, pois não? Sou bege”.

Antes de eu casar, o meu avô, homem especial e que faz muita falta, talvez por ter encarado o mundo com bonomia e esperança e essa luz nos fazer falta, disse-me que era melhor preparar-me para o que aí vinha, para o que ia ouvir por casar com um negro. E ouvi. “Ah, tão branquinha com um preto” ou “Que desperdício, para que foi ela fazer isto?”. Nenhuma destas pessoas era da minha família ou do círculo de amigos.

Continuo a reparar em olhares, em gestos que denunciam o enorme incómodo de sermos um casal misto. Na minha geração não há muitos, mas vejo namorados adolescentes na rua, ela com afro hair e ele muito caucasiano, ou vice versa. Fico sempre com um sorriso nos lábios e penso que talvez venham de uma família como a minha na qual o racismo não faz, nunca fez, não fará sentido algum.

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