É sabido que todas as sociedades precisam de festa e de celebrar o grupo. Fica, assim, difícil, sobretudo para quem é jovem, aceitar as restrições à reunião e à festa. Essa vontade de resistir é também alimentada pela perceção de que os jovens são robustos e que mesmo que o vírus lhes entre no corpo, dão cabo da infeção sem que apareçam mazelas. Há relatos que favorecem essa ilusão: sucedem-se as notícias de ídolos dos desportos que são anunciados como infetados, no entanto, sem que passem por algum tormento de saúde. Instalou-se a noção de que a Covid lhes passa ao lado. Muitos estão convencidos de que estão como que imunes.

Sabemos que quem anda pelos 20 anos reage mal à ideia de ter arruinada uma noitada muito desejada. Quem tem mais idade também fica com incómodo.

No caso dos mais jovens tem-se constatado ser mais forte a tentação da transgressão e de contornar as proibições.

Mas o problema é sério. Está confirmado que pelo menos 500 estudantes do Ensino Superior, sobretudo no Centro e no Norte do país, diagnosticados com Covid-19. Parte destes casos resulta de surtos que estão referenciados como tendo origem em festas muito participadas organizadas por alunos Erasmus.

O ócio noturno está a ser o principal espaço de contactos de risco para os jovens. Tal como, para todos, as reuniões familiares, as bodas, os batizados ou as festas de anos.

É compreensível o argumento de que “não podemos deixar de viver”. É sabido que a privação da festa, do encontro e das noites acumula stress e emoções negativas. Instala-se uma vontade de resistência que gera práticas clandestinas.

É preciso conseguir chegar ao sentimento profundo de cada pessoa, de cada estudante. Explicar que algumas das coisas maravilhosas da vida podem tornar-se um abraço fatal.

Os registos no começo desta terceira semana de outubro mostram-nos que 6.368 das pessoas que, por causa da Covid, precisaram de hospitalização em Portugal têm idade entre os 10 e os 19 anos. O número de internamentos hospitalares por Covid sobe para 16.605 na faixa etária entre os 20 e os 29 anos. É muita gente com sofrimento por doença. Felizmente, a mortalidade nestes grupos etários é muito baixa, apenas um caso, mas, para além do sofrimento que levou ao internamento há o risco grave de contágio a quem tem menos robustez para resistir aos efeitos do vírus.

É prioritário fazer tudo para estancar e dominar esta nova vaga, que anda à nossa volta, desta pandemia. O número de hospitalizados e de necessitados de cuidados intensivos avança em modo ameaçador. Sabemos que, sem vacinas, tudo depende de cada um de nós. Temos a missão de não deixar o vírus passar. Os peritos repetem que o uso da máscara e a distância social é arsenal forte para derrotar a progressão da Covid-19.

A maior parte das pessoas já terá interiorizado esta noção. Mas há muita gente que continua entre o descuido, a negligência e o desprezo.

Parece evidente que temos pela frente tempos muito duros que requerem socorro mútuo do ponto de vista social.

A liberdade é um valor absoluto que envolve o respeito pelos outros. Há que articular a luta contra a pandemia com o respeito pelo valor da liberdade. A resposta tem de ser humana.

Vários países estão a recorrer às aplicações para alerta de contacto. Na Alemanha, a Corona Warn App pareceu, de início, ser um êxito, com 18 milhões de aderentes. Mas nesta mesma Alemanha que confirma 360 mil contágios e quase 10 mil mortos, a aplicação, que não é obrigatória, apenas regista 5 mil contágios. No Reino Unido, a NHS Covid 19, lançada em setembro foi descarregada, em um mês, por 16 milhões de utilizadores. Também não está a correr bem. A França lançou a Stop Covid, que, tal como em Portugal a Stay Away Covid (quem se lembrou de a batizar com nome em inglês?)  está a ser muito contestada.

A comunicação humana continua a valer mais do que a tecnológica. Importa explicar o que está em causa, informar com rigor e agir com coerência.

Sabemos que há especialistas em Saúde Pública que defendem a adoção do semáforo ou algo de parecido: no essencial, termos acesso diário ao número de casos e à progressão da pandemia na freguesia onde vivemos, também naquelas que mais frequentamos por ali estudar ou trabalhar. A ministra da Saúde e a Diretora Geral de Saúde (há que lhes reconhecer o esforço e a sensatez dominante ao longo destes sete meses de crise) argumentam que essa sinalização tem o perigo de estigmatizar. Terá. Mas estamos num combate contra uma pandemia que faz da informação uma necessidade ainda mais preciosa, fundamental.

Aliás, ao revelarem-me que há na freguesia com 3 mil residentes uns 150 casos de contágio não estão a dar-me pistas para saber quem são essas pessoas. Mas dizem-me o bastante para apreender que o vírus anda por ali e que devo reforçar prudências.

Precisamos de informação local sobre as movimentações da pandemia.

A questão de fundo persiste: de que modo podemos e devemos adaptar o nosso modo de vida à ameaça da pandemia e limitar ao máximo as consequências negativas?

A realidade recomenda-nos ter em conta a experiência de países como a Coreia do Sul (50 milhões de habitantes) ou Taiwan (24 milhões): seguiram o que as anteriores pandemias (SARS em 2003, MERS em 2015) tinham ensinado, adotaram a máscara como se fosse obrigatória, respeitaram a distância física entre pessoas, respeitaram escrupulosamente a quarentena cumprida em locais designados pelas autoridades de saúde. Assim têm conseguido conter a pandemia sem destroçar o sistema económico e com redução de danos na organização social. Até admitiram a festa mas com máscara sanitária e com distância.

Que percentagem dos que continuam a fazer festa em grupo nas noites portuguesas está a usar máscara? Se a persuasão para a responsabilidade não resulta, há que avançar, sem mais demoras para o recolher noturno obrigatório como o que está em vigor em várias cidades de França e da Bélgica, também em cenários na Alemanha, Países Baixos, Itália e Espanha.

E, sobretudo, disponibilizar a informação de proximidade sobre onde está o vírus. Talvez assim, todos possam ficar, através do esclarecimento, convencidos e que a população portuguesa volte a ser, como em março e abril, bom exemplo europeu.

A TER EM CONTA:

Uma criatura embrutecida e com cabeça frágil passou duas semanas a consumir vídeos com ódio sobre o professor que fez o que devia, conduziu os alunos de 13/14 anos para a discussão sobre a liberdade e a tolerância. A pressão interior alimentada pelo que viu nas redes levou essa criatura à explosão: comprou uma faca de talho, com lâmina com 32 centímetros e degolou aquele professor. A resposta tem de ser com ação determinada, mas evitando o equívoco da amálgama: o mal não está na religião muçulmana, está nos que abusivamente a invocam como pretexto para barbáries.

Faltam duas semanas para a decisão nos EUA. Nate Silver é reconhecido pelo habitual acerto das previsões. O FiveThirtyEight não faz sondagens, analisa probabilidades. Estima que Biden está com 88% de probabilidade de ser eleito.

Um kit para boas conversas.

Três primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.

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